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Deus, Matemática e Dostoievski



Tempo de leitura: 9 minutos.

Apresentamos um trecho do livro Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, retirado do cap. III do Livro V. Contextualizando: em um restaurante, Ivã e seu irmão Aliócha estão conversando sobre diversos assuntos. 

***

Ivã: —  [...] Nós outros, fedelhos, temos como tarefa resolver as questões eternas, eis nosso fim. Agora, toda a jovem Rússia só faz dissertar sobre essas questões primordiais, ao passo que os velhos se limitam às questões práticas. Por que me olhaste durante três meses com um ar ansioso, senão para me perguntar: "Tens fé ou não tens?" Eis o que exprimiam os teus olhares, Alieksiéi Fiódorovitch; não é verdade?

Aliócha: — Pode muito bem ser — concedeu Aliócha, sorrindo. — Mas não estás zombando de mim neste momento, meu irmão?

— Zombando de ti? Não haveria de querer causar pesar a meu jovem irmão, que me olhou durante três meses com tanta ansiedade. Aliócha, olha-me de frente: sou um menino igual a ti, com a diferença de que és noviço. Como procede a juventude russa, pelo menos uma parte? Vai para um botequim de ar viciado, tal como este, por exemplo, e instala-se num canto. Esses rapazes não se conhecem e ficarão quarenta anos sem tornar a encontrar-se. Que discutem eles naqueles breves minutos? Apenas questões essenciais: se Deus existe, se a alma é imortal. Os que não crêem em Deus discorrem sobre o socialismo, a anarquia, sobre a renovação da humanidade; ora, essas questões são as mesmas, mas encaradas sob outra face. E boa parte da juventude russa, a mais original, hipnotiza-se com essas questões. Não é verdade?

— Sim, para os verdadeiros russos, as questões da existência, de Deus, da imortalidade da alma, ou, como dizes, as mesmas encaradas sob outra face, são primordiais, e tanto melhor assim — disse Aliócha, olhando seu irmão, com um sorriso escrutador.

— Aliócha, ser russo não é sempre uma prova de inteligência. Não há nada de mais tolo que as ocupações atuais da juventude russa. No entanto, há um adolescente russo a quem amo bastante.

— Como expuseste bem tudo isso! — disse Aliócha, rindo.

— Pois bem, dize-me por onde começar. Pela existência de Deus?

— Como queiras, podes mesmo começar pela "outra face". Proclamaste ontem que Deus não existia. — Aliócha olhou seu irmão com um olhar penetrante.

— Disse isso ontem em casa do velho, expressamente para irritar-te. Vi teus olhos faiscarem. Mas agora estou disposto a entreter-me seriamente contigo. Desejo entender-me contigo, Aliócha, porque não tenho amigo e quero ter um. Imagina que admito talvez Deus — disse Ivã, rindo. — Não esperavas por isto, hein?

— Sem dúvida, se não brincas neste momento.

— Vamos lá! Foi ontem, em casa do stáriets [*], que se podia achar que eu estava brincando. Sabes, meu caro, que havia um velho pecador no século XVIII que disse: "Si Dieu riexistait pas, il foudrait Vinventer"? [21] E, com efeito, foi o homem quem inventou Deus. E o que é espantoso não é que Deus exista realmente, mas que essa idéia da necessidade de Deus tenha vindo ao espírito de um animal feroz e mau como o homem, tão santa, comovente e sábia é ela, tanta honra faz ao homem. Quanto a mim, renunciei desde muito tempo a perguntar a mim mesmo se foi Deus quem criou o homem, ou o homem quem criou Deus. Bem entendido, não passarei em revista todos os axiomas que os adolescentes russos deduziram das hipóteses européias, porque o que na Europa é uma hipótese torna-se logo um axioma para os ditos. adolescentes, e não somente para eles mas para seus professores, que muitas vezes se lhes assemelham. De modo que afasto todas as hipóteses: qual é, com efeito, nosso desígnio? Meu desígnio é explicar-te o mais rapidamente possível a essência de meu ser, minha fé e minhas esperanças. Assim, declaro admitir Deus, pura e simplesmente. É preciso notar, no entanto, que, se Deus existe, se criou verdadeiramente a terra, fê-la, como se sabe, segundo a geometria de Euclides, e não deu ao espírito humano senão a noção das três dimensões do espaço. Entretanto, encontraram-se, encontram-se ainda geômetras e filósofos, mesmo eminentes, para duvidar de que todo o universo e até mesmo todos os mundos tenham sido criados somente de acordo com os princípios de Euclides. Ousam mesmo supor que duas paralelas que, de acordo com as leis de Euclides, jamais se poderão encontrar na terra, possam encontrar-se, em alguma parte, no infinito. Decidi, sendo incapaz de compreender mesmo isto, não procurar compreender Deus. Confesso humildemente minha incapacidade em resolver tais questões; tenho essencialmente o espírito de Euclides: terrestre. De que serve querer resolver o que não é deste mundo? E aconselho-te a jamais quebrar a cabeça a respeito, meu amigo Aliócha, sobretudo a respeito de Deus: existe ele ou não? Essas questões estão fora do alcance dum espírito que só tem a noção das três dimensões. Assim, admito Deus, não só voluntariamente, mas ainda sua sabedoria, seu fim que nos escapa; creio na ordem, no sentido da vida, na harmonia eterna, na qual se pretende que nos fundiremos um dia: creio no Verbo para o qual propende o Universo que está em Deus e que é ele próprio Deus, até o infinito. Estou no bom caminho? Imagina que, em definitivo, esse mundo de Deus, eu não o aceito e, embora saiba que ele existe, não o admito. Não é Deus que repilo, nota bem, mas a criação; eis o que me recuso admitir. Explico-me: estou convencido, como uma criança, de que o sofrimento desaparecerá, que a comédia revoltante das contradições humanas se esvanecerá como uma lamentável miragem, como a manifestação vil da impotência mesquinha, como um átomo do espírito de Euclides; que no fim do drama, quando aparecer a harmonia eterna, uma revelação se produzirá, preciosa a ponto de enternecer todos os corações, de acalmar todas as indignações, de resgatar todos os crimes e o sangue vertido; de sorte que se poderá não só perdoar, mas justificar tudo quanto se passou sobre a terra. Que tudo isso se realize, seja, mas não o admito e não quero admiti-lo. Que as paralelas se encontrem sob meus olhos, verei e direi que se encontraram; e no entanto não o admitirei. Eis o essencial, Aliócha, eis minha tese. Comecei expressamente nossa conversa duma maneira que não podia ser mais idiota, mas levei-a até minha confissão, porque é o que esperas. Não era a questão de Deus que te interessava, mas a vida espiritual de teu irmão querido. Tenho dito.

Ivã acabou sua longa tirada com uma emoção singular, inesperada.

— Mas porque começaste de "uma maneira que não podia ser mais idiota"? — perguntou Aliócha, olhando com ar pensativo.

— Em primeiro lugar, por cor local: as conversas dos russos sobre esse tema travam-se sempre idiotamente. Em seguida, a idiotice aproxima do fim e da clareza. É concisa e não faz astúcia, o espírito usa de atalhos e escapa-se. O espírito é desleal, mas há honestidade na idiotice. Quanto mais idiotamente confessar o desespero que me acabrunha, tanto melhor valerá isto para mim.

— Explicar-me-ás por que "não admites o mundo"?

— Decerto, não é um segredo e ia fazer isso mesmo. Meu irmãozinho, não tenho a intenção de perverter-te, nem de abalar tua fé. Sou eu antes que quereria curar-me ao teu contato — disse Ivã com o sorriso duma criança. Aliócha jamais o vira sorrir assim.

Notas:

[*] Stáriets Zósima: Monge idoso e pobre, respeitado pela sua bondade e sabedoria.

[21] "Se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo" Citação da Epístola ao Autor dos "Três Impostores", de Voltaire.

***

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