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Problemas de Matemática medieval para jovens

Detalhe de uma ilustração iluminada no fólio 89r do Saltério de Ormesby do século XIII ou XIV (Biblioteca Bodleian MS Douce 366) mostrando um homem perto de um barco em um rio, com alguns repolhos pendurados em um pedaço de pau no ombro e segurando um lobo e uma cabra na coleira, entre 1250 e 1330. Autor desconhecido.

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As Propositiones ad Acuendos Juvenes, de Alcuíno de York - Tradução, Frederico J. A. Lopes. Revista Brasileira de História da Matemática - Vol. 17 nº 33 - pág. 73-90. Publicação Oficial da Sociedade Brasileira de História da Matemática. RBHM, Vol. 17, nº 33, p. 73-90, 2017. ISSN 1519-955X, disponível no LINK.

AS PROPOSITIONES AD ACUENDOS JUVENES,

DE ALCUÍNO DE YORK – TRADUÇÃO

Frederico J. A. Lopes

Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT - Brasil

(aceito para publicação em novembro de 2017)

Resumo

Esta é uma tradução das Propositiones ad Acuendos Juvenes, atribuídas a Alcuíno de York (730-804), consideradas em conjunto como o mais antigo livro de matemática recreativa escrito em latim.

Palavras-chave: Matemática medieval, Matemática recreativa, Alcuíno de York


[THE ALCUIN OF YORK’S PROPOSITIONES AD ACUENDOS JUVENES – TRANSLATION]

Abstract

This is a translation of the most ancient extant work of recreational mathematics written in Latin, the Propositiones ad Acuendos Juvenes, ascribed to Alcuin of York (730-804).

Keywords: Medieval mathematics, Recreational mathematics, Alcuin of York


1. Introdução

Esta é uma tradução do mais antigo texto de matemática recreativa escrito em latim, as Propositiones ad Acuendos Juvenes (Proposições para aguçar [o espírito dos] jovens), de autoria atribuída a Alcuíno de York (738-804).

Alcuíno de York é conhecido na história da filosofia e da educação como o responsável pela grande reforma das escolas medievais promovida por Carlos Magno (747-814), rei dos Francos, e pela consolidação, no sistema educacional da época, da forma de educação baseada no trívio (gramática, retórica e dialética) e do quadrívio (aritmética, geometria, astronomia e música), herança da antiguidade greco-latina.

As Propositiones consistem em 53 problemas de matemática e lógica recreativas, muitos dos quais têm longa tradição na história da matemática, de origem egípcia, árabe e europeia. Podem ser divididos em pequenos grupos de problemas muito semelhantes entre si, o que sugere que a tarefa de Alcuíno foi quase certamente a de simples compilador. Todos, sem exceção, permitem interpretações e comentários variados, além de fornecerem um rico panorama da vida medieval no século VIII.

Os problemas foram traduzidos a partir do texto em latim estabelecido por Menso Folkerts (1978), uma interpolação de treze manuscritos medievais, e pode ser considerado como texto final das Propositiones.

No fim de alguns problemas, acrescentamos notas breves, marcadas como Notas do Tradutor (N.T.), para esclarecer questões de medida e algumas outras. As partes entre colchetes foram inseridas por Folkerts no texto latino.


2. A tradução

COMEÇAM AS PROPOSIÇÕES PARA AGUÇAR OS JOVENS

1 PROPOSIÇÃO DA LESMA

Uma lesma foi convidada por uma sanguessuga para jantar a uma légua de distância. Mas por dia ela não pôde andar mais do que uma polegada. Diga, quem quiser, quantos dias a lesma andou para esse jantar?

SOLUÇÃO

Em uma légua há 1.500 passos, 7.500 pés, 90.000 polegadas. Quantas polegadas, tantos dias, o que faz 246 anos e 210 dias.

N.T.: Modernamente, uma polegada tem 2,54 cm, o que nos daria uma légua com 2.286 m.

No entanto, existiram diversas medidas de légua no passado, variando entre 2 e 7 km. É preciso notar, logo de início, que toda a questão das medidas utilizadas no tempo de Alcuíno é controversa, e estudiosos produzem conversões diferentes para as mesmas unidades. As equivalências que provemos servem apenas para dar, ao leitor moderno, uma noção dos comprimentos, pesos e volumes envolvidos nos problemas.

2. PROPOSIÇÃO DO HOMEM ANDANDO NA ESTRADA

Um homem andando pela estrada avistou outros homens se aproximando, e lhes disse: Queria que fôsseis outro tanto quanto sois, e metade da metade, e novamente metade dessa metade; e assim, juntos comigo, seríeis 100. Diga, quem quer, quantos foram os homens vistos primeiro por ele?

SOLUÇÃO

Os que primeiro foram vistos por ele foram 36. Outro tanto são 72. Metade da metade são 18, e metade deste número são 9. Diga portanto assim: 72 e 18 fazem 90. Adicione 9 e são 99. Adicione o que fala, e tereis 100.

3. PROPOSIÇÃO DOS DOIS CAMINHANTES

Dois homens andando por uma estrada, ao ver cegonhas, disseram entre si: Quantas são? Conferindo os números, disseram: Se fossem outras tantas e três vezes tantas e metade do terço, somados dois, 100 seriam. Diga, quem pode, quantas foram aquelas primeiro vistas por eles?

SOLUÇÃO

28 e 28 e um terço assim são 84, e metade do terço são 14. São ao todo 98. Somados dois, 100 aparecem.

4. PROPOSIÇÃO DO HOMEM E DOS CAVALOS PASTANDO NO CAMPO

Um homem, vendo cavalos pastando em um campo, disse: oxalá fôsseis meus, e fôsseis outro tanto, e metade da metade: certamente me gabaria de ter 100 cavalos. Descubra, quem quer, quantos cavalos pastando aquele homem viu primeiro.

SOLUÇÃO

40 eram os cavalos que pastavam. Outro tanto são 80. Metade da metade disso, ou seja, 20, se adicionado, são 100.

5. PROPOSIÇÃO DO COMPRADOR COM 100 DENÁRIOS

Disse um comprador: Desejo, com 100 denários, comprar 100 porcos; mas tal que varrões sejam comprados por 10 denários, e porcas por 5 denários, e 2 leitões por 1 denário. Diga, quem entende, quantos varrões, quantas porcas e quantos leitões devem ser, de maneira que de nenhum dos dois o número não seja mais nem menos?

SOLUÇÃO

Faça 9 porcas e 1 varrão em 55 denários, e 80 leitões em 40. Eis 90 porcos. Com os restantes 5 denários, faça 10 leitões, e terás um número 100 em ambos.

N.T.: Um denário, que deu origem à palavra dinheiro, era uma pequena moeda de prata usada na Roma antiga e durante toda a Idade Média. Em termos de comparação, um denário, que continha 10 asses, comprava 8 quilos de pão.

6. PROPOSIÇÃO DOS DOIS NEGOCIADORES QUE TINHAM 100 SÓLIDOS COMUNS

Havia dois negociadores que tinham 100 sólidos em comum, com os quais comprariam porcos. Então, com cada 2 sólidos compraram 5 porcos, desejando engordá-los e novamente vendê-los e lucrar em sólidos. Como tinham visto que não havia tempo para engordar os porcos, e como não poderiam alimentá-los no inverno, tentaram vendê-los, se pudessem, com lucro. Mas não puderam, porque não era possível vendê-los por mais do que haviam sido comprados, isto é, dois sólidos para cada 5 porcos. Quando perceberam isso, disseram entre si: vamos dividi-los. Dividindo-os e vendendo-os como compraram, lucraram. Diga, quem consegue, quantos porcos havia no começo, e os divida e venda e lucre, como não se pôde fazer com a venda de todos ao mesmo tempo.

SOLUÇÃO

No começo havia 250 porcos, que foram comprados com 100 sólidos, como dito acima, com cada 2 sólidos 5 porcos, pois se fizeres 50 vezes 5 ou 5 vezes 50, contarás 250. Estes divididos, um tomou 125, e o outro a mesma quantia. Um vendeu os piores, cada 3 por 1 sólido, e o outro, os melhores, cada 2 por 1 sólido. Então acontece que aquele que vendeu os piores conseguiu 40 sólidos com 120 porcos, e aquele que vendeu os melhores conseguiu 60 sólidos, pois foram vendidos cada 30 dos inferiores por 10 sólidos, e cada 20 dos melhores por 10 sólidos. E restaram, para cada um, 5 porcos, com os quais puderam lucrar 4 sólidos e 2 denários.

N.T.: Um sólido ou um soldo, que deu origem à palavra portuguesa soldado, era uma moeda com cerca de 4,5 g de ouro, utilizada entre os séculos III e IX na Europa. O problema seguinte mostra como era, à época de Alcuíno, realizada a conversão entre as diversas medidas monetárias.

7. PROPOSIÇÃO DO PRATO QUE PESA 30 LIBRAS

Há um prato que pesa 30 libras, ou 90 sólidos, composto de ouro, prata, oricalco e estanho. O quanto tem de outro, tem três vezes de prata; o quanto de prata, três vezes o tanto de oricalco; o quanto de oricalco, três vezes o tanto de estanho. Diga, quem pode, quanto de cada espécie [o disco] pesa.

SOLUÇÃO

O ouro pesa 9 onças. A prata pesa 3 vezes 9 onças, isto é, duas libras e 3 onças. O oricalco pesa 3 vezes duas libras e 3 vezes 3 onças, isto é, 6 libras e 9 onças. O estanho pesa 3 vezes 6 libras e 3 vezes 9 onças, isto é, 20 libras e 3 onças. Nove onças e 2 libras com 3 onças e 6 libras com 9 onças e 20 libras com 3 onças juntas fazem 30 libras. Em sólidos, ocorre de outra maneira. O ouro pesa 15 sólidos [de prata]. A prata 3 vezes 15, isto é, 45. O oricalco 3 vezes 45, isto é, 135. O estanho 3 vezes 135, isto é 405. Junte 405 e 135 e 45 e 15 e encontrarás 600 sólidos, que são 90 libras.

8. PROPOSIÇÃO DA CUBA

Há uma cuba que é enchida com 100 metretas, com 3 módios cada, através de 3 canos. Do número de módios, uma terça e uma sexta parte correm pelo primeiro cano; pelo segundo, apenas uma terça parte; pelo terceiro, só uma sexta [parte]. Diga, quem deseja, quantos sextários correram através de cada cano.

SOLUÇÃO

Pelo primeiro cano correram 3600 sextários; pelo segundo, 2400; pelo terceiro, 1200.

N.T.: Uma metreta, no sistema ático fixado por Sólon (c. 638 - c. 558 a.C.), valia 38,88 litros, mas esse valor variou entre 30 e 40 litros durante a história. Uma metreta era dividida em 3 módios, cada módio era dividido em 4 côngios, e cada côngio era dividido em 6 sextários. Assim, uma metreta era dividida em 72 sextários. A cuba referida no problema seria uma cisterna com uma capacidade entre 3000 e 4000 litros.

9. PROPOSIÇÃO DO MANTO

Tenho um manto que tem 100 cúbitos de comprimento e 80 de largura. Desejo com pedaços dele fazer mantos menores, tais que cada pedaço tenha 5 cúbitos de comprimento e 4 cúbitos de largura. Diga, eu te peço, ó sábio, quantos mantos menores podem ser feitos com ele.

SOLUÇÃO

De 400, a octogésima parte é 5, e a centésima é 4. Portanto, se fizeres 80 vezes 5 ou 100 vezes 4, sempre encontrarás 400. Tantos serão os mantos.

N.T.: um cúbito é equivalente à medida que vai do cotovelo até a ponta do dedo médio, medindo cerca de 50 cm.

10. PROPOSIÇÃO DO LINHO

Tenho uma peça de linho com 60 cúbitos de comprimento, 40 cúbitos de largura. Quero dela fazer pedaços, tais que cada pedaço tenha 6 cúbitos de comprimento e 4 de largura, e baste para fazer uma túnica. Diga, quem quer, quantas túnicas a partir dela podem ser feitas.

SOLUÇÃO

A décima parte de 60 são 6, a décima de 40 são 4. Portanto, se tiveres ou um décimo de 60 ou um décimo de 40, encontrarás 100 pedaços com 6 cúbitos de comprimento e 4 cúbitos de largura.

11. PROPOSIÇÃO DOS DOIS HOMENS QUE SE CASAM UM COM A IRMÃ DO OUTRO

Se dois homens se casarem, por sua vez, um com a irmã do outro, diga, por favor, que parentesco seus filhos terão entre si?

11a PROPOSIÇÃO DOS DOIS HOMENS SE CASANDO UM COM A MÃE DO OUTRO

Se de maneira semelhante dois homens se casarem um com mãe do outro, por qual parentesco seus filhos são ligados?

11b PROPOSIÇÃO DO PAI E DO FILHO E DA VIÚVA E SUA FILHA

Se uma [mulher] abandonada ou viúva e sua filha se casam com pai e filho, mas tal que o filho tome a mãe e o pai a filha, diga, por favor, por qual parentesco se ligam os filhos por eles gerados.

N.T.: Folkerts não provê as respostas, que considera inautênticas.

12. PROPOSIÇÃO DE UM PAI DE FAMÍLIA E SEUS TRÊS FILHOS

Um pai de família, morrendo, deixou de herança a seus três filhos 30 ampolas de vidro, das quais 10 estavam cheias de óleo, outras 10 pela metade, e as restantes 10 vazias. Divida, quem pode, o óleo e as ampolas, de tal maneira que cada um de seus 3 filhos receba igualmente tanto de vidro quanto de óleo.

SOLUÇÃO

Há, portanto, 3 filhos e 30 ampolas. Das ampolas, porém, 10 estão cheias, 10 pela metade e 10 vazias. Faça 3 vezes 10 e serão 30. A cada filho cabe uma porção de 10 ampolas. Mas divida pela terça parte, isto é, dê ao primeiro filho 10 ampolas pela metade, depois dê ao segundo 5 cheias e 5 vazias, e o mesmo ao terceiro, e a divisão será igual para os três filhos tanto em óleo quanto em vidro.

13. PROPOSIÇÃO DO REI E DE SEU EXÉRCITO

Um rei ordenou a um criado seu que reunisse de 30 vilas um exército, mas de tal modo que de cada uma das vilas convocasse tantos homens quantos os que lá chegassem. À primeira vila ele veio só, à segunda com outro, já à terceira vieram 4. Diga, quem pode, quantos homens foram convocados destas 30 vilas.

SOLUÇÃO

Portanto, na primeira vila foram 2, na segunda 4, na terceira 8, na quarta 16, na quinta 32, na sexta 64, na sétima 128, na oitava 256, na nona 512, na décima 1024, na décima primeira 2048, na décima segunda 4096, na décima terceira 8192, na décima quarta 16.384, na décima quinta 32.768, na décima sexta 65.536, na décima sétima 131.072, na décima oitava 262.144, na décima nona 524.288, na vigésima 1.048.576, na vigésima primeira 2.097.152, na vigésima segunda 4.194.304, na vigésima terceira 8.388.608, na vigésima quarta 16.777.216, na vigésima quinta, 33.554.432, na vigésima sexta 67.108.864, na vigésima sétima 134.217.728, na vigésima oitava 268.435.456, na vigésima nona 536.870.912, na trigésima 1.073.741.824.

14. PROPOSIÇÃO DO BOI

Um boi que ara todo dia deixa quantas pegadas no último rego?

SOLUÇÃO

O boi não deixa absolutamente nenhuma pegada no último rego, pois ele precede o arado e este arado o segue. Pois quantas pegadas o boi à frente faça na terra não tratada, tantas o arado que o segue desmancha. Por isso não se encontra nenhuma pegada do boi no último rego.

15. PROPOSIÇÃO DO HOMEM

Pergunto a ti, que me digas, quantos regos tenha feito um homem em seu campo quando de cada lado do campo tiver feito três voltas.

SOLUÇÃO

A partir de um lado do campo 3 (voltas), de outro 3 (voltas), que fazem 7 regos.

16. PROPOSIÇÃO DOS DOIS HOMENS QUE CONDUZIAM BOIS

Dois homens conduziam bois por uma estrada, e um deles disse ao outro: Dá-me 2 bois e terei tantos bois quanto tens. Mas o outro disse: Dá-me tu 2 bois e terei o dobro do que tens. Diga, quem quiser, quantos bois cada um deles tinha.

SOLUÇÃO

Primeiro, o que pediu 2 tinha 4 bois. E aquele a quem foi pedido tinha 8. Daí este deu 2 ao que lhe pediu, e cada um teve 6. Daí o que primeiro recebeu, devolveu dois àquele que lhe tinha dado, que tinha 6, e este teve 8, que é o dobro de 4, e ao primeiro restaram 4, que é a metade de 8.

17. PROPOSIÇÃO DOS TRÊS IRMÃOS QUE TINHAM, CADA UM, UMA IRMÃ

Havia 3 irmãos que tinham, cada um, uma irmã, e deviam atravessar um rio. Mas havia em cada um deles desejo pela irmã de seu próximo. Chegando ao rio, encontraram apenas um pequeno bote, no qual não poderiam atravessar mais do que 2 deles. Diga, quem pode, como atravessaram o rio, de maneira que nenhuma das irmãs tenha sido maculada.

SOLUÇÃO

Primeiro de todos, eu e minha irmã entraríamos no barco e remaríamos para o outro lado. Atravessado o rio, tiraria minha irmã do barco e traria de volta o barco à margem. E então entrariam as irmãs dos dois homens, a saber, daqueles que ficaram na praia. Chegadas essas mulheres do outro lado, minha irmã, que primeiro havia atravessado, entraria e traria o barco de volta para mim. Ela saindo, os dois irmãos entrariam e iriam para o outro lado. E então um deles, junto com sua irmã, entrados no barco, remaria até nós. E eu e aquele que havia remado, tendo deixado minha irmã na praia, iríamos para o outro lado. E depois de chegados à outra praia, aquela uma das mulheres levaria o barco de volta e, com a minha irmã junto a si, viria de volta até nós. E aquele, cuja irmã ficara do outro lado, entraria no barco e a traria do outro lado consigo. E estaria completo o transporte, sem nenhuma mulher maculada.

18. PROPOSIÇÃO DO LOBO, DA CABRA E DO MOLHO DE COUVE

Um homem devia levar para o outro lado do rio um lobo, uma cabra e um molho de couve, mas não pôde outro barco encontrar senão um que podia levar apenas dois deles. E lhe foi dito, que chegassem ilesas do outro lado todas essas coisas. Diga, quem pode, como ele pôde transferi-los ilesos para o outro lado.

SOLUÇÃO

De fato, com um movimento semelhante, levaria primeiro a cabra e deixaria para trás o lobo e a couve. E então viria e levaria o lobo para o outro lado. Deixando lá o lobo, voltaria com a cabra no barco. Deixando a cabra fora, transportaria a couve para o outro lado, e novamente remaria de volta e, tomada a cabra, a levaria para o outro lado. Assim fazendo será o transporte salubre e sem dilacerações.

19. PROPOSIÇÃO DO HOMEM E DA MULHER QUE PESAVAM [A CARGA DE] UMA CARROÇA

Um homem e uma mulher, cada um dos quais tinha o peso [da carga] de uma carroça cheia, com dois filhos que pesavam juntos [a carga de] uma carroça, deviam atravessar um rio. Encontraram um barco que não podia levar mais do que um peso [de uma carga] de uma carroça. Faça com que sejam transferidos, quem pensa que pode, sem que o barco afunde.

SOLUÇÃO

Também na mesma ordem, como acima: primeiro entrariam as duas crianças e atravessariam o rio, e uma delas traria o barco de volta. Então a mãe, entrada no barco, atravessaria. E daí o filho dela traria de volta o barco. Feita a travessia de volta, ambos os irmãos, entrados no barco, atravessariam para o outro lado, e novamente um deles traria de volta o barco para o pai. Trazido o barco, o filho ficaria de fora e o pai atravessaria, e de novo o filho, que atravessara anteriormente, entraria no barco e o levaria de volta até o outro irmão, e ambos entrariam e atravessariam o rio. Remando com tal engenho, será completa a travessia, talvez sem naufrágio.

20. PROPOSIÇÃO DOS OURIÇOS

Um ouriço macho e uma fêmea, que tinham dois filhos que pesavam uma libra, desejavam atravessar um rio.

SOLUÇÃO

De maneira semelhante, como acima, primeiro atravessariam os dois filhos, e um deles traria o barco de volta. Embarcado nele o pai, ele atravessaria para o outro lado, e aquele filho que atravessara primeiro com o irmão levaria o barco de volta à margem. Novamente entrando no barco o irmão dele, iriam ambos para o outro lado. Saindo um deles, o outro levaria de volta o barco para a mãe, no qual ela entraria e iria para o outro lado. Saindo do barco a mãe, o seu filho, que atravessara antes com o irmão, entraria no barco e o levaria de volta ao irmão do outro lado. Ingressos ambos no barco, iriam para o outro lado, e o transporte estaria completo, sem receito de nenhum naufrágio.

21. PROPOSIÇÃO DO CAMPO E DAS OVELHAS

Há um campo com 200 pés de comprimento e 100 pés de largura. Desejo nele colocar ovelhas, mas de tal maneira que cada uma das ovelhas tenha 5 pés de comprimento e 4 de largura. Diga, por favor, quem puder, quantas ovelhas podem ser lá colocadas.

SOLUÇÃO

O campo tem 200 pés de comprimento e 100 pés de largura. Tome um quinto de 200, que faz 40, e depois divida 100 por 4. A quarta parte de 100 são 25. Portanto, feitos ou 40 vezes 25, ou 25 vezes 40, fazem 1000. Portanto, tantas ovelhas assim podem lá ser colocadas.

N.T.: um pé tem 12 polegadas, o que equivale a 30,48 cm.

22. PROPOSIÇÃO DO CAMPO FASTIGIOSO

Há um campo fastigioso (irregular) que tem em um lado 100 pérticas, e em outro lado 100 pérticas, e na frente 50, e no meio 60 pérticas, e na outra frente 50 pérticas. Diga, quem pode, quantos aripenos deve encerrar.

SOLUÇÃO

a. O comprimento deste campo é 100 pérticas, e a largura de uma e outra frente 50 pérticas, e na metade há 60. Junte o número de cada uma das frentes com o da metade, e são 160. Deses, tome a terça parte, ou seja, 53, e multiplica por 100, fazendo 5.300. Divida em 12 partes iguais, e serão encontrados 441. Novamente divida em 12 partes, e aparecerão 37. Tanto é o número de aripenos.

b. Junte os dois comprimentos, dá 200. Tome a metade de 200, dá 100. E junte 50 e 60 e 50, dá 160. E tome a terça parte de 160, dá 53. E faça 100 vezes 53, dá 5.300. Divida 5.300 pela duodécima parte, isto é, faça disso duas vezes 12. Por exemplo: de 5.300 faça a duodécima parte, o que dá 441. De novo de 441, faça a duodécima parte, e dá 37. Tanto é o número de aripenos.

N.T.: um aripeno é equivalente a aproximadamente 1.262 metros quadrados.

23. PROPOSIÇÃO DO CAMPO QUADRANGULAR

Há um campo quadrangular que tem em um lado 30 pérticas, e em outro 32 pérticas, e na frente 34 pérticas, e na outra frente 32 pérticas. Diga, quem pode, quantos aripenos devem nele haver.

SOLUÇÃO

Dois comprimentos desse campo fazem 62. Faça a metade de 52, e são 31. E duas larguras desse campo juntas fazem 66. E faça a metade de 66, e são 33. E faça 31 vezes 33, e serão 1020. Divida pela duodécima parte duas vezes, como acima, isto é, de 1020 tome a duodécima, e são 85, e novamente 85 divida por 12, e são 7. Há portanto nesse campo 7 aripenos.

N.T.: uma pértica era uma vara de 3 a 5 metros com que se mediam as terras dadas aos soldados romanos. Um quadrado com 144 pérticas quadradas era equivalente a um aripeno. Se consideramos o aripeno como a medida de 1.262 m2, uma pértica quadrada teria cerca de 8,76 m².

24. PROPOSIÇÃO DO CAMPO TRIANGULAR

Há um campo triangular que tem em um lado 30 pérticas, e no outro 30 pérticas, e na frente 18 pérticas. Diga, quem pode, quantos aripenos ele deve abarcar.

SOLUÇÃO

Junte os dois comprimentos desse campo, e serão 60. Faça a metade de 60, e serão 30, e porque na frente há 18 pérticas, faça a metade de 18, e serão 9. E faça 9 vezes 30, o que dá 270. Divida por duas vezes 12, ou seja, divida 270 pela duodécima parte, o que dá 22 e meio. E divida novamente 22 e meio pela duodécima parte: dá um aripeno e 10 pérticas e meia.

25. PROPOSIÇÃO DO CAMPO REDONDO

Há um campo redondo que tem 400 pérticas de giro (comprimento). Diga quantos aripenos deve ter.

SOLUÇÃO

a. A quarta parte desse campo, que inclui 400 pérticas, consiste em 100. Se por isso mesmo multiplicares, isto é, se fizeres 100 vezes, serão 10.000. Deves dividi-los em 12 partes. E assim a duodécima parte de 10.000 é 883, que se dividires de novo por 12, encontrarás 69. Assim são tantos aripenos que o campo inclui.

b. Faça portanto a quarta parte de 400, e são 100. E novamente de 400 faça a terça parte, que fazem 133. Encontre também a metade de 100, que são 50. E novamente faça a metade de 133, que são 66. E faça 50 vezes 66, que são 3151. Dividas isso pela duodécima parte, e serão 280. Novamente divida 280 pela duodécima parte, e serão 24. E faça 4 vezes 24, e serão 96. Há no todo 96 aripenos.

26. PROPOSIÇÃO DO CAMPO E DA CORRIDA DO CÃO E DA FUGA DA LEBRE

Há um campo que tem 150 pés de comprimento. Em um extremo estava um cão, e em outro estava uma lebre. E se pôs em movimento o cão atrás dela, a saber, da lebre, depois que começou a correr. Mas enquanto aquele cão percorria 9 pés com um salto, a lebre avançava 7. Diga, quem quiser, quantos pés ou quantos saltos o cão deu perseguindo ou a lebre fugindo até que ela tenha sido pega.

SOLUÇÃO

O comprimento do dito campo era de 150 pés. Tome a metade de 150, que são 75. E o cão fazia em um salto 9 pés. Como 75 vezes 9 fazem 675, tantos foram os pés que o cão percorreu perseguindo a lebre, até que ele a pegou com seu dente tenaz. Mas porque a lebre fazia 7 pés em um salto, faça os mesmos 75 vezes 7: dá 205. Tantos foram os pés que fugindo a lebre deu enquanto era perseguida.

27. PROPOSIÇÃO DA CIDADE QUADRANGULAR

Há uma cidade quadrangular que tem em um lado 1100 pés, e do outro lado 1000 pés, e 600 pés na frente, e na outra frente 600 pés. Quero lá pôr casas tais que tenha cada casa 40 pés de comprimento e 30 pés de largura. Diga, quem conseguir, quantas casas devem lá caber.

SOLUÇÃO

Se forem os dois comprimentos desta cidade juntos, serão 2100. Se maneira semelhante, se os dois lados forem juntos, serão 1200. Portanto faça a metade de 1200, e serão 600, e novamente faça a metade de 2100, e serão 1050. E porque cada casa tem 40 pés de comprimento e 30 pés de largura, faça a quadragésima parte de 1050, e serão 26. E novamente tome a trigésima de 600, e serão 20. Portanto, 20 vezes 26 fazem 520. Tantas são as casas que cabem lá.

28. PROPOSIÇÃO DA CIDADE TRIANGULAR

Há uma cidade triangular que tem 100 pés em um lado, e em outro lado 100 pés, e na frente 90 pés. Desejo pois lá construir casas, mas de tal maneira que cada uma das casas tenha 20 pés de comprimento e 10 pés de largura. Diga, quem pode, quantas casas devem caber lá.

SOLUÇÃO

Dois lados desta cidade juntos fazem 200, e faça a metade de 200, que dá 100. Mas porque a frente tem 90 pés, faça a metade de 90, que dá 45. E porque o comprimento de cada uma das casas tem 20 pés e a largura de cada tem 10 pés, assim em 100 são 5 vezes 20, e 4 vezes 10 em 40. Faça portanto 5 vezes 4, que dá 20. Dessa maneira, tantas são as casas que cabem na cidade.

29. PROPOSIÇÃO DA CIDADE REDONDA

Há uma cidade redonda que tem 8000 pés de circuito (comprimento). Diga, quem pode, quantas casas deve conter, de maneira tal que cada casa tenha 30 pés de comprimento e 20 pés de largura.

SOLUÇÃO

a. No âmbito desta cidade contam-se 8000 pés, que são divididos na proporção sesquiáltera [3:2] em 4800 e 3200. Mas trata-se de alocar comprimento das casas naquele e da largura nestes. Assim subtraia de cada uma das somas a metade, e restam do maior 2400, e do menor 1600. Divida então estes 1600 por 20 e encontrarás 80 vintenas, e de novo a maior soma, isto é, 2400, em 30 divididos são enumerados 80 vezes 30. Faça 80 vezes 80, e são 6400. Desse modo são tantas as casas, segundo a proposição acima, que podem ser construídas.

b. O âmbito desta cidade perfaz 8000 pés. Faça então a quarta parte de 8000, e são 2000. Novamente faça a terça parte de 8000, e são 2666. E faça a metade de 2000, e são 1000, e de novo tome a metade de 2666, e são 1333. Então tome a trigésima parte de 1333, (são 44, e novamente tome a vigésima parte de 1000, que é 50. Faça 50 vezes 44), e serão 2200. Daí faça quatro vezes 2200, e serão 8800. Esta é a soma das casas.

30. PROPOSIÇÃO DA BASÍLICA

Há uma basílica que tem 240 pés de comprimento e 120 pés de largura. Cada ladrilho de seu chão tem 23 polegadas de comprimento, isto é, um pé e 11 polegadas, e de largura 12 polegadas, ou seja, um pé. Diga, quem quiser, quantos ladrilhos devem cobri-la.

SOLUÇÃO

a. 126 ladrilhos cobrem 240 pés de comprimento, e 120 ladrilhos 120 pés de largura, porque cada ladrilhos mede um pé de largura. Multiplique assim 120 vezes 126, e a soma vai a 15.120. Assim são, portanto, tantos ladrilhos que podem cobrir o pavimento da basílica.

b. Se fizeres 12 vezes 240, serão 2880. E porque cada ladrilho tem 15 polegadas de comprimento, tome a décima quinta parte de 2880, ou 192. Novamente faça 12 vezes 120, e serão 1440. E porque 8 polegadas tem cada ladrilho de largura, tome a oitava parte de 1440, ou 180. Faça, por fim, 180 vezes 192, e serão 34560. São tantos os ladrilhos que enchem a basílica.

31. PROPOSIÇÃO DA ADEGA

Há uma adega que tem 50 pés de comprimento e 64 pés de largura. Diga, quem pode, quantas cubas deve lá caber, mas de tal modo que cada uma das cubas tenha 7 pés de comprimento, e de lado, isto é, no meio, tem 4 pés, e uma entrada (da adega) tem 4 pés.

SOLUÇÃO

a. Em um cento há 14 setes, e em 64 cabem 16 quatros, dos quais 4 devem ser subtraídos para a entrada, que corre ao longo dessa adega. Portanto, porque em 60 há 15 quatros e em um cento 14 setes, faça 15 vezes 14, e serão 210. Tantas assim são as cubas, segundo a grandeza prescrita, que podem estar contidas na adega.

b. Se fizeres 6 vezes 7, serão 42, e isso são 6 filas de cubas. E para que venhas pela entrada, que tem 3 pés, faça 7 vezes 3, o que dá 21. Portanto, junte 42 e 21, e serão 63. E a saída tem seis filas de cubas. Daí tome a quarta parte de 100, e serão 25, isto é, sempre em uma fila há 25 cubas. e porque há 6 filas de cubas, 6 vezes 25 fazem 150. Este é o número de cubas.

32. PROPOSIÇÃO DE UM PAI DE FAMÍLIA DISTRIBUINDO VÍVERES

Um pai de família tinha uma família de 20 pessoas. Ele mandou dar a elas 20 módios de víveres, mas de tal modo que os homens recebessem 3 módios, as mulheres 2 e as crianças meio módio. Diga, quem pode, quantos homens ou quantas mulheres ou quantas crianças devem haver.

SOLUÇÃO

Faça uma vez 3, e são 3, isto é, um homem recebe 3 módios. De maneira semelhante, 5 vezes 2, isto é, 5 mulheres receberam 10 módios. E faça 7 vezes 2, se são, isto é 14 crianças receberam 7 módios Junte portanto 1 e 5 e 14 e serão 20. Esses são os 20 da família. E daí junte 3 e 7 e 10, e serão 20. Este são os 20 módios. São portanto ao mesmo tempo 20 na família e 20 módios.

N.T.: um módio variava entre 12,5 e 14 litros de grãos. Um módio era a quantidade de grãos produzida em um alqueire de terra, cerca de 24.000 m².

33. OUTRA PROPOSIÇÃO

Certo pai de família tinha uma família de 30, aos quais mandou dar 30 módios de víveres. Mas mandou de tal modo que os homens recebam 3 módios, e as mulheres 2, e as crianças meio módio. Resolva, quem pode, quantos homens ou quantas mulheres ou quantas crianças havia.

SOLUÇÃO

Se fizeres 3 vezes 3, serão 9. E se fizeres 5 vezes 2, serão 10. E daí faça 22 vezes a metade, e serão 11: isto é, 3 homens receberam 9 módios, e 5 mulheres receberam 10, e 22 crianças receberam 11 módios. Juntos esses 3 e 5 e 22 fazem uma família de 30. E novamente 9 e 11 e 10 juntos fazem 30 módios. Quanto são ao mesmo tempo uma família de 30 e 30 módios.

33a AINDA OUTRA PROPOSIÇÃO

Certo pai de família tinha uma família de 90, e ordenou que lhes fossem dados 90 módios de víveres. Também ordenou que cada homem receba 3 módios, e as mulheres 2 e cada criança meio médio. Diga, quem pensa que sabe, quantos homens ou quantas mulheres ou quantas crianças havia.

SOLUÇÃO

Faça 6 vezes 3, e são 18, e faça 20 vezes 2, e são 40. E faça 64 metades, o que são 32. Isto é, os homens receberam 18 módios, 20 mulheres receberam 40 módios e 64 crianças receberam 32 módios. Juntos todos, isto é, 6 e 20 e 64, fazem 90 famílias. E novamente junte 18 e 40 e 32, e são 90, que fazem 90 módios. Esses juntos fazem 90 famílias e 90 módios.

34. AINDA OUTRA PROPOSIÇÃO

Um pai de família tinha uma família de 100, aos quais prescreveu que fossem dados 100 módios de víveres, mas de tal maneira que os homens recebessem 3 módios, as mulheres 2 e cada criança meio módio. Diga, portanto, quem puder, quantos homens, quantas mulheres ou quantas crianças havia.

SOLUÇÃO

Onze vezes 3 fazem 33, e 15 duas vezes fazem 30. E faça 74 metades, que são 37: isto é, 11 homens receberam 33 módios, e 15 mulheres receberam 30, e 74 crianças receberam 37. Esses juntos, isto é 11 e 15 e 74, fazem 100, que são uma família de 100. De maneira semelhante, junte 33 e 30 e 37, e são 100, que são 100 módios. Portanto, com esses juntos tens uma família de 100 e 100 módios.

35. PROPOSIÇÃO DO ÓBITO DE UM PAI DE FAMÍLIA

Um pai de família, ao morrer, deixou crianças, e em seu benefício 960 sólidos, e uma esposa grávida. Ele ordenou que se lhe nascesse um filho, este receberia 3 quartos de toda a massa, isto é, 9 onças, e a mãe receberia um quarto, isto é, 3 onças. Mas se lhe nascesse uma filha, ela receberia 7 onças, e a mãe receberia 5 onças. Aconteceu, porém, que nasceram gêmeos, isto é, um menino e uma menina. Resolva, quem pode, quanto recebeu a mãe ou quanto o filho ou quanto a filha.

SOLUÇÃO

Junte portanto 9 e 3, e serão 12. Pois 12 onças fazem uma libra. E em seguida junte da mesma maneira 7 e 5, e farão novamente 12. E duas vezes 12 fazem 24. E 24 onças fazem duas libras, isto é, 40 sólidos. Divida portanto pela vigésima quarta parte 960 sólidos: a vigésima quarta parte deles fazem 40. E então faça, porque faz três quartas partes, 40 em uma nona parte. Daí 9 vezes 40 recebe o filho, isto é, 18 libras, que fazem 360 sólidos. E porque a mãe recebe a terça parte do filho e a quinta da filha, 3 e 5 fazem 8. E assim faça, como é dito, 40 em uma oitava parte. Portanto 8 vezes 40 recebe a mãe, isto é, 16 libras, que fazem 320 sólidos. E então faça, como é dito, 7 onças, 40 em 7 partes. Depois faça 7 vezes 40, e são 14 libras, que fazem 240 sólidos. Isto é o que a filha recebe. Junte portanto 360 e 320 e 280, e são 960 sólidos e 48 libras.

36. PROPOSIÇÃO DA SAUDAÇÃO DE UM VELHO A UM MENINO

Um velho saudou um menino, e a ele disse: Viva, filho, viva, disse, o quanto viveste, e ainda tanto, e 3 vezes o tanto, e adicione Deus a ti um de meus anos e completarás 100 anos. Resolva, quem pode, quantos anos então esse menino tinha.

SOLUÇÃO

Sobre aquele de quem se disse: viva o quanto viveste, vivera 8 anos e 3 meses. E outro tanto fazem 16 anos e 6 meses, e outro tanto fazem 33 anos, que multiplicados por 3 fazem 99 anos. Adicionado um com esses, e são 100.

37. PROPOSIÇÃO DE UM HOMEM QUE QUERIA CONSTRUIR UMA CASA

Um homem, desejando construir uma casa, contratou 6 trabalhadores, dos quais 5 eram mestres e 1 era discípulo. E ficou acordado entre o que desejava construir e os trabalhadores que seriam dados em paga 25 denários a cada dia de trabalho, mas de tal maneira que o discípulo receberia metade do que cada um dos mestres receberia. Diga, quem pode quanto cada um deles a cada dia recebeu.

SOLUÇÃO

Tome primeiro 22 denários e divida-os em 6 partes. Assim, dê a cada um dos mestres, que são 5, 4 denários. Pois 5 vezes 4 são 20. Os 2 que sobraram, que são metade de 4, tome e dê ao discípulo. E sobram ainda 3 denários, que distribua assim: faça de cada denário 11 partes. 3 vezes 11 perfazem 33. Tome aquelas 30 partes e divida-as entre os 5 mestres. 5 vezes 6 são 30. Dê a cada mestre 6 partes. Tome as 3 partes, que sobraram de 30, que é metade de um 6, e dê ao discípulo.

38. PROPOSIÇÃO DE UM COMPRADOR DE 100 ANIMAIS

Quis um homem comprar 100 animais diversos com 100 sólidos, de tal maneira que 1 cavalo fosse comprado por 3 sólidos, 1 boi por 1 sólido, e 24 ovelhas por 1 sólido. Diga, quem pode, quantos cavalos ou quantos bois ou quantas ovelhas havia.

SOLUÇÃO

Faça 3 vezes 23, se são 69. E faça duas vezes 24, e são 48. São, portanto, 23 cavalos e 69 sólidos, e 48 ovelhas e 2 sólidos, e 29 bois em 29 sólidos. Junte, portanto, 23 e 48 e 29, e são 100 animais. E então junte 69 e 2 e 29 e são 100 sólidos. São, portanto, juntos 100 animais e 100 sólidos.

39. PROPOSIÇÃO DE UM CERTO COMPRADOR NO ORIENTE

Um homem quis com 100 sólidos comprar 100 animais no Oriente. Ordenou a um servo seu que comprasse camelos por 5 sólidos, asnos por 1 sólido, e 20 ovelhas por 1 sólido. Diga, quem quer, quantos camelos ou asnos ou ovelhas houve no negócio de 100 sólidos.

SOLUÇÃO

Se fizeres 10 vezes 9 e 5, serão 95, isto é, 19 camelos são comprados por 95 sólidos. Adicione a esses 1, isto é, com um sólido um asno, e são 96. E depois faça 20 vezes 4, e são 80, isto é, com 4 sólidos 80 ovelhas. Junte, portanto, 19 e 1 e 80, e são 100. Estes são os 100 animais. E depois junte 95 e 1 e 4, se são 100 sólidos. Juntos, portanto, fazem 100 animais e 100 sólidos.

40. PROPOSIÇÃO DO HOMEM E DAS OVELHAS NO MONTE

Um homem viu, de um monte, ovelhas pastando, e disse: oxalá tivesse tanto (de ovelhas) e outro tanto e metade da metade, e desta metade outra metade, e eu mesmo juntamente com essas, seria o centésimo a entrar em minha casa. Resolva, quem pode, quantas ovelhas ele viu lá pastando.

SOLUÇÃO

Quando disse, portanto: teria um tanto, 36 ovelhas foram primeiro vistas por ele. E outro tanto fazem 72, e metade dessa metade, a saber, de 36, são 18. E novamente tomada metade desta segunda metade, isto é, de 18, são 9. Junte portanto 36 e 36, e são 72. Adicione a esses 18, e são 90. E some 9 com 90, e são 99. E o próprio homem a elas adicionado seria o centésimo.

41. PROPOSIÇÃO DO CHIQUEIRO E DA PORCA

Um pai de família construiu um chiqueiro quadrangular novo, no qual pôs uma porca, que pariu 7 porquinhas no meio do chiqueiro, que juntamente com a mãe, que era a oitava, pariram cada uma 7 em cada ângulo. E ela novamente com todos os gerados pariu 7 no meio do chiqueiro. Diga, quem deseja, quantos porcos havia junto com a mãe.

SOLUÇÃO

Assim, no primeiro parto, que foi feito no meio do chiqueiro, foram 7 porquinhas, e a mãe delas era a oitava. Oito vezes 8 fazem 64. Tantos foram as porquinhas juntas com suas mães no primeiro ângulo. E então 64 vezes 8 são 512. Tantas foram as porquinhas com suas mães no segundo ângulo. Novamente 512 vezes 8 fazem 4096. Tantos foram com suas mães no terceiro ângulo. Se multiplicares estes 8 vezes serão 32.768. Tantos foram com suas mães no quarto ângulo. Multiplica também 8 vezes e são 262.144. Tantos assim nasceram, porque no meio do chiqueiro um novo parto fizeram.

42. PROPOSIÇÃO DA ESCADA DE 100 DEGRAUS

Há uma escada que tem 100 degraus. No primeiro degrau pousava uma pomba, no segundo duas, no terceiro 3, no quarto 4, no quinto 5. E assim em todos os degraus até o centésimo. Diga, quem pode, quantas pombas havia no total.

SOLUÇÃO

Contarás assim: do primeiro degrau, no qual uma só pousava, tome ela e junte às 99 que estão no nonagésimo nono degrau, e serão 100. E assim o segundo com o nonagésimo oitavo, e encontrarás igualmente 100. Assim junte com cada um dos degraus superiores outro dos degraus inferiores, nessa ordem, e encontrarás sempre em cada dois degraus 100. Mas o quinquagésimo degrau está só e absoluto, e não tem par. De modo semelhante, o centésimo ficará só. Portanto, junte todos e encontrarás 5050 pombas.

43. PROPOSIÇÃO DOS PORCOS

Um homem tinha 300 porcos e ordenou que todos os porcos deveriam ser mortos em números ímpares em 3 dias. O mesmo também se fossem 30. Diga então, quem pode, quantos porcos em número ímpar de 300 ou de 30 devem ser mortos em 3 dias.

SOLUÇÃO

Eis uma fábula que não pode ser resolvida por ninguém, que 300 ou 30 porcos em 3 dias sejam mortos em número ímpar. Esta fábula existe apenas para exercitar meninos.

44. PROPOSIÇÃO DA SAUDAÇÃO DO MENINO AO PAI

Um menino saudou o pai: Ave, pai, ele disse. E o pai a ele: Salve, filho. Vivas, o quanto viveste. Estes anos duplicados tripliques, e tome um de meus anos e tereis 100 anos. Diga, quem pode, quantos anos tinha o menino naquele tempo.

SOLUÇÃO

O menino tinha 14 nos e 6 meses. Esses dobrados juntos com os meses e são 33 anos. Estes triplicados são 99. Somado um ano do pai, aparecem 100.

45. PROPOSIÇÃO DA POMBA

Uma pomba pousada em uma árvore viu outras voando e lhes disse: Oxalá fôsseis outro tanto e um terceiro tanto. Então comigo juntas seríeis 100. Diga, quem pode, quantas pombas havia voando primeiro.

SOLUÇÃO

Eram 33 as pombas que foram avistadas voando primeiro. Juntas com outro tanto são 66, e com um terceiro tanto são 99. Adicione a que estava pousada e serão 100.

46. PROPOSIÇÃO DA BOLSA ENCONTRADA PELO HOMEM

Um homem, andando pela estrada, encontrou uma sacola com dois talentos. Outros que também a viram, lhe disseram: Irmão, dê-nos uma parte de seu achado. O homem, fazendo um sinal com a cabeça, não quis dar nada a eles. E eles avançaram e lhe roubaram a sacola, e cada um tomou para si 50 sólidos. E o homem, quando viu que não poderia resistir, esticou a mão e roubou 50 sólidos. Diga, quem deseja, quantos homens havia.

SOLUÇÃO

Em cada talento tem 75 libras. E uma libra tem 72 sólidos de ouro. 75 vezes 72 fazem 5400, e esse número duplicado dá 10.800. Em 10.800 existem cinquenta 216. Tantos são, portanto, os homens que havia.

N.T.: um talento continha entre 26 e 60 kg de ouro. Era chamado, quando próximo de 26

kg, de talento leve, e quando próximo de 60 kg, de talento pesado.

47. PROPOSIÇÃO DO BISPO QUE MANDOU DIVIDIR 12 PÃES ENTRE O CLERO

Um bispo ordenou que 12 pães fossem divididos entre o clero. E prescreveu que cada um dos presbíteros recebesse 2 pães, os diáconos metade e o leitor uma quarta parte. Mas que seja feita de tal maneira [a divisão] que de clérigos e pães seja um só número. Diga, quem pode, quantos presbíteros ou quantos diáconos ou quantos leitores devem haver.

SOLUÇÃO

Cinco vezes 2 são 10, isto é, 5 presbíteros receberam 10 pães, e o diácono uma metade de um pão, e entre os leitores 6 tiveram um pão e meio. Junte 5 e 1 e 6 de uma vez e são 12. Novamente, junte 10 e metade de um, e um e meio, e são 12. Estes são 12 pães, que uma vez juntos são 12 homens e 12 pães. O mesmo, portanto, é o número de clérigos e pães.

48. PROPOSIÇÃO DO HOMEM QUE VIU ESTUDANTES

Um homem viu estudantes e lhes disse: Quantos sois na escola? Um deles respondeu dizendo: Não quero lhe dizer isso. Conte-nos em dobro e multiplique por 3. Então divida em 4 partes. À quarta parte desse número, se me adicionar, obterá um centenário. Diga, quem pode, quantos havia, que antes foram vistos andando pela estrada.

SOLUÇÃO

Duas vezes 33 são 66. Tantos eram, que antes foram visto andando. Esse número multiplicado por 2 dá 132. Multiplique por 3 e são 396. A quarta parte desse é 99. Adicione o menino que respondeu e encontrarás 100.

49. PROPOSIÇÃO DOS CARPINTEIROS

Cada um de 7 carpinteiros fez 7 rodas. Diga, quem quiser, quantas carroças construíram.

SOLUÇÃO

Faça 7 vezes 7 e são 49. Tantas rodas fizeram. E 12 vezes 4 dão 40 e 8. Sobre 40 e 8 rodas 12 carroças foram construídas, e uma roda sobra.

50. OUTRA PROPOSIÇÃO

Peço que diga, quem consegue, quantos sextários cabem em 100 metros de vinho, e também quantos meros há nos mesmos 100 metros.

SOLUÇÃO

Em um metro cabem 48 sextários. Faça 100 vezes 48, e são 4.800. São tantos os sextários. De maneira semelhante, um metro também tem 288 meros. Faça 100 vezes 288 e são 28.800. São tantos os meros.

51. PROPOSIÇÃO DO VINHO NOS VASOS DISTRIBUÍDO POR UM PAI DE FAMÍLIA

Um pai de família, ao morrer, distribuiu 4 vasos de vinho a seus 4 filhos. No primeiro vaso havia 40 módios, no segundo 30, no terceiro 20 e no quarto 10. Chamando o dispenseiro de sua casa, disse: Divida estes quatro vasos com vinho dentro entre os meus 4 filhos, mas de tal maneira que a cada um deles caiba igual porção tanto de vinho quanto de vasos. Diga, quem entende, como se deve dividir de maneira que todos possam receber iguais quantidades de cada.

SOLUÇÃO

Com efeito, no primeiro vaso havia 40 módios, no segundo 30, no terceiro 20 e no quarto 10. Junte portanto 40 e 30 e 20 e 10, e são 100. Então divida essa centena pela quarta parte. E a quarta parte da centena é 25, número que dobrado dá 50. É devida a cada filho uma porção de 25, e 50 entre dois. No primeiro [vaso] há 40 módios e no quarto 10. Estes juntos fazem 50. Isto darás a dois filhos. De modo semelhante, junte 30 e 20 módios, que havia no segundo e no terceiro vaso, e são 50, e isto darás, como acima, a dois filhos, e cada um terá 25 módios, e, assim fazendo, a divisão dos filhos será igual tanto de vinho quanto de vasos.

52. PROPOSIÇÃO DO HOMEM PAI DE FAMÍLIA

a. Um pai de família ordenou que 90 módios de grãos fossem transportados de uma casa sua à outra que ficava a 30 léguas de distância. Mas de maneira tal que um só camelo levaria todos os grãos em 3 viagens, levando em cada viagem 30 módios. E o camelo comia um módio a cada légua. Diga, quem quiser, quantos módios restaram.

b. Um pai de família tinha uma casa há 30 léguas de distância da outra, e tinha um camelo que devia em três viagens de uma casa a outra levar 90 módios de mantimentos, e em cada légua o camelo comia sempre 1 módio. Diga, quem puder, quantos módios restaram.

SOLUÇÃO

Na primeira viagem o camelo levou 30 módios em 20 léguas e comeu em cada légua um módio, isto é, comeu 20 módios, e sobraram 10. Na segunda viagem, de maneira semelhante, levou 30 módios, e deles comeu 20, e restaram 10. E na terceira viagem fez o mesmo: levou 30 módios e deles comeu 20, e sobraram 10. Daqueles que sobraram, foram 30 módios e 10 léguas de caminho. Aqueles 30 levou em uma quarta viagem à casa, e desses comeu 10, e restaram de toda aquela soma só 20 módios.

53. PROPOSIÇÃO DO PADRE DE UM MONASTÉRIO DE 12 MONGES

Um padre de um monastério vivia com 12 monges. Chamando o dispenseiro de seu monastério, deu a ele 204 ovos e ordenou que desse a cada um deles uma igual porção. Mas mandou que a 5 presbíteros fossem dados 85 ovos, e a 4 diáconos 68, e a 3 leitores 51. Diga, por favor, quem pode, quantos ovos a cada um deles chegou, de tal maneira que em nenhum [número] sobre ou falte, mas todos, como acima dissemos, receba igual porção.

SOLUÇÃO

Divida, portanto, 204 pela décima segunda parte. Dessas, uma décima segunda parte se resolve em 17, porque se fizeres ou 12 vezes 17 ou 17 vezes 12 encontrarás 204. Dessa forma, o número 85 se desfaz em 5 partes de 17, e 68 em quatro partes, e 51 em três partes. Junte portanto 5 e 4 e 3 e são 12. Estes são os 12 homens. De novo, junte 85 e 68 e 51, e são 204. Estes são os 204 ovos. Chega, portanto a cada um deles, uma décima segunda parte de 17 ovos.

Bibliografia

YORK, Alcuíno de. Propositiones Alcuini Doctoris Caroli Magni Imperatoris ad Acuendos Juvenes, in J.-P. MIGNE. Patrologiae Cursus Completus: Patrologiae Latinae. Tomo 101, colunas 1143-1160. Paris: 1863.

FOLKERTS, Menso. Die älteste mathematische Aufgabensammlung in lateinischer Sprache: Die Alkuin zugeschriebenen PROPOSITIONES AD ACUENDOS IUVENES. Wien: Springer-Verlag, 1978.

NIERMEYER, J.F. Mediae Latinitatis Lexicon. Leiden: E. J. Brill, s.d.

REALE, Giovanni, e ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol. I. São Paulo: Paulinas, 1990.


Frederico José Andries Lopes

Departamento de Matemática – UFMT – Cuiabá - Brasil

E-mail: fredlopespro@gmail.com

***

Leia mais em Alcuíno de York: difusor do Trivium e Quadrivum

Leia mais em Como resolver problemas (matemáticos)



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O texto abaixo é retirado do livro de Institutiones: introdução às letras divinas e seculares, de Flávio Magno Aurélio Cassiodoro, publicado pelas Edições Kírion, 2018.

***

Movamo-nos agora aos princípios da matemática.

Da matemática

A matemática, que podemos chamar de doutrinal (teorética), é a ciência que considera a quantidade abstrata. E quantidade abstrata é a que tratamos apenas com a razão, separando-a intelectualmente da matéria ou de outros acidentes. Por exemplo, as noções de par e ímpar, e similares.

Divisão da matemática: aritmética; música; geometria; astronomia.

A aritmética é a disciplina da quantidade numerável considerada em si mesma. A música é a disciplina que fala dos números em relação aos sons. A geometria é a disciplina da magnitude imóvel e das figuras. A astronomia é a disciplina que versa sobre o curso dos astros no céu. Ela investiga todas as formas e percorre as configurações das estrelas em relação a si mesmas e à Terra. Nós as indicamos um pouco mais amplamente no lugar apropriado para que o valor dos assuntos mencionados seja convenientemente demonstrado.

Discutamos o termo disciplinas (ciências). Como foi dito, disciplinas são aquelas que escapam das armadilhas da opinião e por isso recebem esse nome; elas seguem inexoravelmente as suas regras. Não podem ser estendidas ou diminuídas, nem modificadas por quaisquer variáveis, mas conservam com uma firmeza inabalável suas regras permanentes em seu próprio poder. Quando as consideramos em uma longa meditação, elas aguçam nossa inteligência, varrem para fora dela a poeira da ignorância e, se tivermos um espírito são, nos conduzem, com a ajuda do Senhor, à contemplação especulativa. Mas devemos saber que Josefo, o mais douto dos hebreus, diz, no capítulo nono de seu primeiro livro Das antigüidades que Abraão transmitiu primeiro a aritmética e a astronomia aos Egípcios, que, recebendo dele as sementes, desenvolveram mais profundamente as demais disciplinas para seu próprio uso — como fazem os homens de gênio muito perspicaz. Os Santos Padres nos recomendam — e com razão — o estudo dessas ciências. Pois elas afastam em grande parte nosso apetite das coisas carnais e nos fazem desejar o que só podemos ver com a alma, mediante auxílio do Senhor. É hora, portanto, de falarmos breve e individualmente sobre elas.


Capítulo IV 

Aritmética

Os escritores das letras seculares estabeleceram a aritmética como a primeira entre as disciplinas matemáticas, porque a música, a geometria e a astronomia, que a seguem, precisam dela para explicar suas noções. Por exemplo, exigem conhecimentos de aritmética a noção de número simples ou duplo em música, a de triângulo e quadrado (e outros similares) em geometria, o cálculo das posições móveis dos corpos celestes em astronomia. Mas a aritmética não precisa nem da música, nem da geometria, nem da astronomia. Por isso, para elas é fonte e mãe. Pitágoras a louvou tanto a ponto de declarar que tudo foi criado por Deus sob número e medida, dizendo que algumas coisas foram formadas em movimento e outras em repouso, de modo que nenhuma, além das mencionadas, recebesse substância. Creio que esse princípio está certo, e eu o tomo, como muitos filósofos, da frase do profeta que diz: “Deus dispôs todas as coisas em medida, número e peso”.

A aritmética consiste na quantidade distinta, que gera as espécies de números, que não estão ligados por nenhum limite comum. Não há nenhum limite comum que associe os números 5 e 10; ou 6 e 4; ou 7 e 3. É chamada de aritmética porque os números constituem seu domínio. E número é um conjunto formado por unidades, como 3, 5, 10, 20 etc. O propósito da aritmética é nos ensinar a natureza do número abstrato e seus acidentes. Por exemplo, paridade, imparidade etc.

O número é dividido em:



Par é o número que pode ser dividido em duas partes iguais [1], como 2, 4, 6, 8, 10 etc. Ímpar é o número que não pode ser dividido de modo algum em duas partes iguais [2], como 3, 5, 7, 9, 11 etc. Igualmente par é o número cuja divisão pode se dar em duas partes iguais até um. Por exemplo, 54 é dividido em 32, 32 em 16, 16 em 8, 8 em 4, 4 em 2, 2 em 1. Igualmente ímpar é o número que pode ser dividido somente em duas partes iguais, como 10 em 5, 14 em 7, 18 em 9, e similares. Desigualmente par é o número que pode receber mais de uma divisão segundo a igualdade das partes, mas sem chegar a um. Por exemplo, 24 em 2x12, 12 em 2x6, e 6 em 2x3. E não se pode prosseguir mais adiante. O número ímpar primo e simples é o número que só pode ser dividido por um [3]. Por exemplo 3, 5, 7, 11, 13, 17, e similares. O número ímpar secundário e composto é o que pode ser dividido não só por um, mas por outro número além de um. Por exemplo, 9, 15, 21, e similares. Ímpar intermediário é o número que sob certo aspecto é simples e não-composto, e sob outro, é secundário e composto. Por exemplo, 9, se comparado com 25, é primo e não-composto, porque não compartilha com ele nenhum número a não ser 25. Mas se for comparado com o número 15, é secundário porque tem 3 como divisor comum.

Segunda divisão de números pares e ímpares; o número é:



Supérfluo é o número que deriva de pares. Como é par, ele parece possuir partes supérfluas de quantidade. Como a metade de 12 é 6, a sexta parte é 2; a quarta parte é 3; a terceira é 4; a décima segunda é 1. Somadas essas quantidades, tem-se 16.

O número insuficiente também deriva de pares. Ele possui uma soma inferior das partes de sua quantidade. Como 8, cuja metade é 4, cujo quarto é 2, e cujo oitavo é 1. Essas partes, somadas, valem 7.

O número perfeito também deriva de pares. E como é par, suas partes somadas equivalem ao seu próprio valor. Como 6, cuja metade é 3, cujo terço é 2 e cujo sexto é 1. Somadas as partes, elas formam o próprio número 6.

Terceira divisão dos números.

Os números são ou:



O número per se é o que não possui nenhuma relação com outros. Como 3, 4, 5, 6 e outros similares.

O número relativo é o que se compara com outros. Por exemplo, se comparamos 4 com 2, 6 com 3, 8 com 4, 10 com 5, os chamamos dobro ou múltiplo. Se comparamos 3 com 1, 6 com 2, 9 com 3, os chamamos de triplo etc.

Os números iguais são os que são iguais segundo a quantidade. Por exemplo, 2 e 2, 3 e 3, 10 e 10, 100 e 100 etc.

Os números desiguais são os que, comparados entre si, demonstram desigualdade. Como 3 e 2, 4 e 3, 5 e 4, 10 e 6.

Em geral, quando o maior for assim comparado ao menor, ou o menor ao maior, chama-se desigual.

Número maior é o que contém em si o menor, com o qual é comparado, e unidades adicionais. Por exemplo, 5 vale mais do que 3 porque o contém em si e mais duas unidades.

Número menor [4] é aquele contido pelo maior, com o qual é comparado, junto com outra unidade adicional. Por exemplo, 5 é menor do que 3, porque, junto com duas unidades, encontra-se contido nele.

Número múltiplo é o que contém em si o número menor, duas, três, quatro, ou múltiplas vezes. Por exemplo, comparado a 1, 2 contém-lhe o dobro; 3, o triplo; 4, o quádruplo etc.

Número sub-múltiplo, por outro lado, é aquele contido no múltiplo, com o qual é comparado, duas, três, quatro ou múltiplas vezes. Por exemplo, 1 é contido duas vezes em 2, três vezes em 3, quatro vezes em 4, cinco vezes em 5 e assim por diante.

Número super-particular é superior por conter dentro de si o inferior e uma unidade dele. Por exemplo, se comparamos 3 e 2, três contém dois e mais uma unidade, que é a metade de dois. Se comparamos 4 e 3, quatro contém três e mais uma unidade, que é um terço de três. Se comparamos 5 e 4, cinco contém quatro e mais uma unidade, que é um quarto de quatro. E assim por diante.

Sub-super-particular é o número menor que é contido no maior acrescido de uma parte sua: a metade, a terça parte, ou a quarta, ou a quinta. Por exemplo: 2 em relação a 3, 3 em relação a 4, 4 em relação a 5 etc.

Super-partiente é o número que contém em si todo o número inferior, e além dele, suas outras duas unidades, ou três, ou quatro, ou cinco, ou mais unidades. Por exemplo, 5 em relação a 3: cinco contém em si o número três, e além dele, suas outras duas unidades. 7 em relação a 4: sete contém quatro e mais três unidades dele.

Sub-super-partiente é aquele número contido no número super-partiente com algumas outras unidades suas (duas, três ou mais), como, por exemplo, 3 está contido em 5 mais outras duas unidades suas. 4 em 7, mais três unidades; 5 em 9, mais quatro unidades.

Múltiplo super-particular é o número que, comparado a um número inferior, o contém várias vezes e mais uma unidade. Por exemplo, comparemos 5 a 2. 5 contém o dobro de 2 e mais uma unidade. 9 contém em si o dobro de 4, mais uma unidade.

Sub-múltiplo super-particular é o número que, comparado a um maior, é por ele contido, junto com uma unidade, várias vezes. Por exemplo, comparemos 2 a 5. 2 é contido duas vezes por 5 e mais uma unidade sua.

Múltiplo super-partiente é o que, comparado a um número inferior, o contém várias vezes e mais outras unidades. Por exemplo, 8 contém dois terços de 3, e mais outras duas unidades. 14 contém o dobro de 6 e mais duas unidades. 16 contém o dobro de 7 e mais duas unidades. 19 contém o dobro de 8 e mais três unidades dele.

Sub-múltiplo super-partiente é o número que, comparado ao maior, é por ele contido, junto com outras unidades suas, várias vezes. Por exemplo, 3 está contido duas vezes em 8 com mais duas unidades. 4 está contido três vezes em 15 com outras três unidades suas.


Segue-se a quarta divisão dos números: discretos; e contíguos: lineares, planos, sólidos.

O número discreto é o que está contido em outro por unidades distintas, por exemplo, 3 está contido em 4, 5 em 6, etc.

Contíguo é o número contido em outro por unidades conjuntas. Por exemplo, o número 3, entendido em sua magnitude, é chamado número contíguo linear, plano ou sólido. Assim como os números 4 e 5.

Linear é o número que, começando a partir de um, se escreve linearmente até o infinito; por isso, as linhas são designadas com a letra alpha, que, em grego, significa um: aaa…

Plano é o número considerado não só segundo seu comprimento, mas também por sua largura, como o número triangular, o número quadrado, o número retangular, o número pentagonal, o número circular e outros números planos.

Número triangular     Número quadrado     Número pentagonal


Número circular é o que, multiplicado de maneira similar, volta sempre ao ponto de partida. Por exemplo: 5x5=25… Assim se dá com o seis: 6x6=36, 6x36=216.

Sólido é o número considerado segundo seu comprimento, largura e altura, como o são as pirâmides, que se erguem em forma de chamas, ou cubos, que são como os dados, ou as esferas, que possuem, de todos os lados, a mesma circularidade.

Esférico é o número que, multiplicado por um número circular, começa e volta a si mesmo. Por exemplo, 5x5=25. Se esse número circular for multiplicado por si mesmo, formará uma esfera: 5x25=125.



Tratai desses assuntos com um espírito solícito, lembrai-vos de que essa disciplina é colocada na frente das outras, uma vez que — como foi dito acima — não precisa de nenhuma outra. As demais, a seguir, como demonstra sua própria natureza, precisam da aritmética para existir. Nicômaco expôs a aritmética cuidadosamente entre os gregos. Ele foi traduzido ao latim, primeiro por Apuléio de Madaura e depois por Boécio, para que os romanos o lessem e relessem. Se os utilizamos, à medida que nos é lícito, as lições se derramam num raciocínio evidentemente muito lúcido. Foi-nos dado também viver em grande parte sob a égide dessa disciplina. Sempre que por meio dela aprendemos as horas, computamos o curso dos meses, reconhecemos o período do ano que se repete. Somos ensinados pelos números a não ser enganados. Retira do século o cômputo e a cega ignorância abraçará a tudo e a todos. Nem pode diferir dos outros animais aquele que não entende o resultado do cálculo. Trata-se de uma disciplina tão gloriosa quanto necessária à nossa vida. Por meio dela, averiguamos os nossos recursos e, sopesados os cômputos, as nossas despesas. O número é aquilo que dispõe todas as coisas. Por meio dele, aprendemos o que devemos fazer primeiro e o que fazer depois.

E se examinares minuciosamente a causa de tão grande fato, nem por isso os milagres do Senhor se tornam alheios à força do número. O número um diz respeito a Deus, como se lê no Pentateuco: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” [5]. O número dois está relacionado aos Testamentos, como está dito em Reis: “E pôs no Oráculo dois querubins de pau de oliveiras, do tamanho de dez côvados” [6]. Por fim, o fruto suavíssimo de toda nossa esperança foi depositado na Santa Trindade, não porque esteja a serviço do número, mas porque mostra pelo poder de sua majestade a utilidade dele. Entendemos, certamente, que há a unidade na essência da Divindade, e a Trindade nas pessoas. Lê-se na epístola de João: “E três são os que dão testemunho na terra: o Espírito, a água e o sangue” [7]. Quanto aos quatro Evangelhos, também se lê em Ezequiel: “E no meio deste mesmo fogo se via a semelhança de quatro animais” [8]. Sabemos que o número cinco refere-se aos cinco livros de Moisés, como diz o Apóstolo: “Mas eu antes quero falar na Igreja cinco palavras da minha inteligência” [9]. No sexto dia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Com efeito, nós cremos que o próprio Espírito Santo é septiforme. O número descobre-se necessário para que as concepções mais sublimes e poderosas sejam compreendidas.

[...]

Capítulo VI

Geometria

Voltemo-nos agora à geometria, que é a descrição especulativa das formas e a prova visível de que dispõem os filósofos. Estes, para tecer loas a ela, afirmam que Júpiter usa os métodos da geometria em seus próprios trabalhos. Não sei se a geometria é louvada ou repreendida, quando eles afirmam, falsamente, que Júpiter realiza no céu o que eles retratam em poeira envernizada. Se for aplicada ao Criador e Senhor onipotente, talvez essa frase possa corresponder à verdade. Na realidade, é a Santa Trindade — se é lícito dizer — que geometriza quando concede diversas espécies e formas às criaturas que fez com que existissem até hoje; quando distribui as rotas das estrelas com seu venerável poder, faz correr linearmente tudo o que se move e institui o que é fixo e certo em seu devido lugar. Tudo o que é bem arranjado e acabado pode ser atribuído às qualidades dessa disciplina.

Geometria significa, em latim, medida da terra, pois se conta que o Egito — como alguns afirmam — foi primeiramente dividido entre os devidos senhores e proprietários segundo as diversas formas desta ciência. Os professores de geometria eram antes chamados de medidores. Mas Varrão, o mais profundo escritor latino, assim descreve a causa pela qual esse nome passou a existir: diz que primeiro as dimensões das terras, com limites bem definidos, providenciaram os benefícios da paz aos povos nômades e discordantes; depois, o círculo do ano inteiro foi dividido conforme o número de meses, e então os próprios meses, que são assim chamados por medir o ano; instigados por essa descoberta, alguns estudiosos começaram, em seguida, a investigar a distância entre a Lua e a Terra, entre o Sol e a Lua e a distância até o vértice do céu; Varrão menciona ainda que os geômetras alcançaram o que buscavam; ora, relata que a dimensão de toda a Terra foi circunscrita numa medida provável; e, por isso, aconteceu que a própria ciência recebesse o nome (geometria) que preserva por longos séculos. É por isso que Censorino, no livro que endereçou a Quinto Celério, descreveu, movido pelo desejo de conhecimento, os próprios espaços do céu e a órbita da Terra segundo o número de estádios [10] Se alguém desejar examiná-lo, descobrirá numa breve leitura muitos mistérios dos filósofos.

A geometria é, em verdade, a ciência da extensão imóvel e das formas. Ela divide-se em: plano; extensão numerável; extensão racional e irracional; figuras sólidas.

Figuras planas são as que contém comprimento e largura. Extensão numerável é a que pode ser dividida com os números da aritmética. Extensões racionais são aquelas cuja medida podemos saber, irracionais aquelas cuja medida não é considerada conhecida. Figuras sólidas são as que possuem comprimento, largura e altura.

Tratamos de toda a disciplina da geometria nestas partes e subdivisões, e com essa exposição concluímos as numerosas formas presentes na terra ou no céu. Houve bons escritores nesse campo entre os gregos, como Euclides, Apolônio, Arquimedes e outros. Desses autores, Boécio, homem magnífico, publicou a versão latina de Euclides. Se Euclides for relido com diligência e cuidado, aquilo que foi explicado nas mencionadas subdivisões torna-se conhecido pela clareza de uma inteligência comprovada.

Notas:

[1] Isto é, em dois números inteiros iguais.

[2] Isto é, em dois números inteiros.

[3] E, é claro, por ele mesmo.

[4] A seguinte definição foi omitida ou perdida. Ela é uma reconstituição a partir da anterior.

[5] Dt 6, 4.

[6] 1Rs 6, 23.

[7] 1Jo 5, 8.

[8] Ez 1, 5.

[9] 1Cor 14, 19.

[10] Medida grega que correspondia a 185 metros.

Obs.: As duas últimas figuras foram retiradas do mesmo Tratado de Aritmética, de Cassiodoro, contido na Coleção de Artes Liberais: Volume 9.

***

Leia mais em Institutiones, um livro que preservou a Educação Clássica

Leia mais em A Matemática de S. Isidoro de Sevilha e a Educação Medieval



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Educação na Grécia Antiga: A lição de flauta, a lição de escrita,
por cima de um rolo de escrita, uma tábua dobrada, um esquadro.

Taça Berlin F 2285, c.490-480 a.C (foto J. Laurentius,
Antikensammlung, Staatliche Museen zu Berlin).

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Texto retirado do livro Paideia: A formação do homem grego, de Werner Jaeger, publicado por WMF Martins Fontes em 2013.

As matemáticas como propaideía

Ora, qual é o saber capaz de conseguir a “conversão da alma”? Está visto de antemão que não é, para Platão, nenhuma experiência isolada, nenhum abalo de alma, nenhuma voz súbita que fale ao Homem sem nenhum esforço da sua parte. Não é num resultado como esse que se pode traduzir a fase cultural em que se move a educação dos “guardiões” e com ela a paideía grega anterior a Platão, visto que a ginástica refere-se ao mundo do que nasce e do que morre, ao florescimento e à decadência, e a música limita-se a produzir na alma um ritmo e uma harmonia, mas sem lhe infundir nenhum saber [107]. E não falemos das artes profissionais (τέχναι), que são banais e, portanto, não podem ser levadas em consideração, quando se trata da verdadeira cultura do Homem [108]. Mas ao lado delas há, contudo, outro tipo de saber de que todas fazem maior ou menor uso, e que serve como nenhum outro para transferir a alma do mundo visível para o conceptual: é a ciência dos números ou aritmética [109]. A lenda atribui a paternidade dessa ciência ao herói Palamedes, que combateu em frente de Troia e de quem se diz que ensinou ao chefe supremo Agamemnon o uso da nova arte para fins estratégicos e táticos. Platão ri daqueles que assim pensam, pois segundo isso Agamemnon não teria sido capaz até então sequer de contar os dedos, e muito menos os contingentes do seu exército e da sua frota. A ciência aritmética é indispensável à formação dos governantes, entre outras razões pelo seu valor militar [110]. Esse argumento prático não se deve tomar apenas num sentido irônico, visto que Platão o torna mais tarde extensivo da aritmética às demais disciplinas matemáticas e é sabido que o desenvolvimento da ciência da guerra no século IV requeria um conhecimento cada vez maior das matemáticas [111]. Todavia, a aritmética que Platão quer que se estude é algo mais do que uma simples ciência auxiliar para o estratego. É um estudo humanístico, pois sem ele o Homem não seria Homem [112]. É claro que de momento isso só se refere a uma fase bastante elementar da compreensão aritmética, a saber: ao contar e distinguir as grandezas pelo próprio nome. Elevando-se acima disso, porém, Platão vê nos números um saber que orienta de modo especial o nosso pensamento para o campo dos objetos que procuramos, que arrasta a alma para o Ser [113].

É esse o ponto de vista completamente novo a partir do qual Platão enfoca o valor cultural da aritmética e de todas as matemáticas. Não devemos esperar da sua maneira de enfocar o assunto que ele entre a fundo no conteúdo dos problemas matemáticos e muito menos que exponha todo um curso didático dessa ciência. Exatamente como faz ao tratar da música e da ginástica, Platão limita-se a traçar as linhas diretivas mais simples, segundo o espírito das quais se devem estudar esses problemas. Ao ir examinando uma após outra as diversas disciplinas matemáticas, há certas repetições que se introduzem no seu breve tratamento do problema, pois julga necessário a propósito de cada disciplina sublinhar de novo o seu ponto de vista, a saber: são as matemáticas que devem despertar o pensamento do Homem. Põe em relevo que, até ele, essa ciência não fora nunca utilizada com tal fim. Recordemos o que dissemos atrás sobre a introdução das matemáticas pelos sofistas como meio de cultura e sobre a fundamentação realista desses estudos [114]. Platão recebe dos sofistas, na medida em que se ocupavam desses problemas, o alto apreço em que tinham as matemáticas, mas ao contrário deles não acha que o seu verdadeiro valor resida na aplicação prática. O reconhecimento da sua importância para a ciência da guerra é uma mera concessão feita à cultura dos governantes, por ele visada. A senda através da Filosofia, que Platão prescreve a essa cultura, exige dos futuros “governantes” um anelo tão puro de cultura, que a referência à importância prática que esses conhecimentos possam vir a adquirir para eles quase pode ser considerada um perigo para a verdadeira fundamentação dos estudos matemáticos [114a]. É principalmente a geometria que lhe fornece ocasião para polemizar com os matemáticos que desenvolvem ridiculamente as suas demonstrações, como se as operações geométricas implicassem um fazer (prâxis) e não um conhecer (gnôsis) [115]. É com uma riqueza impressionante de imagens plásticas que Platão caracteriza constantemente esse conhecer como algo que guia ou arrasta para o pensamento, que evoca o pensamento ou o desperta, que purifica e estimula a alma [116]. Os futuros governantes devem receber uma instrução matemática não meramente profana, mas antes profissional [117]. Não é para fins de compras e transações comerciais, mas sim para facilitar à alma a sua “conversão ao Ser”, que devem ser iniciados na beleza e utilidade desses estudos. Segundo Platão, a eficácia da matemática reside em o seu estudo facilitar, àqueles que para ela têm talento, a capacidade para compreenderem toda classe de ciências; quanto aos preguiçosos, ao serem nela iniciados e treinados, ainda que lhes não traga outra utilidade, ao menos estimula neles a agudeza de compreensão [118]. É a máxima dificuldade que as matemáticas oferecem a quem as estuda que as qualifica como meio de cultura apto para a seleção espiritual.

Além da aritmética e da geometria, o ramo principal da cultura sofística abarcava ainda a Astronomia e a música: essas quatro disciplinas haviam mais tarde de se agrupar sob o nome de quadrivium [119]. Não se vê bem se Platão as recebeu, como unidade, da tradição sofística ou de outras fontes. Na República, ao passar da Astronomia à música, cita os pitagóricos como representantes da concepção segundo a qual a astronomia e a música são ciências gêmeas [120]. Isso nos faz suspeitar que a união dessas duas disciplinas com a aritmética e a geometria tinha também origem pitagórica ou era habitual entre os pitagóricos. Problema diverso é o de saber se há razões para ir mais longe e atribuir à escola pitagórica agrupada em torno de Arquitas a origem de todas as ciências verdadeiramente exatas conhecidas dos gregos; o que é provável é não existirem tais razões, embora essa escola tenha com certeza imprimido um impulso fundamental ao desenvolvimento das máthemata e seja provável também que Platão tenha mantido com ela estreitas relações [121]. As suas manifestações a respeito da razão de ser dos estudos matemáticos dentro do âmbito da sua paideía filosófica tornam muito plausíveis as suas relações com os pitagóricos, pois os cita como a principal autoridade nesse ramo do saber. Critica-os, no entanto, por outro lado por se aferrarem ao sensível e não se elevarem até ao pensar puro [121a]. Os pitagóricos são também especialistas na matéria e, nesse sentido, por mais que lhes deva, tem de ser ele próprio a pôr em relevo o ponto de vista que julga decisivo. Assim o afirma expressamente ao tratar da música, pela qual não se deve entender o ensino puro e simples da música, mas sim a teoria da harmonia. Os pitagóricos medem as harmonias e os tons audíveis entre si e buscam neles o número [122], mas a sua missão termina onde começam os “problemas” [123] cuja investigação o nosso filósofo considera a verdadeira meta da sua cultura e que põe igualmente em relevo, ao tratar da geometria e da Astronomia [124]. Refere-se à formulação de problemas que levam diretamente às coisas em si, ao ser incorpóreo. Os pitagóricos não se preocupam com saber que números são harmônicos e quais não são, e por que razões sucede uma e outra coisa [125]. Não investigam, como Platão exige, por ver nisso algo de novo, a afinidade mútua existente entre todos os objetos das matemáticas, nem se elevam ao que em todos eles é comum [126], mas elaboram separadamente cada uma das suas observações sobre os números, as linhas e as superfícies, sobre os fenômenos celestes visíveis e sobre os tons e consonâncias audíveis. Por conseguinte, devia ser também a astronomia pitagórica que Platão tinha em mente ao lhes fazer ver que era difícil acreditar que os fenômenos celestes fossem eternos e se processassem sempre em obediência às mesmas leis, a supor-se que se tratava apenas de movimentos de grandezas puramente físicas e visíveis [127]. Por trás dessas alusões críticas, em que a exposição positiva da doutrina platônica se deixa para ser tratada em obra especial, oculta-se a conclusão que conhecemos pelo Timeu e pelas Leis, segundo a qual a regularidade matemática dos fenômenos celestes pressupõe a existência de agentes dotados de consciência racional [128]. O expositor da paideía não entra, porém, nesses detalhes científicos; atém-se pura e simplesmente ao aspecto formal da sua própria filosofia [129].

Platão não depara com dificuldades para atribuir a Sócrates todos esses conhecimentos especiais, que sugere mais do que desenvolve. Sócrates aparece sempre como o homem que tudo sabe, seja qual for o ponto que se focalize, e, embora só lhe interesse o que ele considera fundamental, quando a ocasião se apresenta, revela um domínio assombroso em campos de conhecimento que, parece, deveriam ser-lhe estranhos. Esse traço dependeria necessariamente de alguma razão histórica; por outro lado, se algo de certo existe, é que era perfeitamente estranho ao Sócrates real a apreciação das matemáticas e das suas disciplinas, tais como vemos aqui fundamentadas por Platão, como o caminho para o conhecimento do Bem. Nesse ponto, temos de controlar muito bem a liberdade soberana com que nos seus diálogos Platão faz de Sócrates o advogado dos seus próprios pensamentos. Num visível remoque contra a exposição anti-histórica de Platão, Xenofonte afirma que, ainda que Sócrates entendesse qualquer coisa de matemáticas, só lhes reconhecia valor educativo dentro de limites muito estreitos, a saber: na medida em que delas se pudesse tirar alguma utilidade prática [130]. É exatamente o contrário da concepção platônica. O seu repúdio consciente por parte de Xenofonte leva-nos com segurança à conclusão de que nesse ponto é o seu e não o de Platão o testemunho de peso. O Sócrates histórico não teria repreendido severamente o seu interlocutor, como o Sócrates platônico, ao ouvi-lo justificar o valor da Astronomia pela sua utilidade para a agricultura, para a navegação e para a arte de guerra [131]. A paideía de Platão reflete aqui a enorme importância que para ele tiveram as matemáticas, até mesmo no que se refere à elaboração teórica dos pensamentos socráticos. É por isso que ele considera suspeito todo raciocínio utilitário, embora ele próprio sublinhe que as matemáticas são indispensáveis para o estratego. O olhar para o alto em que a Astronomia estudada matematicamente educa a alma é perfeitamente diverso de voltar os olhos para o céu, como fazem os astrônomos profissionais [132]. A parte da alma onde as matemáticas cultivadas em sentido platônico acendem a chama pura é mais importante que dez mil olhos [133].

Quanto ao resto, Platão não segue a tradição que só admite as quatro disciplinas matemáticas apontadas, mas introduz no ensino, como ele próprio nos diz, uma ciência matemática totalmente nova: a estereometria [134]. Colocar a Astronomia depois da geometria devia ser algo já estabelecido na sua época. Platão menciona-a como evidentemente situada em terceiro lugar e começa a tratar dela [135]; mas logo se corrige e opta por atribuir esse lugar à ciência das grandezas espaciais, uma vez que esta deve vir, logicamente, depois da geometria, ou seja, da ciência das linhas e das superfícies, e antes da Astronomia, que também trata das grandezas espaciais, mas concretamente das que são dotadas de movimento [136]. A introdução da estereometria constitui uma surpresa e permite a Platão variar um pouco essa parte do seu estudo. A influência da prática de ensino na Academia transparece aqui, indubitavelmente. A tradição da história das matemáticas, que data da baixa Antiguidade e sobe até a obra fundamental de Eudemo, discípulo de Aristóteles, considera autor da estereometria o notável matemático Teeteto de Atenas, em memória do qual Platão escreveu, poucos anos depois da República, o diálogo que tem o seu nome [137]. Segundo hoje se acredita, morreu no ano de 369, em consequência de uma epidemia de disenteria, quando se encontrava no exército [138]. O conteúdo do último livro (o XIII, dedicado à estereometria) dos Elementos de Euclides, a obra fundamental e imorredoura das matemáticas gregas, a qual apareceu uma só geração depois, devia ter essencialmente como base as descobertas de Teeteto [139]. Esse matemático era figura conhecida na Academia, como prova a imagem do sábio amável que Platão pinta com tanta simpatia no Teeteto; é indubitável que é à influência pessoal do pai da estereometria que se deve atribuir o fato de Platão ainda em vida daquele atribuir a essa ciência um lugar tão honroso, na República.

Para podermos compreender a paideía platônica, é de fundamental importância estarmos em condições de apreciar, em face de um ponto tão importante como este, a atualidade científica que para o próprio Platão gozavam os preceitos estabelecidos na República para estruturação da cultura filosófica. Como nos encontramos separados por mais de dois mil anos da época em que as matemáticas gregas receberam de Euclides a forma científica consagrada como clássica, a qual ainda hoje se conserva em vigor dentro dos limites então traçados, não se torna fácil para nós retroceder até a situação espiritual em que essa forma se encontrava ainda em gestação ou tendia a consumar-se. Se levarmos em conta que foi obra de poucas gerações, compreenderemos como o labor concentrado de um punhado de investigadores geniais, empenhados em impulsionar o seu progresso, criou uma atmosfera de confiança, mais ainda, de certeza na vitória, a qual, num ambiente platônico de estímulos espirituais como o da Atenas do século IV, tinha por força de imprimir um impulso extraordinário ao pensamento filosófico. A Filosofia via diante dos seus olhos uma ideia de saber de uma exatidão e perfeição da prova e da construção lógica como o mundo não sonhara sequer nos dias dos filósofos pré-socráticos da natureza. A atenção que precisamente o aspecto metódico dos problemas despertava por aquela época nos círculos matemáticos fazia que esse modelo tivesse um interesse inestimável para a nova ciência da dialética, elaborada por Platão com base nos diálogos socráticos sobre a virtude. Nem a filosofia platônica nem nenhuma outra grande filosofia poderia ser concebida sem a influência fecundante dos novos problemas levantados e das novas soluções apresentadas pela ciência daquele tempo. Ao lado da Medicina, cuja influência podemos constantemente verificar, foram principalmente as matemáticas que a impulsionaram. E, se a Medicina forneceu a analogia entre a héxis do corpo e a da alma e, como corolário dela, a fecundidade do conceito médico de tékhne para a ciência da saúde do espírito, as matemáticas deram impulso principalmente às operações realizadas com objetos puramente noéticos, como eram as ideias platônicas. E, graças aos seus novos conhecimentos lógicos, Platão estava por sua vez em condições de impulsionar, com a maior intensidade, a edificação sistemática da ciência, estabelecendo-se assim uma relação de intercâmbio, como assinala a tradição [140].

Teeteto só relativamente tarde veio a ganhar importância para Platão. Quando morreu, no ano de 369, era ainda um homem na força da idade; portanto, as suas descobertas deviam ser ainda muito recentes, quando alguns anos antes da República Platão as aproveitou [141]. O mais antigo contato de Platão com as matemáticas deve ter sido anterior às suas relações com os pitagóricos, uma vez que diálogos como o Protágoras e o Górgias, os quais revelam já um nítido interesse pelas matemáticas, foram escritos antes da primeira viagem do filósofo à Sicília. A Atenas daquele tempo devia oferecer nesse campo bastante elementos de cultura [142]. Infelizmente não podemos seguir hoje a linha que une Platão a Cirene, pois nem sequer há a certeza de ele ter realmente empreendido a sua viagem ali, depois da morte de Sócrates [143]. Quando mais tarde escreveu o Teeteto, Platão contrapôs essa figura, considerada representante da nova geração de matemáticos sensível à formulação filosófica do problema, à figura consideravelmente mais antiga de Teodoro de Cirene, que era um investigador famoso, mas sem interesse ainda por problemas desse tipo. Isso parece pressupor a existência de certas relações pessoais com Teodoro [144]. A viagem por ele empreendida ao sul da Itália, no ano de 388, pôs Platão em contato com os pitagóricos daqueles lugares e, entre eles, talvez com o matemático e estadista Arquitas de Tarento, o principal representante da ciência pitagórica, junto do qual permaneceu longo tempo e com o qual firmou uma amizade que durou toda a vida [145]. Foi ele o modelo vivo para a educação matemática dos governantes de Platão. A frase de Aristóteles, curiosa para nós, de que os métodos de investigação e ensino de Platão seguiam essencialmente os pitagóricos, embora tivessem características próprias também, devia forçosamente referir-se sobretudo ao aspecto matemático do ensino, o qual nos nossos diálogos aparece relegado para segundo plano, mas que na Academia ocupava o primeiro lugar [146]. Há um dado da antiga biografia de Aristóteles que afirma ter ele cursado a escola de Platão “sob Eudoxo”; desse dado concluímos que houve um estreito contato da Academia com o grande matemático desse nome e com a sua escola; esse contato transparece por todas as vias na nossa tradição e nas relações pessoais de Aristóteles com ele, referidas na Ética, e as quais remontam a uma longa permanência de Eudoxo na escola platônica, cuja data se poderia fixar com precisão no ano em que Aristóteles entrou para a Academia (ano 367) [147]. A aliança da Academia com a escola de Eudoxo, cuja sede estava em Cízico, manteve-se até a geração seguinte [148] e é expressão visível da participação muito ativa que a escola platônica teve no progresso da ciência matemática. O secretário e auxiliar mais chegado a Platão nos seus últimos anos foi Filipe de Opunte, a quem já tivemos ocasião de nos referir como editor da obra póstuma de Platão, as Leis, figura famosa na Antiguidade como matemático e astrônomo, e autor de numerosas obras [149]. Ao que parece, era nessas matérias uma autoridade fundamental da Escola, juntamente com acadêmicos como Hermodoro e Heráclides. Enquanto Heráclides se dedicava de preferência às especulações astronômicas, Filipe era o tipo do investigador exato, embora nas Epínomis tratasse a Astronomia, tal como todos os demais platônicos, como base da Teologia.

Esses fatos indicam-nos insistentemente que nunca devemos perder de vista que o que se desdobra perante os nossos olhos nas obras literárias de Platão é apenas a fachada do edifício científico e das atividades docentes da Academia, cuja estrutura interna ele esboça. Os preceitos da República sobre o ensino das matemáticas não fazem senão refletir a posição que dentro da Academia essa ciência ocupava nos planos de formação filosófica. Sob esse ponto de vista, Platão não estabelece uma distinção nítida entre investigação e educação. A extensão desse campo, suscetível ainda de ser abarcada pelo olhar, permite-lhe exigir pura e simplesmente para sua cultura dos governantes o estudo da totalidade da matéria [150], sem fazer uma seleção e dando ainda as boas-vindas, como ampliação do programa, a disciplinas novas do tipo da estereometria. Compreende-se que outras escolas concebessem distintamente a paideía do estadista. Aqueles que, como Isócrates, se colocavam num ponto de vista fundamentalmente prático e julgavam que a meta dessa paideía era a retórica, tinham forçosamente que considerar exagerado o alto apreço de Platão pela exatidão do saber matemático como fator de educação política, fazendo, ao contrário, força na experiência [151]. O fato de as críticas dirigidas a Platão versarem precisamente sobre a hipertrofia das matemáticas prova que era nestas que se via a pedra angular do seu sistema de cultura.

Nessa fase superior, como aliás na fase da cultura dos “guardiões”, não é da mera teoria que a paideía platônica dimana. Da mesma forma que ali recolhe para substância da sua paideía todo o amontoado da cultura histórica, que era para ele a cultura grega, sob a forma da poesia e da música do seu povo, propondo-se apenas a missão de a depurar e de sujeitá-la ao seu fim supremo, assim guia aqui a corrente da ciência viva da sua época para o leito da sua paideía filosófica e preocupa-se apenas com descobrir o que conduz à sua meta filosófica e encaminhá-lo diretamente para ela. Isso nos coloca o problema de saber qual era a atitude de Platão em face das outras ciências que o seu programa não considera. O moderno conceito da ciência, que traça a esta limites tão vastos como aqueles que a experiência humana pode alcançar, faz com que a hegemonia exclusiva das matemáticas na paideía platônica nos pareça, se bem que grandiosa, unilateral; isso nos inclina, talvez, a vermos também nesse fenômeno o efeito da supremacia temporal das matemáticas da sua época. Todavia, por mais que a consciência do progresso que irradiava dos seus grandes descobridores houvesse necessariamente de contribuir para a posição de predomínio que as matemáticas desfrutavam na Academia, a verdadeira razão disso deve ser buscada, em última instância, no caráter da própria filosofia platônica e no seu conceito do saber, que excluía da cultura os ramos puramente empíricos do saber. As tentativas de “erudição” dos sofistas não tiveram prosseguimento na escola de Platão. O fato de depararmos, nos fragmentos conservados da comédia ática daquele tempo, com motejos às intermináveis disputas sustentadas por Platão e seus discípulos em torno da determinação do conceito das plantas e dos animais, e sua divisão, não contradiz em nada a imagem projetada diretamente pelos diálogos platônicos. O comediógrafo Epícrates, cujo talento ilumina com luz crua os mistérios do ensino esotérico da Academia, aborda certeiramente na sua narração, por mais exagerada que a consideremos, um ponto decisivo: é que os filósofos percebem muito pouco das plantas, e a sua cultura nesse campo revela, ao fazerem tentativas de classificação, lacunas que provocam o riso do auditório [152]. Um famoso médico siciliano, e como tal representante do saber empírico, que por casualidade assiste à função, como hóspede de honra, manifesta de modo pouco correto como esse tipo de “naturalistas incultos” merece o aborrecimento que essas tentativas lhe causam. Tomando como base os dados zoológicos e botânicos dessas investigações, conclui-se sem nenhum fundamento que o ensino ministrado na Academia devia ser consideravelmente diverso do que se descreve na República [153], e de que lá se devia conceder maior importância ao saber empírico. É certo que esse tipo de investigação sobre a classificação dos animais e das plantas não podia prosseguir, desligado de toda a base experimental, principalmente se era para ser completo e sistemático; o seu objetivo, porém, não era reunir todos os dados empíricos sobre as diversas espécies, mas antes distingui-las umas das outras e ordená-1as corretamente dentro do grande sistema da diérese conceptual de “todo o existente”, como plasticamente o fazem os diálogos posteriores de Platão sobre outros objetos. O verdadeiro objetivo desses esboços projetados sobre os objetos era a dialética. E, se a exposição feita na República não nos deixa a mesma impressão quanto ao método de ensino, isso deve-se exclusivamente à forma sumária pela qual Platão caracteriza aqui as distintas fases da sua paideía. E isso nós já pusemos em relevo repetidas vezes. Dentro do programa cultural da República, é na segunda parte, que se segue à matemática e trata da dialética, que se devem incluir as classificações das plantas e dos animais referidas por Epícrates.


Notas:

[107]. Rep., 521 E-522 A.

[108]. Rep., 522 B.

[109]. Rep., 522 C-D.

[110]. Rep., 522 E 1-3.

[111]. Por isso as matemáticas convertem-se na ciência predileta dos estrategos e dos reis da época helenística. Sobre Antígono e Demétrio Poliorcetes, cf. o meu livro Diokles von Karystos, pp. 81-2. Cf. também, sobre o ponto de vista militar, Rep., 525 B-C.

[112]. Rep., 522 E 4.

[113] Rep., 523 A: ἐλτικὸν πρὸς οὐσίανv.

[114] Cf., acima, pp. 357 ss. 

[114a] Diz-nos a tradição que Platão levou a sério este problema quando lhe pediram que educasse o tirano Dionísio II para governar segundo as suas concepções. PLUTARCO, Díon, c. 13, informa que o príncipe e toda a corte dedicaram-se durante certo tempo ao estudo das matemáticas e que o ar ficava cheio do pó que a multidão levantava ao traçar as figuras geométricas no chão.

[115] Rep., 527 A.

[116] Cf. Rep., 523 A 2; A 6; B 1; D 8; 524 B 4; D 2; D 5; E 1; 525 A 1; 526 B 2; 527 B 9.

[117] Rep., 525 C: ἀνθάπτεσθαι αὐτῆς µὴ ἰδιωτικῶς.

[118] Rep., 526 B.

[119] Cf., acima, pp. 354-7. Também em Teeteto, 145 A, enumeram-se essas quatro matérias como pertencentes à paideía, nas quais o jovem Teeteto se iniciava em Atenas por volta do ano 400.

[120] Rep., 530 D 8.

[121] Erich FRANK, no livro Plato und die sogenannten Pythagoreer (Hale, 1923) é o que vai mais longe na atribuição das ciências exatas da Grécia aos pitagóricos. W. A. HEIDEL, “The Pythagoreans and Greek Mathematics”, em American Journal of Philology, 61 (1940), pp. 1-33, traça o desenvolvimento dos estudos matemáticos na Grécia mais primitiva, tanto quanto lhe permitem as provas que existem, em círculos não pitagóricos, especialmente na Jônia.

[121a] Rep., 531 A 5, cf. 530 D 6.

[122] Rep., 531 A 1-3, 531 C.

[123] Rep., 531 C.

[124] Rep., 530 B 3.

[125] Rep., 531 C 3.

[126] Rep., 531 D. Sobre esse programa de uma análise filosófica das ciências matemáticas e sobre o modo como se pôs em prática na Academia, cf. F. SOLMSEN, “Die Entwiklung der aristotelischen Logik und Rhetorik” (em Neue Philol. Unters., editados por W. Jaeger, vol. IV), pp. 251 s.

[127] Rep., 530 B.

[128] Timeu, 34 C-38 C; Leis, 898 D-889 B. Cf. Epin., 981 E ss.

[129] Um belo exemplo desse costume de Platão de eliminar todo o aspecto técnico, que a exposição da paideía contida na República nos permite observar em todo o seu alcance, nós o temos em Timeu, 38 D. Repele-se aqui o exame pormenorizado da teoria das esferas, dizendo-se que esse método daria maior importância ao secundário (πάρεργον) que à finalidade que deve servir. De modo diferente procede ARISTÓTELES na sua Metafísica, 8, onde critica as razões que dão os astrônomos para fixar o número exato das esferas embora se equivoquem ao fazer o cálculo.

[130] XENOFONTE, Mem., IV 7, 2 ss.

[131] XENOFONTE, Mem., IV, 7, 4, o faz fundamentar o estudo da astronomia com base precisamente na sua utilidade para estas atividades.

[132] Rep., 529 A.

[133] Rep., 527 E.

[134] Rep., 528 B.

[135] Rep., 527 D.

[136] Rep., 528 A-B.

[137] SUIDAS, s. v. Θεαίτητος: Escol., em EUCL., Elem., liv. XIII (t. V, p. 654, 1-10, Heilberg). A atribuição do descobrimento dos cinco poliedros regulares a Pitágoras por Proclo (no índice geométrico) é lendária, como o provaram de modo irrefutável as recentes investigações de G. Junge, H. Vogt e E. Sachs.

[138] Cf. EVA SACHS, De Theaeteto Atheniensi mathematico (tese de doutoramento pela Universidade de Berlim, 1914), pp. 18 ss.

[139] Sobre o Teeteto como fonte do livro XIII dos Elementos de Euclides, cf. Eva SACHS, “Die fünf platonischen Körper” (em Philologische Untersuchungen, ed. por Kiessling e Wilamowitz, t. XXIV), p. 112, e T. L. HEATH, A Manual of Greek Mathematics (Oxford, 1931), p. 134.

[140] Cf. F. SOLMSEN, “Die Entwiklung der aristotelischen Logik und Rhetorik”, loc. cit., pp. 109 s.

[141] Segundo a cronologia geralmente aceita, a República foi escrita entre 380 e 370.

[142] Assim o pressupõe Platão em Teeteto, 143 E ss., acertadamente do ponto de vista histórico, se bem que o encontro de Teeteto com Sócrates não tenha certamente passado de uma ficção literária de Platão para atingir os fins que tinha em vista no diálogo, como aconteceu no de Sócrates com Parmênides e Zenão, no Parmênides.

[143] DIÓGENES LAÉRCIO, III, 6.

[144] É certamente sobre esta conclusão que assenta a “tradição” da viagem de Platão a Cirene, depois da morte de Sócrates, para visitar Teodoro (cf. nota 143).

[145] Segundo a Carta VII, 338 C, Platão, na sua segunda viagem ao sul da Itália (ano de 368), estabeleceu uma certa hospitalidade entre Arquitas e Dionísio, o tirano; por isso, ambos gerem conjuntamente a sua terceira viagem. Segundo PLUTARCO, Díon., c. II, os pitagóricos e Díon foram já um fator essencial na segunda viagem de Platão, coisa que este não menciona. Isso poderia levar a pensar que a tradição assenta numa reduplicação errônea do que aconteceu na terceira viagem; porém quem Platão ia visitar na primeira viagem à Italia, antes de ir a Siracusa (no ano de 388), senão os pitagóricos? É certo que DIÓGENES LAÉRCIO, III, 6, que dá informações sobre o caso, só menciona Filolau e Eurito, mas não Arquitas, como motivo da primeira viagem.

[146] ARISTÓTELES, Metaf., A 6.

[147] Cf. a minha obra Aristóteles, pp. 19 s.

[148] Encontramos Aristóteles, discípulo de Platão, em relações científicas com o astrônomo Calipo, discípulo de Eudoxo: Metaf., 8, 1073 b 32, 537 C.

[149] Cf. SUIDAS, s. v. ϕιλόσοϕος.

[150] Rep., 525 C.

[151] Cf., adiante, livro IV, o cap. “Isócrates defende a sua paideía”.

[152] EPÍCRATES, frag. 287 (Kock).

[153] Cf. acerca desse assunto o meu estudo Diokles von Karystos, p. 178. 

***

Leia mais em Paideia de Werner Jaeger

Leia mais em Prática x Teórica: Educação Isocrática e Educação Platônica



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