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Educar na Verdade e nas virtudes

Menino escrevendo com sua irmã, 1875, Albert Anker

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Tempo de leitura: 14 minutos.

Educar na Verdade: quando as virtudes superam a ciência, Por Claudio Titericz. disponível no LINK.

A ciência é valiosa, mas limitada. Só o intelecto humano, aliado às virtudes, pode alcançar a verdade — e a educação deve formar para isso. 

Gostaria de refletir sobre o entendimento do que seja ciência e como se relaciona com a educação. Faço isto porque, várias vezes, tenho ouvido em meios de comunicação que a verdade deve ser científica para ser considerada. Isto parece dar uma autoridade especial à ciência ou pesquisas científicas como se fossem a última palavra em conhecimento da realidade humana.

Entretanto, ao meditar o sexto livro escrito por Santo Tomás de Aquino, quando este realizou o comentário ao livro de Aristóteles intitulado “Ética a Nicômaco”, verificamos que o entendimento filosófico sobre o que seja a ciência não é corretamente compreendido. Vejamos o que diz o santo doutor católico.

A alma humana tem uma parte dita racional, a qual pode ser racional por essência ou por participação. Ainda, a parte por essência divide-se em científica e raciocinativa. Esta parte, que é dita por essência, necessita para seu desenvolvimento de virtudes intelectuais, enquanto a participativa exige um aperfeiçoamento por meio das virtudes morais.

A divisão da parte por essência dirige-se para a especulação do necessário, por isto chama-se “científica”, enquanto para especular os contingentes, se faz necessário a raciocinativa.

Devemos entender que para tomarmos uma decisão racional, o ser humano elege dependendo do seu intelecto e do seu hábito moral, fato que aperfeiçoa a força apetitiva, dando-lhe condições de utilidade, de deleitação e a busca do bem honesto. Podemos dizer que sem uma especulação científica e raciocinativa não se tem certeza de uma decisão ou julgamento.

Isto está de acordo com tudo o que já escrevi aqui em outros artigos. O ser humano tem uma alma com uma inteligência e uma vontade própria, sendo que esta última é cega, necessitando do esclarecimento da primeira. Esta busca da verdade, própria da inteligência, é o âmago do que estamos falando, enquanto a vontade sempre busca o bem para si e para os seus.

Existem, em suma, duas grandes obras próprias do homem: o conhecimento da verdade e a ação. Ambas as atividades se completam e exigem do intelecto o do conhecimento da verdade que só pode vir da prática ou raciocinativa, e da especulativa ou científica.

Nos atentarmos às considerações sobre a parte da alma racional por essência, uma vez que está diretamente ligada ao tema que desenvolvo aqui, ou seja, o chamado "conhecimento científico". Outras reflexões sobre os demais aspectos deixaremos para artigos futuros.

Para aperfeiçoar esta parte do intelecto são buscadas as virtudes intelectuais. São várias e as principais são: a ciência, a arte, a prudência, o intelecto e a sabedoria. Vamos entender cada uma delas.

As Virtudes Intelectuais e o alcance da Verdade

A ciência só o é do que seja eterno e nunca do contingente. Isto significa que os entes contingentes são incertos, podem ser ou não ser, enquanto os entes eternos, os quais são também chamados necessários, nunca poderão deixar de ser, nunca serão corrompidos e não se geram e é para estes que se volta a ciência. Ela é demonstrável e ensinável.

Aristóteles diz ser um sinal da ciência o poder ensinar e o modo de obter este ensinamento pode ser por indução ou por dedução. Neste primeiro modo se parte do particular para o universal e o segundo modo, também dito silogismo, parte-se do universal para o singular.

Já a arte é um fazer, mas não qualquer fazer, mas um fazer com o uso da razão. Nunca haverá arte sem uma razão e não há ação realizada com razão que não seja arte. Aqui fica claro que é um hábito voltado para os entes contingentes, pois uma arte pode ser realizada ou não, trata-se de coisas artificiais onde o fim é a própria arte realizada.

Também no campo dos contingentes, a prudência é aconselhar-se sobre o que vem a ser o bem útil, com o fim de produzir uma vida humana boa. É um hábito ativo com verdadeira razão, não acerca do factível, que são exteriores ao homem, mas acerca dos bens e dos males do próprio homem. A prudência não visa o fim no objeto construído, mas no próprio realizador, enfim o bem da ação está no próprio agente, está nos bens do homem.

O intelecto, na visão aristotélica, não é a própria potência intelectiva, mas sim um hábito voltado para os primeiros princípios, os quais por serem os primeiros são indemonstráveis. É necessário que exista no ser humano esta percepção de que existe um princípio de raciocínio, sem o que não podemos pensar coisa alguma.

Por último, vemos que a sabedoria é uma virtude intelectual por excelência. Por este hábito o ser humano tem a visão clara da causa final, determinando, portanto, diante do início de qualquer processo, o resultado a que vai se atingir com as ações planejadas, caso sejam realizadas. A sabedoria enxerga os princípios, aponta os erros e identifica a linha de causalidade, demonstrando com certeza os resultados.

Ciência, indução e o risco das Verdades Provisórias

Depois de apresentar estas principais virtudes intelectuais, acredito poder aprofundar meu ponto de vista sobre o que seja a ciência e de como está sendo utilizada indevidamente.

Bem, a ciência é um hábito demonstrativo e que se utiliza do conhecimento adquirido para, a partir deste, evoluir para novas conclusões. São dois os modos de realizar a intelecção na ciência, como já abordei acima, a indução e a dedução.

A dedução nos conduz sempre a uma verdade inquestionável. Vou dar um exemplo: o todo é maior que as partes. Outro exemplo característico da filosofia é o silogismo categórico, onde eu digo: todo homem é mortal, eu sou um homem, portanto, eu sou mortal.

Podemos verificar a certeza e a correção lógica, fatos que não afrontam o raciocínio intelectual de forma alguma e a conclusão será uma verdade e, como tal, não pode ser contestada, seja no ontem, no hoje ou no amanhã, seja aqui neste mundo ou em qualquer outro planeta. A verdade é eterna.

Agora, na indução, os princípios universais do que se busca não são conhecidos e parte-se do particular, do singular, para o universal. Neste caso, os resultados por vezes se aproximam de uma verdade, sem nunca garantir totalmente esta verdade. Assim, quase sempre os resultados de uma indução são expressos em probabilidades.

Algum leitor poderia perguntar se este método não traz certeza, por que o realizar? Responderia que, infelizmente, não temos condições de buscar respostas para todos os questionamentos que a humanidade procura utilizando a dedução, neste caso resta-nos a indução. Vejamos alguns exemplos.

Diante da pergunta: como surgiu a Terra? Como não temos informações para deduzir a resposta, partimos para a indução, ou seja, verificamos os resultados que nos aparecem e inferimos as suas causas.

Neste caso, é formulado uma teoria, a qual diz ter ocorrido uma grande expansão há 14,5 bilhões de anos e de lá ocorreu um movimento até que há 4,5 bilhões de anos surge a nossa Terra. Outra teoria é sobre como a humanidade surgiu após estes 4,5 bilhões de anos. E mais uma teoria se forma.

Vejam, não é possível ter a certeza, apenas probabilidades e se montam modelos que subsistem até que surgem novas observações e experiências que levam a aperfeiçoamento ou mudanças completas da teoria vigente. Poderia citar o embate entre Einstein e Newton como um exemplo de mudança de teoria e de modelo científico.

Acredito poder demonstrar que é aqui, no raciocínio indutivo, que se encaixa a ciência. Quando é impossível ter conclusões certeiras nos temas onde não há possibilidade da dedução, é aqui que podemos utilizar nossa capacidade intelectual na avaliação de experiências e verificar a relação causal nestes testes, verificando probabilidades de resultados. Também aqui é onde a sabedoria será mais necessária, quando se interpretam resultados muitas vezes anômalos.

Desta forma, quando nos apropriamos de resultados experimentais realizados em órgãos sérios, tais como uma universidade por exemplo, pode nos dar uma ideia de probabilidade, mas nunca a certeza do resultado. Pode por vezes ser apresentado sob um verniz acadêmico uma informação que no fundo não passa de uma probabilidade, nunca uma verdade.

Não podemos esquecer que a verdade não é a narrativa. Fica claro que muitas pessoas e meios de comunicação dizem a mesma coisa, não significa que esta informação seja correta.

Muitas vezes é apenas um modelo adotado até que as ciências experimentais tragam mais teste e mais dados no raciocínio indutivo e possibilita que se monte um modelo, ou se altere um anterior. Quando nos deparamos com a verdade, esta nunca muda, me parece óbvio.

Com esta rápida reflexão, podemos concluir que a educação e o ensino têm papeis fundamentais em todo este processo que envolve a ciência.

"É na formação da inteligência que se deve voltar a educação para enfrentar estes desafios indutivos que acompanham a sociedade moderna"

Verificamos que o foco educacional deve ser o desenvolvimento das virtudes e que aqui apenas falamos das intelectuais.

O ser humano otimamente educado buscará realizar ações, para isto deverá saber uma arte, a qual está fundada em uma ciência, deverá realizar esta arte com prudência e sabedoria, utilizando plenamente o seu intelecto. A tecnologia em si é ignorante sem uma inteligência que a direcione para o bem.

Identificar vários órgãos nacionais e internacionais que se arvoram em resultados acadêmicos, os quais são sempre indutivos, para aplicarem recursos com a finalidade de obter resultados financeiros, independentemente das consequências negativas, por vezes óbvias.

A ciência parte sempre de algo conhecido, tal qual a mente humana, mas não tem como saber a priori os resultados, e aí realiza testes e experiências buscando sequências lógicas para formular teorias. Quanto mais testes, mais perto de resultados satisfatórios, entretanto, nunca se atingirá a certeza, ou seja, a verdade do que se explora.

Por fim, os métodos experimentais não têm a capacidade de apontar as causas, tão somente a inteligência humana pode fazer isto. A verdade está no intelecto, não fora dele. Também gostaria de deixar claro que suspeitas e opiniões não são virtudes intelectuais, mesmo partindo de personalidades daquela área de estudos.

Os verdadeiros cientistas são humildes o suficiente para dizer que não sabem e estão buscando o conhecimento e aquilo que já sabem serão aprimorados pelos seus seguidores. A ciência é um excelente auxiliar para a natureza humana, mas não é uma formuladora de verdades.

***

Claudio Titericz, coronel reformado do Exército, é bacharel, mestre e doutor em Ciências Militares e bacharel em Teologia; estudante permanente de Filosofia da Educação e ex-integrante do Ministério da Educação e é um dos fundadores do Instituto de Biopolítica Zenith, autor do livro “O Problema da Educação Brasileira”.

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Leia mais em O declínio da escola tradicional

Leia mais em A diferença entre a Educação Clássica e a atual



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Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 5

Rose e Bertha Gugger, por Albert Anker, 1883.

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Continuando com nossas tradicionais listas de livros sobre Educação, já chegamos à quinta parte. Essas listas tem sido um sucesso de acessos. Muito Obrigado. O critério destas listas continua sendo o mesmo: livros sobre educação sem influências ideológicas e que estivessem preocupados em explanar sobre uma verdadeira educação. Novamente muitos desses livros foram publicados pela primeira vez ou republicados recentemente no Brasil. Obviamente esta lista complementa e amplia as listas anteriores. 

As listas anteriores estão abaixo: 

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 1

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 2

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 3

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 4



A Tradição Das Artes Liberais. Kevin Clark e Ravi Scott Jain, Edições Kírion, 2021.

Sinopse: Este livro é sobre uma educação completa nas “artes liberais”, as disciplinas fundamentais que os estudantes terão como base pelo resto de sua vida acadêmica, independentemente das disciplinas especializadas que venham a estudar no futuro, na faculdade e na pós-graduação. Acima de tudo, são disciplinas que precisamos conhecer para a vida, para uma vida que seja livre e não servil (donde o termo educação liberal). É uma educação da pessoa integral. Baseia-se na tradição consagrada da educação liberal inventada pelas maiores mentes da história. É o melhor do antigo e o melhor do novo. ― Peter Kreeft 

Todo educador, acadêmico ou leitor interessado na renovação da educação clássica hoje não pode dar-se ao luxo de ignorar este livro sucinto. A tradição das artes liberais, talvez mais do que qualquer outro livro no século XXI, nos diz o que foi a educação clássica e o que ela pode ser hoje nas nossas escolas e na educação domiciliar. ― Christopher Perrin 

A tradição das artes liberais é um grande presente para as mães adeptas da educação domiciliar. Escrito com beleza, tem cada página agraciada pelo encanto da verdade. Um antídoto para a minha própria educação progressista, este livro reordenou os meus pensamentos e prioridades. Trata-se de um convite irresistível para voltarmos à humanidade, à plenitude e ao maravilhamento. ― Lesli Richards



A Beleza na Palavra: As bases da educação repensadas. Stratford Caldecott, Edições Kírion, 2024.

Sinopse: Stratford Caldecott fala àqueles pais e professores que pretendem tomar de volta para si a responsabilidade sobre a educação, seja tirando seus filhos das escolas para educá-los em casa, seja, especialmente, fundando novas escolas, que tenham na base os seus princípios, os seus valores, que tenham respeito pela fé e, como objetivo último, a sabedoria. Para isso, é necessário compreender as premissas que tornam possível uma verdadeira educação e, sobretudo, compreender a essência da educação clássica, para saber como aplicá-la, como atualizá-la eficazmente em nossa situação concreta de hoje, e não apenas reproduzir esquemas engessados. Investigando suas bases filosóficas e teológicas, Caldecott brinda-nos aqui com uma interpretação renovada das três artes do Trivium, as artes da Palavra ― gramática, dialética e retórica ―, que ele apresenta como as três atividades humanas (e divinas) de “recordar”, “pensar” e “falar”.

Essa é uma educação firmada na realidade ― a realidade do mundo e das pessoas. A criança, pela memória, percebe a realidade; mais velha, pelo pensamento, explora mais realidades; já jovem, pela fala, ela compartilha as realidades com os outros, em uma comunidade. É uma educação em que a luz atravessa o coração e a inteligência. Depois de uma longa jornada nas profundezas da monotonia e do desânimo, é como se esse sábio e alegre homem finalmente nos chamasse para subir e ver com ele, outra vez, as estrelas.”

Anthony Esolen



A educação segundo Aristóteles. Traduzidos e editados por John Burnet. Edições Kírion, 2023.

Sinopse: Este volume é composto por trechos extraídos da Ética a Nicômaco e da Política de Aristóteles, editados e traduzidos pelo grande helenista escocês John Burnet, que os emoldura, além disso, com uma esclarecedora introdução e com riquíssimas notas de rodapé. Seu objetivo é revelar, com toda precisão, o que é a educação segundo Aristóteles, e que lugar ela tem no contexto geral de sua filosofia, com base em suas próprias concepções. Para tal, ele expõe a teoria das causas, e os conceitos de ação, virtude e felicidade; explana qual é, para o filósofo, o bem do homem, e o que é exatamente a ciência política. Como admirável professor, Burnet nos conduz de tal modo que, quando nos entregamos à leitura dos textos mesmos, o que antes pareceria árido deixa transparecer facilmente todo o seu sentido.



Emburrecimento Programado: O Currículo Oculto Da Escolarização Obrigatória. John Taylor Gatto, Edições Kírion, 2019
 
Sinopse: O debate atual sobre termos um currículo nacional é uma farsa. Já temos um currículo oculto cujo objetivo é emburrecer, e nenhuma mudança nos conteúdos pode reverter seus efeitos macabros. As escolas ensinam exatamente o que pretendem, e o fazem muito bem: elas são um mecanismo de engenharia social. Está na hora de encararmos o fato de que a escola obrigatória é nociva para as crianças e que fazer remendos não resolverá o problema. A culpa não é dos professores ruins ou da falta de investimento: injetar mais dinheiro ou mais gente nessa instituição doente fará apenas com que ela fique ainda mais doente. Se queremos mudar o que está rapidamente se transformando num desastre de ignorância, temos de compreender que a instituição escolar serve para “escolarizar”, mas não para “educar”, e que “educar” e “escolarizar” são termos mutuamente excludentes. É urgente ignorarmos as vozes autorizadas da televisão e da mídia e recuperarmos as premissas fundamentais de uma verdadeira educação.



Armas De Instrução Em Massa.  John Taylor GattoEdições Kírion, 2021.

Sinopse: Será que precisamos mesmo da escola? Não me refiro à educação, mas à instrução institucional: seis aulas por dia, cinco dias por semana, nove meses por ano ― por doze anos. Essa rotina extenuante é realmente necessária? É considerável o número de homens notáveis ― artistas, empresários, escritores e eruditos ― que não passaram por esses torturantes anos e se deram muito bem. Alguém os ensinou, é claro, mas eles não são produtos de um sistema escolar, e nenhum deles jamais “se formou”. Nós fomos instruídos a pensar que “sucesso” é sinônimo de “escolaridade”, mas isso não é historicamente verdadeiro, nem no sentido intelectual, nem financeiro. Se realmente quiséssemos, seria fácil ajudar as crianças a adquirirem uma educação em vez de apenas receberem uma instrução em massa. Mas os professores, como funcionários da escola, estão presos em estruturas ainda mais rígidas do que aquelas que impõem às crianças. De quem é a culpa, então? E se não houver um “problema” com as nossas escolas? E se elas são como são, não porque estão fazendo algo errado, mas por estarem acertando?



Etymologiae: De Isidoro de Sevilha, Traduzido por Ariel Placidino Silva, Editora Uiclap 2023.

Sinopse: A monumental Etymologiae de Isidorus Hispalenses, na íntegra e em volume único. Em colunas paralelas dispondo o texto original e sua tradução, a obra é uma edição bilíngue apresentada como a única em língua portuguesa. | “Isidoro de Sevilha, salientando-se como enciclopedista, teólogo e historiador, escreveu A Etymologiae, qual durante séculos, foi tida por uma das mais valiosas obras de referência. A póstumo, esse notável acervo de conhecimento tornou-se uma coleção obrigatória nas bibliotecas medievais, e suas etimologias se transmitiram até o fim do século XIV. “ ― Ariel P. S.
Isidoro de Sevilha, em lat. Isidorus Hispalenses, doutor da Igreja, nasceu em Cartagena c, 560 e morreu em Sevilha em 636. Sucessor de seu irmão Leandro como arcebispo de Sevilha 600). Presidiu em 633 um concilio em Toledo. Salientando-se como enciclopedista, teólogo e historiador, reuniu em Etymologiae notável acervo dos conhecimentos de seu tempo, o que as tornou durante séculos, uma das mais valiosas obras de referência. Além de autor de vários tratados, nos campos da linguística, da ciência natural, da história e da cosmologia, foi o organizador da Igreja da Espanha e combateu os visigodos arianos. Proclamado doutor da Igreja em 1722, é festejado a 4 de abril. 
Etymologiae (Etimologias) é uma enciclopédia em vinte volumes. Segundo Isidoro, a natureza primitiva e a essência das coisas se reconhecem pela etimologia dos nomes que as designam. A enciclopédia de Isidoro era obrigatória nas bibliotecas medievais, e suas etimologias se transmitiram até o fim do século XIV. Essa obra monumental abrangia desde a gramática, a retórica, e a dialética, passando pelas línguas, pelos povos, Estados, famílias, a agricultura, a horticultura a marinha, o vestuário, as artes domésticas, os instrumentos, até os membros da Igreja, os anjos e Deus.” Encyclopaedia Brtinannica do Brasil [Mirador]  Filosofia Patrística (35.-1).



Fundamentos e Fins da Educação. Francisco Ruiz Sánches. Editora Verbo Encarnado, 2025.

Sinopse: um livro essencial que denuncia ideologias totalitárias na educação e apresenta uma filosofia realista baseada em Santo Tomás de Aquino.
Reflexão perene para pais e educadores que buscam verdade, objetividade e transcendência no ensino.
Fundamentos e Fins da Educação
Este livro, justamente por conter uma filosofia realista sobre o homem e a educação, conserva seu valor perene numa época de enorme confusão. Uma época em que, em muitos lugares, o Estado moderno se erige autoritário, impondo um pensamento único sobre educação, até mesmo negando aos pais esse direito sobre os filhos. Manifestação esta do totalitarismo marxista na educação – fortemente denunciado neste livro – tendo seu auge na segunda metade do século passado, e que hoje, subjacente, procura se impor disfarçado com outros nomes que nada mais são do que desdobramentos do mesmo marxismo, tais como o feminismo radical, o transumanismo ou a famigerada “teoria de gênero” ou gender.
O valor perene do pensamento contido neste livro reside no fato de se fundamentar na filosofia do ser, tendo Santo Tomás de Aquino como seu principal guia, cuja eleição como mestre lhe confere precisamente um caráter objetivo, universal e transcendente. Porque o pensamento de Santo Tomás esteve sempre no horizonte da verdade universal, objetiva e transcendente.


Educação Católica. Mario Casotti, Editora Verbo Encarnado, 2022

Sinopse: Neste livro, Mário Casotti vai na contramão da corrente relativista em voga na educação de hoje em dia. Em Educação Católica, o autor parte do princípio de que a fé representa um aspecto essencial do homem e não somente uma relação de confiança, pois inclui realmente a aceitação das verdades reveladas por Deus. Agora, se a educação é uma atividade que visa a formação do ser humano na Verdade, todo sistema pedagógico que exclua a fé e as verdades reveladas será, por definição, incompleto. 




Mestre e Aluno. Mário CasottiEditora Verbo Encarnado, 2025.

Sinopse: análise profunda da educação moderna, denunciando ideologias totalitárias e defendendo a liberdade dos pais.
Baseado na filosofia de Santo Tomás de Aquino, oferece uma visão objetiva e universal para formar mentes e corações em busca da verdade.
Mestre e Aluno
Mário Casotti é, sem dúvidas, um dos maiores representantes da pedagogia contemporânea italiana. Seu grande mérito foi o de reconduzir a arte pedagógica aos fundamentos ontológicos, antropológicos e gnosiológicos da filosofia perene de Santo Tomás de Aquino. Transcorridos, porém, quase 50 anos de sua morte, seu fecundo pensamento e sua vasta obra caíram em um quase que total esquecimento. Parece que a boa semente terminou sufocada pelos pedregulhos e pelos espinhos do mundo impregnado de tantas ideologias que descendem, de um modo ou de outro, do materialismo e do idealismo.
Essa semente, contudo, não morreu. Ela permanece dormente aguardando uma terra fértil para poder dar seus frutos. Deus permite o mal, dispondo em sua providência que dele redunde um bem muito maior. Os estragos que o pensamento moderno e pós-moderno causaram parecem ter sido também a ocasião para um renovado interesse no pensamento do Doutor Angélico que estamos presenciando nos últimos anos. Um renascimento das cinzas que tem mostrado inclusive aqui, na Terra de Santa Cruz, um ímpeto notável.


Escritos Pedagógicos, de São João BoscoEditora Verbo Encarnado, 2025.

Sinopse: Os escritos pedagógicos de São João Bosco constituem um tesouro inestimável para a Igreja e para o mundo da educação. Neles, o Santo não apenas deixou um método educativo, como também um espírito, uma forma de entender a vida e a missão de guiar os jovens para o bem, a verdade e a beleza. Sua obra transcende o tempo e continua a iluminar o caminho de todos aqueles que se dedicam à nobre missão de educar.
Dom Bosco acreditava firmemente que a educação deveria ser integral, formando não apenas o corpo e a mente, como também o coração e a alma. Como afirma São João Paulo II, “a tarefa primária e essencial da cultura em geral, e mesmo de cada cultura em particular, é a educação, que consiste em fazer com que o homem seja cada vez mais homem, que possa ‘ser’ mais e não apenas ‘ter’ mais” (Carta Iuvenum Patris, n. 1). Para Dom Bosco, o homem formado e maduro é o cidadão que tem fé, aquele que coloca no centro de sua vida o ideal do novo homem proclamado por Jesus Cristo, e que testemunhe sem respeito humano, suas convicções religiosas.



Educação, Cultura e Maturidade. Miguel Ángel Fuentes, Editora Verbo Encarnado, 2022.

Sinopse: A Educação Pede Socorro. O Brasil nunca precisou tanto de obras que tratassem do tema educação como agora. Todos os anos, bilhões de reais investidos nesta área são jogados no lixo por causa da falta de uma verdadeira educação.
Os alunos saem dos centros educacionais reféns de um analfabetismo funcional e dos delírios de uma mente ideologizada. Nenhum dos sistemas educacionais em vigor propõe uma formação integral do ser humano.
Neste livro você aprenderá os princípios de uma verdadeira educação católica.
Educação, Cultura e Maturidade, de Pe. Miguel Ángel Fuentes, IVE
Além de tratar da educação e da maturidade, em Educação, Cultura e Maturidade, o Pe. Miguel Ángel Fuentes pretende explicar as raízes históricas e pedagógicas do problema da educação contemporânea e propor sua solução: o retorno à boa e sã filosofia, iluminada pela teologia.
Um bom método de estudo que desenvolva a integridade da pessoa humana é a chave para fazer com que o homem se reencontre consigo mesmo e, sobretudo, com Deus.



A imaginação educada. Northrop Frye, Editora Sétimo Selo, 2024.

Sinopse: Nenhuma sociedade humana é tão primitiva que não tenha alguma espécie de literatura. No entanto, é muito comum pensar no estudo literário como um métier elegante. Afinal de contas, o que é a literatura? De que adianta e como ensiná-la? Qual é seu valor social, político e religioso? Ajuda ela a pensar com mais clareza, a perceber com mais sensibilidade ou a viver melhor? Qual é o lugar da imaginação no processo de aprendizagem? E mais importante: é possível educar a imaginação? São estas e outras perguntas a que Northrop Frye, um dos influentes críticos literários do século XX, procura responder. Mais do que dicas pontuais, o leitor encontrará neste livro uma concepção abrangente de educação, de literatura e de mundo, capaz de orientar um processo pedagógico desde o início.



Educação Católica e Homeschooling. Kimberly Hahn e Mary Hasson, Editora Ecclesiae, 2021.

Sinopse: Unido a teoria e a prática, o secular e o sagrado, este livro compreende desde o planejamento e o conteúdo do ensino domiciliar, com sugestões de métodos e materiais, até a formação espiritual das crianças no seio da família. As autoras explicam os benefícios e objetivos do homeschooling, além de responderem aos principais questionamentos sobre ele. Elaborada por duas mães educadoras de comprovada experiência, a obra é um guia de como os pais podem edificar seu lar de modo que seus filhos estabeleçam um relacionamento pessoal com Deus, em primeiro lugar, e recebam a melhor formação humana e intelectual possível.



Educação Católica: guia para pais e educadores. John D. Redden e Francis A. Ryan, Editora Minha Biblioteca Católica, 2026. [Este livro foi publicado pela Livraria Agir Editora em 1973 sob o título de Filosofia da Educação].

Sinopse: Educação Católica Educação Católica: guia para pais e educadores | Filosofia da educação católica. Livro de John D. Redden e Francis A. Ryan sobre os fundamentos da educação católica. Indicado para pais e educadores interessados na formação segundo a tradição da Igreja.
Educação Católica: guia para pais e educadores, de John D. Redden e Francis A. Ryan, é uma obra clássica que apresenta com clareza e profundidade os fundamentos da educação inspirada na tradição católica. Baseado na filosofia escolástica e na compreensão integral do ser humano, o livro mostra como a formação cristã deve abranger corpo, inteligência, vontade e vida espiritual, orientando o educando para sua finalidade última em Deus.
Ao longo de suas páginas, os autores explicam por que a educação não pode ser reduzida a técnicas pedagógicas ou a teorias modernas passageiras. Para eles, toda educação depende de uma visão verdadeira do homem e da realidade. A partir dessa perspectiva, a obra apresenta os princípios permanentes da filosofia católica da educação e analisa criticamente correntes modernas que reduzem o homem a dimensões apenas biológicas, sociais ou econômicas.
Os autores também demonstram que a educação católica busca formar o homem integral, desenvolvendo harmoniosamente todas as suas capacidades. Por isso, a verdadeira educação não se limita à instrução intelectual: ela envolve também a formação moral, espiritual e cultural, preparando o indivíduo para viver a verdade, praticar a virtude e contribuir para o bem comum.
Trata-se, portanto, de um livro especialmente valioso para pais e educadores que desejam compreender a missão formativa da educação à luz da fé católica e da tradição filosófica cristã.

Quem foram John D. Redden e Francis A. Ryan
John D. Redden (1903–1959) e Francis A. Ryan (1887–1955) foram educadores e pensadores católicos dedicados ao estudo da filosofia da educação. Atuaram na formação de professores e na reflexão pedagógica no meio acadêmico ligado à tradição católica nos Estados Unidos.
Seus estudos buscaram integrar a tradição filosófica clássica — especialmente a herança aristotélico-tomista — com os desafios educacionais da sociedade moderna. A obra tornou-se uma referência importante para escolas, universidades e programas de formação docente interessados em compreender a educação à luz da tradição cristã.




A Mente Bem Treinada: Um Guia Para Educação Clássica Em Casa. Susan Wise Bauer e Jessie Wise, Editora Klasiká Liber, 2021.

Sinopse: Após quarenta anos de experiência em educação, Jessie e Susan Wise chegaram a uma simples conclusão: se você deseja que seu filho tenha uma educação excelente, precisa assumir o comando pessoalmente. Você não tem de reformar o sistema escolar inteiro, nem deve se preocupar com o falatório sobre a complexidade da formação de um professor. Tudo o que você tem de fazer é ensinar seu próprio filho. Esqueça tudo o que ouviu sobre a necessidade absoluta das salas de aula e sobre psicopedagogia: essas coisas são necessárias para um professor que tem de encarar uma turma de trinta crianças em ebulição ou de vinte adolescentes desligados, mas a sua tarefa é inteiramente diferente. Tudo que você precisa para ensinar seu filho em casa é dedicação, algum conhecimento básico sobre como as crianças aprendem, uma boa orientação nas habilidades específicas de cada matéria e uma grande quantidade de livros. “A mente bem treinada” oferece tudo isso a você ― exceto a dedicação. Eis um manual completo de educação clássica, que o ajudará a ensinar seus filhos a ler, escrever, calcular, pensar e entender.

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Leia mais em Lista de Livros Clássicos, segundo o Instituto Hugo de São Vitor

Leia mais em Livros para aprender bem Matemática



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Sobre o Ensino em S. Tomás de Aquino

Santo Tomás de Aquino, escrevendo em
frente do crucifixo, por Antonio Rodríguez

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Tempo de leitura: 46 minutos. 

Texto retirado do livro Sobre o ensino (De magistro) e Os sete pecados capitais, de S. Tomás de Aquino, com tradução e estudos introdutórios por  Luiz Jean Lauand, Editora Martins Fontes, 2000.

Apresentação

Apresentamos ao leitor dois importantes estudos de Tomás de Aquino: um dedicado ao ensino, outro à ética: Sobre o ensino e Os sete pecados capitais.

No estudo e apêndices que os acompanham, mais do que esmiuçar as teses que o leitor irá encontrar no próprio texto de Tomás, optamos por privilegiar, em cada caso, o referencial mais amplo que permita situar - no quadro de sua filosofia - cada um desses opúsculos do Aquinate: assim, apresentamos os conceitos fundamentais da antropologia e do conhecimento como prólogo ao Sobre o ensino e um enquadramento da ética - em sentenças do próprio Tomás - como Apêndice aos Pecados capitais, além de uma seleção especial de sentenças sobre a inveja e a avareza.

Sobre o ensino, o De magistro, é a questão 11 das Quaestiones Disputatae de Veritate [1] de Tomás e segue o sistema geral dessas aulas do Aquinate (por essa razão, retomamos em sua introdução algumas considerações que tecíamos ao apresentar, para esta mesma coleção, as questões sobre a verdade e o verbo [2]).

O opúsculo Os sete pecados capitais compõe-se de uma seleção de trechos das obras Questões disputadas sobre o mal [3] e da Suma teológica.

LUIZ JEAN LAUAND
março de 2000


Introdução

Sendo o De magistro de Tomás uma das questões disputadas sobre a verdade (a de nº 11), comecemos por relembrar o papel que essas questões tinham na universidade medieval .

A quaestio disputata, essência da universidade medieval

Da primeira regência de Tomás na Universidade de Paris procedem as Quaestiones Disputatae de Veritate. Essas questões foram disputadas em Paris de 1256 a 1259: as questões 1 a 7 (sobre a verdade; o conhecimento de Deus; as idéias divinas; o verbum; a Providência Divina; a predestinação e o "livro da vida") são do ano letivo 1256-7; as de 8 a 20 (sabedoria angélica; comunicação angélica ; a mente como imagem da Trindade; o ensino; a profecia como sabedoria; o êxtase; a fé; a razão superior e a inferior; a sindérese; a consciência; o conhecimento de Adão no Paraíso; o conhecimento da alma depois da morte e o conhecimento de Cristo nesta vida), de 1257-8, e as de 21 a 29 (a bondade; o desejo do bem e a vontade; a vontade de Deus; o livre-arbítrio; o apetite dos sentidos; as paixões humanas; a gra­ça; a justificação do pecador e a graça da alma de Cristo), de 1258-9.

A quaestio disputara, como bem salienta Weisheipl [1], integra a própria essência da educação escolástica: "Não era suficiente escutar a exposição dos grandes livros do pensamento ocidental por um mestre; era essencial que as grandes idéias se examinassem criticamente na disputa." E a disputatio, na concepção de um filósofo da universidade como Pieper, transcende o âmbito organizacional do studium medieval e chega até a constituir a própria essência da universidade em geral [2].

Para que o leitor possa bem avaliar o significado de uma quaestio disputara em S. Tomás, apresentaremos o modus operandi dessas quaestiones, procurando também indicar a ratio pedagógica que as informa.

Uma quaestio disputata está dedicada a um tema - como por exemplo a verdade ou o verbum - e divide-se em artigos, que correspondem a capítulos ou aspectos desse tema . Naturalmente, por detrás da "técnica pedagógica" está um espírito: a quaestio disputata, como analisaremos em tópico ulterior, traduz a própria idéia de inteligibilidade - devida ao Verbum (o Logos divino, o Filho) -, ao mesmo tempo que a de incompreensibilidade, a de pensamento "negativo" , também fundada no Verbum...

Procurando veicular, operacionalizar em método a vocação de diálogo polifônico - que constitui a razão de ser da universitas -, primeiro enuncia-se a tese de cada artigo (já sob a forma de polêmica: "Utrum... [3]") e a quaestio começa por um videtur quod non... ("Parece que não..."), começa por dar voz ao adversário pelas obiectiones, objeções à tese que o mestre pretende sustentar. 

Já aí se mostra o caráter paradigmático e atemporal (e atual...) da quaestio disputara, a essência da universidade, assim discutida por Pieper: "Houve na universidade medieval a instituição regular da disputatio, que, por princípio, não recusava nenhum argumento e nenhum contendor, prática que obrigava, assim, à considera­ção temática sob um ângulo universal. Um homem como Santo Tomás de Aquino parece ter considerado que precisamente o espírito da disputatio é o espírito da universidade." [4] E prossegue: "O importante é que, por trás da forma externa de disputa verbal regulamentada, a disputa - com toda a agudeza de um confronto real - dá-se no elemento do diálogo. Este ponto decisivo é hoje, para a universidade, mil vezes mais importante do que pode ter sido alguma vez para a universidade medieval."

Nos textos de Tomás, após as objeções, levantam-se contra-objeções (sed contra, rápidas e pontuais sentenças colhidas em favor da tese do artigo; ou algumas vezes in contrarium, que defendem uma terceira posição que não é a da tese nem a das obiectiones). Após ouvir estas vozes, o mestre expõe tematicamente sua tese no corpo do artigo, a responsio (solução) . Em seguida, a responsio ad obiecta, a resposta a cada uma das objeções do início.

Torna-se dispensável dizer que não se entende por quaestio disputata nada que tenha que ver com sutilezas enfadonhas e estéreis. Por outro lado, o que afirmamos acima sobre o diálogo e a impossibilidade de dar resposta cabal, de esgotar um assunto filosófico não significa, evidentemente, que na quaestio disputata não se deva tomar uma posição e defendê-la: não se trata, de modo algum, de agnosticismo. Podemos conhecer a verdade, mas não podemos esgotá-la. Posto que o homem pode conhecer a verdade (e na medida em que o pode fazer), a discussão filosófica chega a uma responsio, a uma certa determinatio.

Finalmente, dentre as características da quaestio disputata de S. Tomás de Aquino, destaquemos a de dar voz ao adversário com toda a honestidade, formulando sem distorções, exageros ou ironia (o que, em geral, nem sempre ocorre nas polêmicas e debates de hoje), as posições contrárias às que se defendem. Nesse sentido, Pieper faz notar que em S. Tomás a objetividade chega a tal ponto que o leitor menos avisado pode tomar como do Aquinate aquilo que ele recolhe dos adversários a modo de objeção. A propósito [5], é o caso do tão celebrado Carl Prantl, que interpretou como se fosse a posição de Tomás objeções brilhantemente por ele apresentadas às suas próprias teses.

O De magistro e a Antropologia Filosófica

Na "questão disputada" De magistro, Tomás de Aquino expõe sua concepção de ensino/aprendizagem em oposição às doutrinas dominantes da época. Por detrás de questões pedagógicas encontram-se, na verdade, concepções filosóficas - a Filosofia da Educação é inseparável da Antropologia Filosófica - e teológicas.

A antropologia de Tomás - revolucionária para a época - afirma o homem em sua totalidade (espiritual, sim, mas de um espí­rito integrado à matéria) e está em sintonia com uma teologia (também ela dissonante para a época) que, precisamente para afirmar a dignidade de Deus criador, afirma a dignidade do homem e da criação como um todo: material e espiritual. Sugestiva nesse sentido é, por exemplo, a luta que Tomás teve de travar na Universidade de Paris para defender a tese da unicidade da alma no homem: a mesma e única alma é responsável pelos atos mais espirituais e mais prosaicos no homem (a teologia dominante - pensando dar glória a Deus - separava "a alma espiritual" das "outras duas" - sensitiva e vegetativa - em favor de uma antropologia "espiritualista" e desencarnada).

Nesse quadro de oposição a um cristianismo demasiadamente espiritualista e que pretende exagerar o papel de Deus e aniquilar a criatura, compreendem-se as colocações de Tomás e até mesmo os artigos selecionados para a questão: art. 1 - Se o homem - ou somente Deus - pode ensinar e ser chamado mestre; art. 2 - Se se pode dizer que alguém é mestre de si mesmo; art. 3 - Se o homem pode ser ensinado por um anjo; art. 4 - Se ensinar é um ato da vida ativa ou da vida contemplativa.

Não é de estranhar, portanto, que Tomás comece discutindo a objeção: "Se o homem - ou somente Deus - pode ensinar e ser chamado mestre" (o fato curioso é que Tomás discuta isso precisamente como professor em sala de aula...). O exagero do papel de Deus - no caso em relação à aprendizagem - é por conta daquela teologia que considera tão sublime a intelecção humana que, em cada caso que ela ocorre, requereria uma iluminação imediata de Deus . Tomás, em seu realismo, admite uma iluminação de Deus, mas esta iluminação Deus no-la deu de uma vez por todas, dotando-nos da "luz natural da razão", aliás, dependente das coisas mais sensíveis e materiais...

Assim, no debate acadêmico no qual se gera o De magistro encontraremos - uma e outra vez - a objeção com que se abre o trabalho: "Diz a Escritura (Mt 23, 8): 'Um só é vosso mestre' (...) ao que diz a Glosa [6]: 'não atribuais a homens a honra divina e não usurpeis o que é de Deus'."

Para bem entender este e outros temas do De magistro é oportuno oferecer um resumo dos conceitos básicos da antropologia filosófica de Tomás (como se sabe, em boa medida tomada de Aristóteles).

O homem e a alma em Tomás

A palavra-chave para entendermos a doutrina de Tomás sobre o homem é "alma" , que, classicamente, designa o princípio da vida. Chamemos, desde já, a atenção para o fato de que, ao longo deste estudo, aparecerão outras palavras cujo sentido filosófico clássico não coincide exatamente com o sentido usual que lhes damos hoje: "potência", "ato", "matéria", "forma" etc.

O referencial a que Tomás se remete nestes temas é a doutrina basicamente estabelecida por Aristóteles em seu Peri PsychéSobre a alma. A "psicologia" de Aristóteles emergiu como uma reação de equilíbrio e moderação ante o exagerado espiritualismo da antropologia de Platão (que tem encontrado sucessivas versões tanto no Ocidente como no Oriente...). O espiritualismo platônico é uma certa tomada de posição radicalmente dualista diante da questão: "O que é o homem?". Platão situa espírito e matéria como realidades justapostas, disjuntas, em união fraca e extrínseca no homem. O homem, para Platão, seria primordialmente espírito (e o corpo seria, nessa visão, algo assim como um mero cárcere do espírito) [7].

Do ponto de vista aristotélico, esse dualismo platônico atenta contra a intrínseca unidade substancial do homem, ao desprezar a dimensão material do ser humano, exagerando a separação entre o espiritual e o corpóreo. E é esta unidade o que, afinal, permite a cada homem proferir o pronome "eu", englobando tanto o espírito quanto o corpo. Para os platônicos (e para a teologia dominante em Paris no tempo de Tomás), o homem seria essencialmente espírito, em extrínseca união com a matéria: a matéria não faria parte da realidade propriamente humana. Já para Tomás há, no homem, uma união intrínseca de espírito e matéria [8].

Do ponto de vista de Aristóteles e Tomás, a questão "O que é o homem?" é inquietante porque a realidade humana se apresenta como fenômeno muito complexo, integrando em si a unidade harmônica de espírito e matéria. Assim, a dimensão corporal é plenamente afirmada e reconhecida como integrante da natureza humana: o fato, afinal evidente, de que o homem é um animal , compartilhando uma dimensão material - um corpo, uma bioquímica... - com os outros animais [9]. Mas, se por um lado afirma-se a realidade corpórea, por outro afirma-se, com igual veemência, que há também, no homem, uma transcendência do âmbito meramente biológico: certas características que, classicamente, têm sido chamadas de espirituais, ligadas - como veremos mais adiante - às duas faculdades espirituais da alma humana : a inteligência e a vontade.

Potência-Ato. Matéria-Forma. Alma

O realismo aristotélico é considerado um dualismo equilibrado e apresenta uma grande unidade em sua concepção teórica, uma unidade centrada no conceito de "alma". É muito importante destacar essa unidade. Para Aristóteles e para Tomás a filosofia do homem é uma extensão da filosofia do ser vivo em geral, e esta, por sua vez, continua a mesma linha de análise filosófica do ser material em geral. Afirma-se pois, plenamente, a realidade espiritual, mas em articulação, em íntima conexão com a matéria.

A filosofia de Tomás reconhece uma impressionante unidade no mundo material: a mesma estrutura de análise filosófica do ente físico em geral, de uma pedra, digamos, é aplicada a todos os viventes e, também, ao homem, que é um ente espiritual.

Não é o caso aqui de examinarmos com detalhes técnicos os conceitos filosóficos que integram essa análise. Em todo caso, vale a pena mencionar, brevemente, alguns desses conceitos como: potência e ato; matéria e forma; alma e espírito.

Potência e ato são dois modos distintos e fundamentais de ser. Sendo modos fundamentais de ser são, a rigor, indefiníveis. Aristóteles contenta-se com descrevê-los: potência é a possibilidade, a potencialidade de vir a ser ato. E o ser-em-ato é aquele que propriamente é, enquanto o ser-em-potência pode vir a ser ato. O exemplo clássico é o da semente (potência) que pode vir a ser árvore (a árvore real é o ato contido na potência, na potencialidade da semente). Encontramos, ainda hoje, vestígios desse uso aristotélico da palavra "ato". Nesse sentido, é interessante notar o tributo que a língua inglesa paga a Aristóteles : para referir-se ao que realmente é, à realidade de fato, o inglês diz actually, que significa, ao pé da letra, o advérbio do ato, atualmente, significando: de verdade, de fato. E quando, em português, dizemos que algo é exato, estamos pensando em ex-actu, ex - a partir de / - actu, a realidade [10]

Para a análise do ser vivo (como para a análise do ser físico em geral) Tomás, seguindo Aristóteles, aplica o binômio ato-potência, sob a formulação matéria-forma. Devemos pensar estas palavras "matéria" e "forma" não no sentido usual que lhes damos hoje, mas num outro sentido, naquele que recebem no quadro da filosofia aristotélica da natureza, denominada hilemoifismo (literalmente: matéria-forma; hilé-morjé).

Assim, matéria ou matéria-prima [11] deve ser entendida simplesmente como potencialidade, como pura possibilidade de ser ente físico. Uma potência que se vê realizada (atualizada) pela união com o ato que é a forma (substancia [12]) . Desse modo, um ser físico qualquer, digamos, um diamante é composto de maté­ria e forma, em união intrínseca : a matéria-prima é a pura potência de ser ente físico e a forma substancial é o ato primeiro, fundamental, que determina a atualização dessa potência. Assim, se o diamante é um ser físico, é porque tem possibilidade, potencialidade de sê-lo (e assim todo ser físico tem matéria-prima, potencialidade de ser um ente físico).

Essa potencialidade da matéria-prima é realizada, atualizada, recebe seu ato, sua realidade, pela forma substancial: aquele componente que faz com que o diamante seja diamante e não, digamos, um gato ou uma orquídea . O diamante, a orquídea, o gato e o homem têm algo em comum: todos são seres físicos que se constituem, portanto, da pura potencialidade indeterminada que é a matéria-prima. Mas são distintos pela forma que cada um tem e que faz com que cada um seja o que é: o diamante é diamante porque tem forma substancial de diamante; Mimi é gato porque tem forma substancial de gato; João é homem porque tem forma substancial de homem [13].

E é tal a unidade de sua consideração do cosmos, que Tomás emprega o mesmo binômio matéria-forma para indicar tanto a composição substancial de uma pedra quanto a de um homem, que é um ser espiritual.

Nesse contexto é fácil entender o conceito de alma. Alma é pura e simplesmente uma forma: a forma substancial do vivente. Certamente, a alma é uma forma muito especial (daí que também receba um nome especial), mas é uma forma [14].

Sempre que houver vida - e a vida caracteriza-se por um modo especial de interagir com o exterior a partir de uma interioridade - essa vida implica uma especialidade de forma do vivente: a alma. Desse modo, pode-se falar em alma de um vegetal, alma de uma samambaia, em alma de uma formiga ou de um cão e, também, em alma humana (neste caso, trata-se de uma alma espiritual) . A alma (como, aliás, todas as formas substanciais) é um princípio de composição substancial dos viventes. Ou melhor, um co-princípio (em intrínseca união com o outro co-princí­pio: a matéria-prima). É pela alma que se constitui e se integra o vivente enquanto tal , e ela é também a fonte primeira de seu agir, de suas operações.

Estas são, aliás, as duas definições que Aristóteles e Santo Tomás dão da alma.

1ª definição: Alma é o ato primeiro do corpo natural organizado (Tomás de Aquino, De anima II, 1, 412, a 27, b.S).

Esta definição diz, pura e simplesmente, que a alma é forma substancial para o vivente: o princípio ativo constituinte da unidade e do ser do vivente.

2ª definição: Alma é aquilo pelo que primeiramente vivemos, sentimos, mudamos de lugar e entendemos... (Tomás de Aquino, De anima II, 2, 414, a 12).

Também esta segunda definição caracteriza a alma como forma substancial, mas, neste caso, enfatizando a forma substancial enquanto fonte radical das operações do sujeito. O cão late ou morde não porque tem boca, sim, mas em última instância, porque é vivo, porque tem forma substancial, alma de cão.

A alma e suas potências: os fatores na operação

A alma não opera diretamente, e é por esta razão que Aristó­teles diz: "A alma é aquilo pelo que primeiramente sentimos, mudamos de lugar etc." "Primeiramente" , aqui, significa que não é a alma diretamente que vê, anda, conhece ou quer, mas o vivente opera tudo isto por meio das potências ("potências" aqui, não no sentido entitativo, mas no sentido de potências operativas: faculdades) da alma: a potência visual, a potência motriz etc.

É conveniente, portanto, distinguir os diversos fatores presentes numa operação qualquer de um vivente. O mesmo vivente pode estar exercendo ou não tal operação e, no entanto, está continuamente vivo, está sendo informado pela alma. Daí que seja necessário distinguir a alma (substancial, sempre atuante) de suas potências operativas (que podem estar operando ou não). A potência visual ou a motriz não estão atuando quando, por exemplo, estou dormindo, mas a alma, princípio vital, está sempre presente, como forma substancial do vivente.

Enumeremos os diversos fatores que concorrem nas opera­ções do vivente.

1) O próprio vivente. O sujeito, João, que faz esta ou aquela operação (por exemplo, ver ou ouvir).

2) A alma. Se João realiza tais e tais operações é porque é vivente e, em última instância, porque é dotado de alma. Se ele fosse pedra, não veria nem ouviria.

3) As potências da alma. Pois não é a alma diretamente que vê , ouve, se locomove etc. Ela realiza estas operações por meio de suas potências. A alma é dotada de uma potência visual, que realiza o ato de ver; de uma potência auditiva , que realiza o ato de ouvir etc.

4) Os atos das potências. Sabemos que a alma é dotada de diferentes faculdades, precisamente porque são distintos os atos que o vivente realiza: o ato de ver é diferente do de ouvir; pensar é distinto de querer etc.

5) Os objetos (formais) dos atos. Podemos dizer que se esses atos (de ver e de ouvir, por exemplo) são diferentes é porque são diferentes seus objetos: o objeto do ato de ver é a cor; o objeto do ato de ouvir é o som.

6) O objeto material. Claro que o mesmo objeto material - uma fogueira, por exemplo - pode ser apreendido por diversas potências, mas cada uma o apreende pelo seu particular objeto formal (a potência visual capta a cor do fogo; a auditiva , seu crepitar; o olfato se ocupa do cheiro de queimado etc.).

Os três graus de vida. Espírito e inteligência no homem

Vida é a capacidade de realizar operações com espontaneidade e imanência, portanto, por iniciativa própria, a partir de si mesmo e operações que terminam no próprio sujeito.

Três graus de vida correspondem a três graus de espontaneidade e de imanência na realização das operações. E correspondem também a três tipos de alma: vegetativa, sensitiva e intelectiva.

Ao primeiro grau de vida - a vida vegetativa - corresponde um ínfimo grau de espontaneidade e imanência: o vegetal é senhor apenas da mera execução da operação: do seu "nutrir-se", do seu crescimento, de sua reprodução.

Note-se de passagem que, na medida em que subimos na escala da vida, ao mesmo tempo que a alma vai crescendo em espontaneidade e imanência ocorre também uma ampliação de seu campo de relacionamento: desde o limitado meio que circunda uma planta ao mundo sem fronteiras do espírito humano.

A alma em cada grau de vida é - como princípio vital - única e realiza todas as funções dos graus inferiores: a alma espiritual responsável pelas delicadas poesias que João da Silva compõe é a mesma e única que é o princípio de operações vegetativas, como a circulação de seu sangue ou sua digestão.

Para além da mera execução das operações - que caracteriza a vida vegetativa -, a alma sensitiva do animal é responsável também - e isto diferencia o animal da planta - pelo sentir, pelo conhecimento sensível: pela apreensão (cognoscitiva) de realidades concretas e particulares que o circundam.

Assim, pelo conhecimento, que é claramente um fator importante em suas operações, o animal é mais dotado de espontaneidade e imanência do que o vegetal : o gato Mimi percebe este pires de leite, apreende-o com seus sentidos, e este conhecimento é responsável pelo seu movimento em direção a ele. Assim, os animais têm uma dimensão de vida superior à das plantas: são mais donos de suas operações e de suas interações com o ambiente, porque são capazes de sentir, isto é, são capazes de conhecimento de realidades sensíveis, de conhecimento de realidades particulares e concretas.

Essas faculdades do sentir ou faculdades do conhecimento sensível são os sentidos: a visão, a audição etc. [15]. Estão presentes nos animais e no homem. O conhecimento dos outros animais, porém, não transcende o âmbito do sensível, do concreto: esta cor, este cheiro, este som...

No caso do homem (que é o caso da vida intelectiva), sua alma, além das características próprias e peculiares, realiza todas as operações dos graus inferiores de vida. A alma humana não só é responsável pela realização das operações ligadas às faculdades da vida vegetativa - a circulação do sangue, a digestão etc. -; a mesma e única alma realiza também as operações sensitivas (pró­prias da vida animal, como o conhecimento sensível) e, além de tudo isto, essa mesma alma irrompe numa dimensão nova: a do espírito.

A alma humana está dotada de duas potências espirituais: a inteligência e a vontade.

Para nossa questão, interessa-nos especialmente a inteligência. Se o conhecimento sensível versa sobre a realidade particular e concreta (este vermelho, este sabor salgado, esta forma triangular etc.), a inteligência humana transcende, supera esse âmbito do particular, do material e do concreto e pode versar sobre o universal. A geometria, por exemplo, como conhecimento intelectual humano, não se ocupa desta forma triangular do recorte de papel que tenho diante dos olhos; ela trata, sim, do triângulo abstrato. E diz: "A soma dos ângulos internos do triângulo vale dois retos. "Destaquemos, nessa afirmação, seu caráter abstrato e universal: pouco importa se o triângulo é azul ou amarelo, se é acutângulo, retângulo ou obtusângulo; a inteligência versa sobre "o triângulo". E para "o triângulo": "A soma dos ângulos internos é dois retos. " Já a medicina estuda hepatologia, independentemente deste ou daquele fígado concreto.

Esta capacidade da inteligência de apreender o universal e abstrato abre um mundo sem fronteiras para o conhecimento: ele não se limita à realidade concreta que o circunda, mas atinge todo o ser. E precisamente essa abertura para a totalidade do real é o que se chama de espírito. Espírito é a capacidade de travar relações com a totalidade do real. Daí que Tomás repita, uma e outra vez, a sentença aristotélica: "Anima est quodammodo omnia", "A alma humana, sendo espiritual, é, de certo modo, todas as coisas"...

Podemos agora, com base na definição de inteligência como faculdade de conhecimento espiritual do homem, rever, com luzes novas, os conceitos básicos de Tomás.

Contra todo dualismo que tende a separar exageradamente no homem a alma espiritual e a matéria, Tomás afirma a intrínseca união, a substancial união de ambos os princípios: a alma espiritual, como forma, requer - em tudo e por tudo - a integração com a matéria. Pense-se, por exemplo, em todo o tema - hoje mais agudo e atual do que nunca - das doenças psicossomáticas: da relação, digamos, entre um desgosto ou uma crise existencial, por um lado, e uma gastrite ou uma úlcera, por outro. Mas o exemplo mais veemente dessa integração é encontrado na discussão do objeto próprio da inteligência humana.

Como dizíamos, não operamos diretamente pela alma, mas por meio de suas potências operativas. Ora, cada potência da alma é proporcionada a seu objeto: a potência auditiva não capta cores, a potência visual não atua sobre aromas.

Dizer que a inteligência é uma potência espiritual é dizer que seu campo de relacionamento é a totalidade do ser: todas as coisas - visíveis e invisíveis - são inteligíveis, "calçam" bem, combinam com a inteligência. Contudo, a relação da inteligência humana com seus objetos não é uniforme. Dentre os diversos entes e modos de ser, há alguns que são mais direta e imediatamente acessíveis à inteligência. É o que Tomás chama de objeto próprio de uma potência: aquela dimensão da realidade que se ajusta, por assim dizer, "sob medida" à potência (ou, melhor dizendo, é a potência que se ajusta àquela realidade). Não que a potência não incida sobre outros objetos, mas o objeto próprio é sempre a base de qualquer captação: se pela visão captamos, por exemplo, nú­mero e movimento (e vemos, digamos, sete pessoas correndo), é porque vemos a cor, objeto próprio da visão. Ora, próprio da inteligência humana - potência de uma forma espiritual acoplada à matéria - é a abstração: seu objeto próprio são as essências abstratas das coisas sensíveis. Próprio da inteligência humana é apreender a idéia abstrata de "cão" por meio da experiência de conhecer pelos sentidos diversos cães: Lulu, Duque e Rex...

Assim, Tomás afirma: "O intelecto humano, que está acoplado ao corpo, tem por objeto próprio a natureza das coisas existentes corporalmente na matéria. E, mediante a natureza das coisas visíveis, ascende a algum conhecimento das invisíveis" (S. Th. I, 84, 7). E nesta afirmação, como dizíamos, espelha-se a própria estrutura ontológica do homem: mesmo as realidades mais espirituais só são alcançadas, por nós, através do sensível. "Ora - prossegue Tomás -, tudo o que nesta vida conhecemos, é conhecido por comparação com as coisas sensíveis naturais." Esta é a razão pela qual o sentido extensivo e metafórico está presente na linguagem de modo muito mais amplo e intenso do que, à primeira vista, poderíamos supor.

Contra todo dualismo que tende a separar exageradamente no homem a alma espiritual e a matéria, Tomás afirma a intrínseca união e mútua ordenação de ambos os princípios. Contra todo "espiritualismo", Tomás conclui: "É evidente que o homem não é só a alma, mas um composto de alma e de corpo" (Summa theologica I, 75, 4). E esta união se projeta na operação espiritual que é o conhecimento: "A alma necessita do corpo para conseguir o seu fim, na medida em que é pelo corpo que adquire a perfeição no conhecimento e na virtude" (C.G. 3, 144.).

Para Tomás o conhecimento intelectual (abstrato) requer o conhecimento sensível. É sobre os dados do conhecimento sensí­vel que atua o intelecto, em suas duas funções: intelecto agente e paciente.

A seguir apresentaremos um resumo tipificado (com as limitações que se dão nesses casos...) de como ocorre uma apreensão intelectual: o sujeito cognoscente está diante de um objeto determinado, digamos, João diante de um gato, Mimi. O que se conhece, segundo Tomás, é a própria realidade (ainda que para isso sejam necessários certos intermediários: as espécies...). Na passagem da impressão sensível para a idéia abstrata, o intelecto vai exercer duas funções: a de intelecto agente e a de intelecto paciente (ou passivo). Por isso, Tomás compara o intelecto a um olho que emite luz sobre aquilo que ele mesmo vê.

Todo conhecimento começa pelos sentidos: uma vez que os sentidos apreendem uma imagem (imagem em qualquer dimensão sensível, não só visual, mas também auditiva etc.), essa imagem assim interiorizada (que recebe o curioso nome de "fantasma") é oferecida ao intelecto (agente) para que - para além das impressões sensíveis (a determinada cor, aspecto, cheiro etc. deste gato concreto) - torne "visível" sua essência abstrata de gato. Nesse sentido, um filósofo contemporâneo, ]ames Royce, compara a ação do intelecto agente a um tubo emissor de raios X que torna visí­vel a estrutura óssea (na comparação: a essência) subjacente à pele (comparada aos aspectos sensíveis): esta é visível em nível de luz normal (conhecimento sensível); aquela (a essência), em nível de raios X (na comparação: o conhecimento intelectual). Esse "fantasma" despojado de suas características particularizantes [16], abstraído, é oferecido ao intelecto passivo (que só é passivo no sentido de que depende da ação do intelecto agente), para que produza o conceito. Na metáfora, o intelecto paciente poderia ser comparado ao filme virgem de raios X (com a ressalva de que o filme é totalmente passivo, enquanto o intelecto reage ativamente para formar o conceito) . O conceito, por sua vez, é meio para a união com o próprio objeto. O intelecto agente está assim ligado à atividade de aquisição do conhecimento; o paciente, ao estado de saber.

O conhecimento é assim uma apropriação imaterial, intencional [17] de formas (acidentais ou substanciais) sensíveis ou não, pelas quais o sujeito se une à própria realidade do objeto (que tem a forma materialmente, constituindo-o como tal ente). A potência intelectiva de posse de formas está in-formada, conhece.

A segunda potência espiritual: a vontade

Mas o homem - tal como os outros animais - não é só inteligência. Há nele, além disso, uma dinâmica , um tender à posse efetiva (e não meramente cognoscitiva) de objetos, e isto é o que se chama, classicamente, apetite. Um animal, um cachorro, por exemplo, não só tem um conhecimento, digamos, de um osso (conhecimento que, no caso do animal, não supera o âmbito do sensível, do particular, do concreto), mas tende a esse osso realmente, tende à posse efetiva do osso: é o que, como dizíamos, se chama apetite (um apetite que, no caso dos animais, está limitado também ao âmbito do sensível, do particular, do concreto).

Apetite é a tendência a aproximar-se do bem (daquilo que o conhecimento apresenta como bem) e afastar-se do mal. Naturalmente, o apetite está ligado ao conhecimento e dele decorre: porque farejou o osso é que o cachorro procura roê-lo; porque viu o lobo é que a ovelha foge... Ora, assim como no homem há, além do conhecimento sensível um conhecimento intelectual, assim também, além do apetite sensível, estamos dotados de uma outra potência apetitiva que se articula com o conhecimento intelectual: é a vontade. A vontade é, pois, a potência apetitiva espiritual, o apetite que decorre do conhecimento intelectual. Esta é a razão pela qual podemos nos motivar não só pela obtenção de uma realidade particular e concreta, digamos, um sorvete de creme, mas também ser motivados por: "a justiça", "a dignidade", "o bem", "os direitos do homem", "a honra" etc. Se o objeto formal de todo apetite é o bem, o objeto formal da vontade, enquanto apetite intelectual, é o bem intelectualmente conhecido como tal.

O problema do ensino no De magistro

O problema do ensino, como não poderia deixar de ser, é proposto por Tomás nos quadros de sua antropologia e doutrina sobre o conhecimento.

A própria palavra "educação", ainda que não apareça em Tomás, é como que sugerida diversas vezes em suas análises: trata-se de um eduzir o conhecimento em ato a partir da potência: "scientia educatur de potentia in actum (art. 1, obj. 10); a mente extrai o ato dos particulares dos conhecimentos universais (ex universalibus cognitionibus mens educitur - art. 1, solução); leva ao ato (educantur in actum - art. 1, ad 5) [18].

Ensinar é, pois, uma edução do ato; uma condução da potência ao ato que só o próprio aluno pode fazer. Tomás está distante de qualquer concepção do ensino como transmissão mecâ­nica; o professor, tudo o que faz é en-signar (insegnire), apresentar sinais para que o aluno possa por si fazer a edução do ato de conhecimento, no sentido da sugestiva acumulação semântica que se preservou no castelhano: enseñar (ensinar/mostrar): o mestre mostra! Nesse contexto, é altamente sugestiva a genial comparação da aprendizagem com a cura e a do professor com o médico, no art. 1.

Tomás, ainda no art. 1 (solução) , contesta algumas concep­ções da época, como a da existência de um único intelecto agente, separado, para todos os homens. Para ele, os que afirmam que Deus é o único agente (também no caso do ensino) atentam contra o plano do próprio Deus, causa primeira que age também pelas criaturas (causas próximas): "Ignoram a dinâmica que rege o universo pela articulação de causas concatenadas: Deus pela excelência de sua bondade confere às outras realidades não só o ser, mas também que possam ser causa."

No art. 2, Tomás aprofunda na discussão do ensino em oposição à aquisição de conhecimentos por si próprio. E conclui afirmando a superioridade do ensino.

O art. 3 é dedicado à curiosa questão da possibilidade de o homem ser ensinado por um anjo: "se bem que só Deus infunda na mente a luz da verdade, o anjo ou o homem podem remover impedimentos para a percepção da luz" (Em contr. 6). E estuda também de que formas o homem pode ser ensinado por um anjo (o anjo, ao contrário do homem, não raciocina - o intelecto angé­lico atinge diretamente o conhecimento e não precisa dos enlaces lógicos e dos silogismos, que classicamente se chamam razão).

No art. 4, Tomás mostra o caráter, ao mesmo tempo ativo e contemplativo, do ensinar

Cronologia

Contexto em que ocorre o nascimento de Tomás

c. 1170. Nascimento de São Domingos em Caleruega (Castela).

1182. Nascimento de Francisco de Assis. Francisco e Domingos irão fundar, no começo do séc. XIII, as ordens mendicantes: franciscanos e dominicanos. As ordens mendicantes, voltadas para a vida urbana, e, posteriormente, para a Universidade, sofrerão duras perseguições em Paris.

c. 1197. Nascimento de Alberto Magno, um dos primeiros grandes pensadores dominicanos, mestre de Tomás.

1210. Primeira proibição eclesiástica de Aristóteles em Paris.

1215. Estatutos fundacionais da Universidade de Paris. Inglaterra: Carta Magna.
Fundação da Ordem dos Pregadores.

1220. Coroação do imperador Frederico II.

1224-5. Nascimento de Tomás no castelo de Aquino, em Roccasecca (reino de Nápoles). Filho de Landolfo e Teodora. Seu pai e um de seus irmãos pertencem à aristocracia da corte de Frederico II.
Frederico II funda a Universidade de Nápoles para competir com a Universidade de Bolonha (pontifícia).

1226. Morte de São Francisco de Assis.

Infância e adolescência no Reino de Nápoles

1231. Tomás é enviado como oblato à abadia de Monte Cassino (situada entre Roma e Nápoles). Monte Cassino, além de abadia beneditina, é também um ponto crucial na geopolítica da região: é um castelo de divisa entre os territórios imperiais e pontifícios.

1239-44. Tomás estuda Artes Liberais na Universidade de Nápoles e toma contato com a Lógica e a Filosofia Natural de Aristóteles, em pleno processo de redescoberta no Ocidente. Conhece também a recém-fundada ordem dominicana, que - junto com a franciscana - encarna o ideal de pobreza e de renova­ção moral da Igreja.

Juventude na Ordem dos Frades Pregadores

1244. Tomás integra-se aos dominicanos de Nápoles, sob forte oposição da família, que tinha para o jovem Tomás outros planos que não o de ingressar numa
ordem de pobreza.

1245-8. Superada a oposição da família, Tomás faz seu noviciado e estudos em Paris. A Universidade de Paris, desde há muito, goza de um prestígio incomparável.

1248. Sexta Cruzada.

1248-52. Tomás com Alberto Magno em Colônia, onde em 1250-1 recebe a ordenação sacerdotal.

1250. Morre Frederico II.

Os anos de maturidade

1252-9. Tomás professor em Paris. Inicialmente (1252-6), como bacharel sentenciário e, de 1256 a 1259, como mestre regente de Teologia. Escreve o Comentário às sentenças de Pedro Lombardo. Em 1259, come­ça a redigir a Summa contra Gentiles. Em defesa da causa das ordens mendicantes, perseguidas, escreve em 1256 o Contra impugnantes Dei cultum et religionem.

1260-1. Tomás é enviado a Nápoles para organizar os estudos da Ordem. Continua a compor a Contra
Gentiles.

1261-4. O papa Urbano IV - pensando numa união entre o Oriente cristão e a cristandade ocidental - leva Tomás por três anos a sua corte em Orvieto.

1264. Tomás conclui a Summa contra Gentiles.

1265. Tomás é enviado a Roma com o encargo da dire­ção da escola de Santa Sabina. Começa a escrever seus comentários a Aristóteles e a Summa theologica. Nascimento de Dante Alighieri.

1266. Nascimento de Giotto.

1267. Um novo papa, Clemente IV, chama Tomás à sua corte em Viterbo, onde permanece até o ano seguinte.

1269-72. Tomás exerce sua segunda regência de cátedra em Paris. Escreve o Comentário ao Evangelho de João. Recrudesce a perseguição contra as ordens mendicantes na Universidade de Paris.

1272-3. Tomás regente de Teologia em Nápoles.

1274. Tomás morre a caminho do Concílio de Lyon.

1277. Condenação, por parte do bispo de Paris, de 219 proposições filosóficas e teológicas (algumas de Tomás) em Paris.

1280. Morte de Alberto Magno.

1323. Tomás é canonizado por João XXII

Notas:

Apresentação

[1] O texto latino de que fundamentalmente nos valemos para essa tradução do De Veritate é o da edição eletrônica feita por Roberto Busa, Thomae Aquinatis Opera Omnia cum hypertextibus in CD-ROM. Milão, Editaria Elettronica Editei, 1992 (Textus Leoninus aequiparatus).

[2] Cf. Tomás de Aquino, Verdade e conhecimento, São Paulo, Martins Fontes, 1999; trad. e estudos introdutórios de Luiz Jean Lauand e M. B. Sproviero. Nessa edição, o leitor encontrará um estudo biobibliográfico sobre Tomás que traz também alguns outros textos do Aquinate (das Questões disputadas sobre a verdade e do Comentário ao Evangelho de João). E em outro volume desta mesma "Coleção Clássicos"- Cultura e Educação na Idade Média, L. J. Lauand (org.) - encontram-se outros quatro pequenos estudos de Tomás de Aquino sobre o amor, o estudo, o bom humor e o reinado de Cristo (comentário ao salmo 2).

[3] O texto latino de que nos valemos para a tradução dos artigos do De Malo é o texto crítico da edição leonina: S. Thomae Aquinatis Doctoris Angelici, Opera Omnia iussu Leonis XIII, P. M. edita, curo et studio fratrum praedicatorum, Romae 1882 ss., reproduzido na edição I vizi capitali (intr., trad. e nota di Umberto Galeazzi), Milão, Biblioteca· Universale Rizoli, 1996. A Summa e as sentenças seguem a edição eletrônica feita por Roberto Busa, Thomae Aquinatis Opera Omnia cum hypertextibus in CD-ROM. Milão, Editoria Elettronica Editel, 1992.

Introdução

[1] Weisheipl, ]ames A. Tomás de Aquino - Vida, obras y doctrina, Pamplona, Eunsa, 1994, p. 235.

[2] Pieper, Abertura para o todo: a chance da Universidade, São Paulo, Apel, 1989, p. 44.

[3] Utrum é o "se" latino que indica uma entre duas possíveis opções (daí neutrum, "nem um nem outro").

[4] Pieper, Abertura..., pp. 44-5.

[5]. Cf. Pieper, Wahrheit der Dinge, Munique, Kösel, 1951, pp. 113 ss.

[6] Entre as autoridades citadas por Tomás está a Glosa. A Glosa - ordinária e interlinear (esta mais breve) - deriva dos ensinamentos de Anselmo de Laon e de sua escola (séc. XII) e utiliza muito material exegético anterior.

[7] Platão chega a admitir a existência de três almas no homem, que correspondem às três funções da mesma e única alma humana na doutrina aristotélica.

[8] União extrínseca é a que se dá, digamos, entre um indivíduo e sua roupa ou entre o queijo e a goiabada; união intrínseca é a que ocorre, por exemplo, entre um objeto e sua cor (a cor não se dá sem o objeto e nem se dá objeto sem cor).

[9] E aqui é interessante notar a força do realismo de Tomás: a própria expressão "outros animais", em suas diversas formas latinas - alia animalia, aliis animalibus etc. - aparece nada menos do que cerca de quatrocentas vezes na obra do Aquinate.

[10] Um terno exato em suas medidas e feitura é um terno feito a partir da realidade do sujeito que vai usá-lo, e não, digamos, um terno comprado pronto e mal-ajustado a quem o usa...

[11] Conceito que, aliás, não coincide com a acepção industrial que hoje damos à expressão "matéria-prima".

[12] A forma substancial é aquela que, em união com a matéria-prima, constitui a substância do sujeito. Naturalmente, há também formas acidentais (cor, tamanho etc.) que inerem na substância.

[13] Cabe aqui uma breve explicação sobre o modo como a filosofia chegou a esses conceitos. Para analisar a realidade material, Aristóteles parte da experiência dos fenômenos da unidade substancial de cada ente, de cada sujeito. Aristóteles parte também da realidade das mudanças substanciais, isto é, aquelas, por assim dizer, mais sérias, nas quais o que muda é não já esta ou aquela qualidade acidental do sujeito (que ficou mais alto, mais gordo, mais corado, ou mudou de lugar...), mas o próprio sujeito: uma coisa, X deixa de ser o que era e passa a ser outra coisa: Y (para mero efeito de exemplificação didática, pensemos em um pedaço de madeira que se queima e deixa de ser a substância que era - madeira - e passa a ser outra coisa: cinza). Nesses casos de mudança substancial, o novo ser Y não proveio do nada (mas, evidentemente, de X) e o ser X não se reduziu ao nada (deixou de ser X e passou a ser Y). Examinando, portanto, esses casos de mudança de substância, vemos que há algo que permanece e algo que muda (o que indica que a substância é composta de dois elementos: um que permanece, outro que muda). O que permanece é a matéria-prima, realizada, atualizada, em cada caso, por um fator determinante dessa potência que faz com que X seja X e Y seja Y: a forma substancial.

[14] Sempre que falo desse ponto, lembro-me do comentário jocoso (mas pleno de sentido...) feito por um aluno. "Com a palavra 'alma' (em relação às demais formas)- dizia ele- dá-se algo de semelhante ao que ocorre com certas denominações de sanduíche: os sanduíches com queijo são prefixados por cheesecheese-burger, cheese-dog etc. Mas o 'misto quente' é um sanduíche tão tradicional, tão especial, que ninguém o chama de cheese-presunto, mas por um nome também especial: 'misto quente'". Brincadeiras à parte, podemos dizer que a alma é uma forma, mas uma forma muito especial, porque atua, in-forma o vivente, constituindo o princípio da vida e, portanto, recebe o nome especial de alma.

[15] A filosofia clássica divide as potências dos conhecimentos sensíveis, ou seja, os sentidos, em: sentidos externos (basicamente os tradicionais cinco sentidos) e sentidos internos, em número de quatro: sentido comum, imagina­ção, memória e capacidade estimativa.

[16] Outra operação importante nesse processo é a collatio, a confrontação (feita pelo sentido interno chamado "capacidade cogitativa", que participa do intelecto) entre esta impressão e outras semelhantes, preparando a formação do conceito intelectual.

[17] No sentido de intentio, o conhecimento que se apropria de uma forma.

[18] Daí também que Tomás afirme que a aquisição do conhecimento, com as devidas ressalvas, pode ser comparado às "razões seminais", aquelas potencialidades que "não se tornam ato por nenhum poder criado, mas estão inscritas na natureza só por Deus" (obj. 5). Ressalvas, pois se trata de potencialidades que não procedem da criatura, mas que podem ser conduzidas ao ato pela ação do ensino humano (resposta ã obj. 5).

***

Leia mais em O professor e a docência em S. Tomás de Aquino

Leia mais em Progresso e Tradição em Pedagogia



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