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Trecho retirado do livro X das Confissões, de Santo Agostinho, traduzido por Maria Luiza Jardim Amarante, Editora Paulus, 2002.
8. Maravilhas da memória
12 Ultrapassarei então essas minhas energias naturais, subindo passo a passo até aquele que me criou. Chegarei assim ao campo e aos vastos palácios da memória, onde se encontram os inúmeros tesouros de imagens de todos os gêneros, trazidas pela percepção. Aí é também depositada toda a atividade de nossa mente, que aumenta, diminui ou transforma, de modos diversos, o que os sentidos atingiram, e também tudo o que foi guardado e ainda não foi absorvido e sepultado no esquecimento. Quando aí me encontro, posso convocar as imagens que quero. Algumas se apresentam imediatamente; outras fazem-se esperar por mais tempo e parecem ser arrancadas de repositórios mais recônditos. Irrompem as outras em turbilhão no lugar daquela que procuro, pondo-se em evidência, como que a dizerem: “Não somos nós talvez o que procuras”? Afasto-as da memória com a mão do meu espírito; emerge então aquela que eu queria, surgindo das sombras. Outras sobrevêm dóceis em grupos ordenados, à medida que as conclamo, uma após outra, as primeiras cedendo lugar às seguintes, e desaparecendo para reaparecer quando quero. Eis o que sucede quando falo de memória.
13 Aí se observam, distintas pelo gênero as idéias que foram introduzidas, cada uma por sua via de acesso: assim a luz, as cores e as formas dos corpos, através dos olhos, os diversos tipos de som, através dos ouvidos, os vários odores, através do nariz; os sabores, pela boca e através da sensibilidade de todo o corpo, o que é duro ou mole, quente ou frio, liso ou áspero, pesado ou leve, e todas as sensações externas e internas. A memória armazena tudo isso nos seus amplos recessos e em seus esconderijos secretos e inacessíveis, para ser reencontrado e chamado no momento oportuno. Todas entram, cada uma por sua porta, e em ordem se alojam. Não são os próprios objetos que entram, mas as suas imagens pelos sentidos, e que aí ficam à disposição do pensamento, até que este se lembre de chamá-las. Quem poderá explicar como se formaram tais imagens, embora se conheçam os sentidos que as captam e as colocam em nosso íntimo? Mesmo quando me encontro nas trevas e no silêncio, posso representar na memória, se quiser, as cores, e distinguir o branco do preto e todas as outras cores entre si. E não sucede que as imagens recebidas pelos olhos sejam perturbadas pelos sons, estes embora presentes, estão como em lugar à parte. Mas se decido chamá-los, apresentam-se imediatamente, enquanto eu, sem abrir a boca, canto em silêncio o tempo que quiser. E as imagens das cores, presentes também estas na memória, não interferem nem perturbam enquanto me sirvo deste outro tesouro que penetra pelos ouvidos. Assim, posso recordar, conforme me agrada, todas as outras coisas que são introduzidas e acumuladas pelos outros sentidos. Sem nada cheirar, distingo o perfume dos lírios do perfume das violetas, e sem nada provar nem tocar, mas apenas de memória, prefiro o mel ao mosto cozido, o macio ao áspero.
14 Realizo interiormente todas essas ações, no grande palácio da memória. Encontram-se aí, à minha disposição, céu, terra e mar, com aquilo tudo que neles colher com os sentidos, excetuando-se apenas o que esqueci. É aí que me encontro a mim mesmo, e recordo as ações que realizei, quando, onde e sob que sentimentos as pratiquei. Aí estão também todos os conhecimentos que recordo, seja por experiência própria ou pelo testemunho alheio. Dessa riqueza de idéias me vem a possibilidade de confrontar muitas outras realidades, quer experimentadas pessoalmente, quer aceitas pelo testemunho dos outros; posso ligá-las aos acontecimentos do passado, deles inferindo ações, fatos e esperanças para o futuro, e, sempre pensando em todas como estando presentes, “farei isto ou aquilo”, digo de mim para mim no imenso interior de minha alma repleto de tantas imagens. “E acontecerá isto ou aquilo”. “Oh, se acontecesse isso ou aquilo! Deus nos livre disso ou daquilo!” Assim falo comigo mesmo e, enquanto falo, eis que se tornam presentes, retiradas do tesouro da memória, imagens de tudo o que nomeei; se me faltassem, de nenhuma eu poderia falar.
15 É grande realmente o poder da memória, bem grande, ó meu Deus. É um santuário imenso, ilimitado. Quem poderá atingir-lhe a profundeza? E essa força pertence ao meu espírito, faz parte de minha natureza; e na realidade não chego a apreender tudo o que sou. Mas então o espírito é limitado demais para compreender-se a si mesmo? E onde está aquilo que não apreende de si mesmo? Estará então fora de si mesmo, e não dentro? Então por que não se compreende? Isso muito me admira e me espanta. Os homens vão admirar os cumes das montanhas, as ondas do mar, as largas correntes dos rios, o oceano, o movimento dos astros, e deixam de lado a si mesmos, e não se admiram do fato de eu falar de todas essas coisas sem vê-las com os próprios olhos; mas eu não poderia mencionar tais coisas, se não as visse, na memória, em toda a sua imensidão, como se tivesse diante de mim as montanhas, as ondas, os rios e os astros, que vi pessoalmente, e o oceano, no qual acredito. No entanto, quando os vi com os olhos, não os absorvi; são as imagens deles que em mim residem, e não eles próprios. E sei através de qual sentido do corpo me foi impressa cada imagem.
9. A memória é a sede de todas as noções apreendidas
16 No entanto, não acabam aqui as imensas possibilidades de minha memória. Encontram-se também nela as noções apreendidas pelo ensinamento das ciências liberais e que ainda não esqueci. Encontram-se como que escondidas em lugar muito recôndito, que não é lugar. E não são apenas as imagens, são as próprias realidades que carrego. As noções de literatura, de dialética, as diferentes espécies de problemas existentes, todos os conhecimentos que tenho a respeito, também existem na minha memória, mas não como simples imagem por ela retida como exclusão da realidade, nem como som agora dissipado, como voz que se fixa nos ouvidos através da impressão que permite ser lembrada como se ainda soasse, embora já não soe; ou como perfume que, ao passar e desvanecer-se nos ares, toca o olfato e transmite seus traços à memória que os reproduz com a lembrança; nem como alimento, que no estômago já não tem sabor e, todavia, através da lembrança, quase se saboreia; nem como acontece a qualquer objeto que o corpo percebe pelo tato e, quando afastado, é ainda guardado na memória. De fato, todas essas realidades não se introduzem na memória. São apenas imagens colhidas com extraordinária rapidez, dispostas como em compartimentos, de onde admiravelmente são extraídas pela lembrança.
10. Aquisição das noções pela memória
17 Ouço dizer que para cada coisa existem três tipos de problemas: a existência, a natureza e os atributos. Ao ouvir isso, retenho a imagem dos sons que compõem essas palavras, e sei que tais sons atravessaram o ar ressoando e agora não mais existem. Todavia, as coisas que esses sons significam não as percebi por nenhum sentido corporal, nem em lugar algum as vi a não ser no meu espírito. Depositei na memória não suas imagens, mas as próprias substâncias. Poderão elas ser capazes de dizer por onde passaram para entrar dentro de mim ? Certamente não. Percorro todas as entradas da minha carne e não encontro uma por onde tenham podido passar. Dizem os olhos: “Se são coloridas, fomos nós que as transmitimos”. Os ouvidos replicam: “Se emitiram sons, foram por nós comunicadas”. As narinas afirmam: “Se têm cheiro, foi por nós que passaram”. E o sentido do gosto: “Se não há sabor, nada me perguntem”. Diz o tato: “Se não é um ser corpóreo, não o pude tocar, e se não o toquei, não o pude indicar”. E então, de onde e por onde entraram na minha memória? Ignoro-o, porque, quando as aprendi, não foi por testemunho de outros, mas reconhecias existentes em mim, admitindo-as como verdadeiras, e entreguei-as ao meu espírito, como quem as deposita, para depois retirá-las quando quisesse. Estavam aí, portanto, mesmo antes de as aprender, mas não estavam na minha memória. Onde estavam então? Foi assim que eu as reconheci? Ao ouvir falar delas, eu disse: “É isso mesmo, é verdade”! Não estariam já na memória, mas tão escondidas e retiradas, como que nos mais profundos recessos, de tal modo que eu não poderia talvez pensar nelas, se alguém não me advertisse para arrancá-las?
11. Significado do verbo “cogitar”
18 Descobrimos assim que aprender as coisas — cujas imagens não atingimos pelos sentidos, mas que contemplamos interiormente sem imagens, tais como são em si mesmas — significa duas coisas: colher pelo pensamento o que a memória já continha esparsa e desordenadamente, e obrigá-lo pela reflexão a estar como que à mão, em vez de se ocultar na desordem e no abandono, de modo a se apresentar sem dificuldade à nossa reflexão. Quantas noções desse gênero contém a minha memória, noções já encontradas e, segundo a expressão usada anteriormente, como que à mão, e neste caso dizem que as aprendemos e conhecemos. Se, porém, deixamos de evocá-las, ainda que por pequeno espaço de tempo, elas de novo mergulham e se dispersam em remotos recessos. Então, é preciso que o pensamento as descubra, como se fossem novas, e as extraia (pois não têm outra habitação), e novamente as reúna, para que seja possível conhecê-las, como que juntando-as depois de dispersas. Dessa operação deriva o verbo cogitar, estando cogo para cogito, como ago está para agito, facio para factito [1]. No entanto, a palavra cogito tornou-se exclusiva do espírito, de modo que agora cogitar significa a ação de colher, mas somente no espírito, e não alhures.
12. A memória dos números
19 A memória contém ainda todas as relações e inumeráveis regras da aritmética e da geometria, que não foram impressas por nenhum sentido do corpo, uma vez que elas não têm cor, nem som, nem cheiro, nem gosto, nem podem ser tocadas. Ouço, de fato, os sons das palavras enunciadas, quando delas se fala, mas as palavras não são o mesmo que as coisas: as primeiras têm som diferente conforme sejam gregas ou latinas, enquanto as coisas não pertencem nem ao grego, nem ao latim, nem a outra língua. Vi linhas traçadas por artesão, delgadas como teias de aranha. Todavia, são diferentes das representações vistas com os olhos da carne; as linhas geométricas, cada um as conhece representando-as interiormente, sem pensar em nenhum objeto material. Cheguei também, através de todos os sentidos do corpo, ao conhecimento dos números. No entanto, os números com que calculamos são outra coisa. Nem ao menos são a imagem dos primeiros; são porém mais reais, porque têm a existência em si. Ria-se de mim quem não consegue compreender o que digo, e eu terei compaixão do seu riso.
13. “Lembro-me de ter lembrado…”
20 Conservo tudo isso na memória, como também o modo pelo qual aprendi. Retenho igualmente na memória muitos argumentos errôneos contra essas verdades. São falsos, mas não é falso o fato de lembrar-me. Lembro-me também de ter sabido, nessas discussões, discernir entre verdades e falsidades que se opunham a elas. E vejo que as distingo de um modo diferente daquele com que as distingui tantas vezes quando as considerava. Recordo-me portanto de muitas vezes ter compreendido isso. E o que agora entendo e distingo, confio à memória, para poder mais tarde lembrar-me de ter compreendido agora. Por isso, lembro-me de que me lembrei. E assim, no futuro, se eu recordar o fato de ter podido recordar agora, será pela força da memória.
14. Na memória estão também os sentimentos da alma
21 Essa mesma memória contém ainda os sentimentos da alma, não do modo como o espírito sente no momento em que os experimenta, mas de maneira diferente, de acordo com o poder da própria memória. De fato, recordo-me de ter estado alegre, ainda que não o esteja neste momento, e lembro-me das minhas tristezas passadas, sem estar agora triste. Recordo-me de ter sentido às vezes medo, sem experimentá-lo agora, e me vem à mente um antigo desejo, sem que o sinta agora. Pelo contrário, acontece-me recordar a tristeza passada num momento de alegria, num momento triste recordar uma alegria. Tratando-se do corpo, isso não deve causar espanto, pois alma e corpo são coisas diferentes. Por isso, não é de admirar que eu recorde com alegria uma dor do corpo já passada. No entanto, a memória também é espírito. De fato, quando recomendamos a alguém que grave algo na memória, dizemos: “Vê lá, grava-o bem no teu espírito”. E se nos esquecemos, dizemos: “Não conservei no espírito”; ou ainda: “Fugiu-me do espírito”, assim, chamamos justamente a memória de espírito. Sendo assim, por que será que, evocando com alegria uma tristeza passada, a alma contém a alegria, e a memória contém a tristeza? Se o espírito está alegre contendo em si a alegria, por que a memória, que também contém a tristeza, não está triste? Será que a memória não faz parte da alma? Quem ousará afirmá-lo? O fato é que a memória é, por assim dizer, o estômago da alma. A alegria e a tristeza são como alimento, que ora é doce, ora é amargo. Quando tais emoções são confiadas à memória, podem ser aí despertadas como num estômago, mas perdem o sabor. Seria ridículo querer comparar sentimentos com alimentos; no entanto, não são completamente diferentes.
22 É ainda na memória que me apoio quando afirmo que são quatro as perturbações do espírito: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza [2]. Assim, também, todos os raciocínios que eu puder fazer sobre elas, subdividindo cada uma segundo a espécie e o gênero, e dando-lhes várias definições, é ainda na memória que as encontro e de onde as extraio; mas não é pelo fato de recordá-las que fico perturbado por alguma delas. E antes que eu as recordasse e discutisse, já estavam aí. Por isso, consegui arrancá-las daí pela lembrança. Assim como a comida, pela ruminação, sai do estômago, elas saem da memória através da lembrança. Por que então aquele que raciocina, isto é, que rumina, não sente na boca do pensamento a doçura da alegria ou o amargo da tristeza? Residirá aqui a diferença dos dois fatos? Na realidade, quem gostaria de falar de tais coisas, se cada vez que falássemos da tristeza ou do temor, fôssemos obrigados a ficar tristes e temerosos? No entanto, não poderíamos falar se não encontrássemos na memória, não somente os sons das palavras segundo as imagens impressas nos sentidos, mas as próprias noções das coisas que não entraram em nós através de algum acesso do corpo. Essas noções foram confiadas à memória pelo espírito, depois de este havê-las experimentado e sentido, ou foram retidas pela memória sem que ninguém as tivesse confiado a ela.
15. Lembrança através da imagem?
23 É difícil dizer se recordamos através da imagem, ou não. Nomeio a pedra e nomeio também o sol, e estes por si não estão presentes nos meus sentidos, enquanto suas imagens estão à disposição da minha memória. Evoco uma dor física, e não a sinto, porque nada me dói. No entanto, se a imagem da dor não me estivesse presente na memória, não saberia o que dizia e, na conversa, não a distinguiria do prazer. Pronuncio o nome da saúde física enquanto estou sadio de corpo. Neste caso, o fato em si está presente em mim. No entanto, se não tivesse sua imagem na memória, não me lembraria absolutamente do significado do som dessa palavra, nem os doentes, ao ouvirem a palavra saúde, compreenderiam do que se estivesse falando, se a imagem da saúde não se lhes conservasse na memória, apesar da realidade ausente de seus corpos. Digo os números com os quais fazemos os cálculos, e à minha memória não se apresentam as imagens, mas os próprios números. Evoco a imagem do sol, e ela se apresenta à minha memória. Neste caso, eu não recordo a imagem de uma imagem, mas a própria imagem. Ela está à disposição da minha lembrança. Nomeio a palavra memória, e reconheço o que nomeio. E onde a reconheço, senão na própria memória? Estará ela presente a si mesma pela sua imagem, e não por si própria?
16. A memória se lembra do esquecimento
24 Quando falo do esquecimento, e sei aquilo que nomeio, como poderia reconhecê-lo, se dele não me lembrasse? E não falo do som da palavra em si, mas da realidade que esta significa. Se eu a tivesse esquecido, não seria certamente capaz de reconhecer o que significa esse som. Portanto, quando me lembro da memória, é a própria memória que se apresenta a mim. Quando, pelo contrário, me lembro do esquecimento, tanto a memória como o esquecimento vêm à minha presença. A primeira é o meio pelo qual recordo; a segunda é o objeto que recordo. Mas o que é o esquecimento senão a privação da memória? E como pode estar presente, para que eu o recorde, se quando está presente não posso recordar? O que recordamos está guardado na memória, e se não nos lembrássemos do esquecimento, não poderíamos nem mesmo reconhecer o que significa esta palavra ao ser pronunciada, e isto quer dizer que a memória retém o esquecimento. Assim, a presença do esquecimento faz com que não o esqueçamos, mas, quando está presente, nos esquecemos. Será que devemos concluir daí que o esquecimento não está presente na memória quando o recordamos, mas apenas a sua imagem, pois, se ele mesmo estivesse presente, não nos faria recordar e sim esquecer? Quem conseguirá penetrar nisso? Quem compreenderá como isto sucede?
25 Senhor, eu me atormento com esse problema, um problema que está dentro de mim; para mim mesmo tornei-me terreno de difícil e cansativa lavra. Não se trata de perscrutar as regiões do céu, nem de medir as distâncias dos astros, nem de buscar o equilíbrio terrestre; sou eu que lembro; de mim é que me lembro; de mim, que sou espírito. Não é de admirar que esteja longe de mim tudo o que eu não sou. Pois, que há mais perto de mim, que eu mesmo? No entanto, nem sequer chego a compreender a faculdade da memória, sem a qual não poderia pronunciar meu próprio nome. Que deverei dizer, se estou certo de lembrar-me do esquecimento? Deveria dizer que aquilo que recordo não está na minha memória, ou que o esquecimento está na minha memória com a finalidade de me fazer esquecer? Ambas as hipóteses são absurdas. E haverá uma terceira hipótese? Poderei dizer que a minha memória conserva a imagem do esquecimento, quando dele me lembro, e não o próprio esquecimento? Como poderia dizer isso se é preciso primeiro existir o objeto do qual promana a imagem, para que se possa imprimir na memória a imagem de algum objeto? É assim que relembro Cartago, todos os lugares onde estive, o rosto das pessoas que vi; assim recordo todos os objetos assinalados pelos outros sentidos, bem como a saúde ou o sofrimento físico. Quando todos esses objetos me eram presentes, a memória captou-lhes as imagens, a fim de que mais tarde as contemplasse e repassasse no espírito, quando ausentes. Portanto, se é pela imagem e não por si mesmo que o esquecimento se grava na memória, é preciso que o esquecimento esteja presente, para que a memória lhe capte a imagem. Todavia, estando o esquecimento presente, como pode gravar a própria imagem na memória, se com sua presença apaga tudo o que lá encontra impresso? Contudo, seja como for, apesar de ser inexplicável e incompreensível, estou certo de que me lembro do esquecimento, isto é, daquilo que destrói em nós todas as lembranças.
17. A busca de Deus para além da faculdade da memória
26 Grande é o poder da memória, Senhor; tem algo de terrível, uma infinita e profunda complexidade. Mas isto é o espírito, isto sou eu próprio. Que sou eu, então, ó meu Deus? Qual a minha natureza? Uma vida variada e multiforme, imensamente ampla. Eis-me nos campos, nas cavernas e nos inumeráveis recessos da minha memória, repletos de todo gênero de objetos, presentes ou em imagens — como no caso dos corpos — ou em si mesmas, quando se trata das ciências, ou ainda através de não sei que noções e sinais, como acontece com os sentimentos da alma (a memória os conserva mesmo quando o espírito não mais os experimenta, embora tudo o que está na memória se encontre no espírito). Percorro todas essas paragens, voando por aqui e por ali, e penetro o mais longe que posso, sem encontrar limites, tão grande é a força da memória, tão grande a força da vida do homem, que, no entanto, é mortal! Que devo fazer, meu Deus, ó minha vida verdadeira? Irei além dessa faculdade que se chama memória, para chegar a ti, ó doce luz [3]. Que me dizes? Subindo, através de minha alma, a ti, que estás acima de mim, transporei também essa minha faculdade que se chama memória, no desejo de alcançar-te onde podes ser atingido e prender-me a ti onde é possível fazê-lo. Pois também os animais e os pássaros têm memória. De outro modo, não saberiam regressar a suas tocas e a seus ninhos, nem fariam outras coisas a que já estão habituados. Sem a memória não poderiam contrair hábito nenhum. Portanto, ultrapassarei a memória para atingir aquele que me fez diferente dos quadrúpedes, mais sábio que as aves do céu. Ultrapassarei a memória, para encontrar-te. Mas onde, ó bondade verdadeira e suavidade segura? Encontrar-te onde? Se te encontro fora de minha memória, é porque me esqueci de ti. E como poderei encontrar-te, se não me lembro de ti?
18. Como encontrar o objeto perdido?
27 A mulher, que havia perdido a dracma e a procurava com lanterna acesa [4], não a teria encontrado se dela não se lembrasse. Tendo-a depois achado, como saberia se era aquela, se dela não se recordasse? Lembro-me de ter perdido também muitos objetos e de tê-los procurado e encontrado. Sei disso porque me perguntavam enquanto procurava: “É isto? É aquilo”? E eu continuava a responder não, enquanto não me fosse mencionado exatamente o que eu procurava. Se não me recordasse do objeto, qualquer que ele fosse, não o teria encontrado, por não poder reconhecê-lo, mesmo que me fosse apresentado. É sempre assim que sucede, quando procuramos e encontramos alguma coisa perdida. Se um objeto — por exemplo, um corpo visível — nos desaparece dos olhos e não da memória, sua imagem conserva-se dentro de nós, e o procuramos até que novamente o vejamos. Quando o encontramos, o reconhecemos, graças à imagem interior. Não poderíamos dizer que achamos um objeto perdido, se não o reconhecêssemos. Tinha de fato desaparecido de nossa vista, mas estava conservado na memória.
19. Não se pode procurar o que está completamente esquecido
28 No entanto, quando a própria memória perde alguma coisa, como acontece quando nos esquecemos e procuramos lembrar-nos, onde afinal a procuramos senão na própria memória? E se esta, por acaso, nos apresenta uma coisa por outra, nós a rejeitamos até que nos ocorra o que procuramos. E quando tal acontece, dizemos: “É isto”. E assim não diríamos se não a reconhecêssemos, e também não a reconheceríamos se não nos lembrássemos dela. É claro que a tínhamos esquecido. Todavia, talvez não nos tivesse saído completamente da memória; talvez, por meio da parte que nos ficou impressa na memória, procurássemos a outra. De fato, a memória sentia que já não podia resolver em conjunto, como costumava fazer, e, como que mutilada em seus hábitos, ela pedia a restituição daquilo que lhe faltava. É o que sucede quando encontramos uma pessoa conhecida, ou pensamos nela, e não conseguimos lembrar seu nome. Ao ocorrer-nos outro nome, não o associamos a tal pessoa, porque não temos o costume de pensar num e noutro ao mesmo tempo. E o repelimos até que se nos apresente o nome que satisfaça plenamente à noção da pessoa à qual se associa. Mas de onde vem esse nome, senão da memória? Mesmo que sugerido por outrem, nós o reconhecemos porque vem da memória. E, de fato, não o assumimos como novo, senão como lembrança que aflora, pela qual confirmamos ser esse mesmo o nome que nos foi dito. Pelo contrário, se tivesse desaparecido completamente do espírito, nós não o reconheceríamos, nem mesmo por sugestão recebida. No entanto, não nos esquecemos completamente, porque nos lembramos de tê-lo esquecido. Se o tivéssemos esquecido completamente, não poderíamos nem ao menos procurá-lo.
20. Ao buscar Deus, procuramos a felicidade
29 Como devo procurar-te, Senhor? Quando te procuro, ó meu Deus, procuro a felicidade da vida. Procurar-te-ei, para que minha alma viva. O meu corpo, com efeito, vive da minha alma, e a alma vive de ti. Como então devo procurar a felicidade? Não a possuirei enquanto não puder dizer: “Basta, aqui está”. E aqui é preciso que eu diga como a procuro. Pela lembrança, como se a tivesse esquecido, mas ainda lembrando-me de que a esqueci? Pelo desejo de conhecer o desconhecido, como algo que jamais conheci, ou que já esqueci tão completamente, que nem sequer me lembro de tê-lo esquecido? A felicidade não é justamente aquilo que todos querem, não havendo ninguém que não a queira? Onde a conheceram para assim a desejarem? Onde a viram para amá-la tanto? Que a possuímos, é certo, mas não sei de que maneira. Há um modo de possuí-la que nos torna felizes, e há os que são felizes pela esperança de possuí-la. Estes a possuem de modo inferior aos que já são felizes pela posse real, estando, porém, em melhores condições do que os que não são felizes nem na realidade nem na esperança. No entanto, quem a espera não desejaria tanto ser feliz, se já de algum modo não possuísse a felicidade. Não sei como a conheceram e, porque a conhecem, a possuem de um modo para mim desconhecido, que me esforço por aprender. Estará na memória? Neste caso, é porque já fomos alguma vez felizes. Não procuro indagar se fomos felizes individualmente ou se o fomos naquele que primeiro pecou e no qual todos morremos [5] e do qual todos nascemos para a infelicidade. Pergunto apenas se a felicidade reside na memória. De fato, não a desejaríamos, se já não a conhecêssemos. Mal ouvimos o seu nome, confessamos desejá-la, e não é o som da palavra que nos alegra. De fato, quando um grego escuta pronunciar esse nome em latim, não se alegra, porque não entende o que foi dito. Nós, no entanto, nos alegramos como se alegraria um grupo que o ouvisse em sua própria língua. De fato, a felicidade em si não é grega nem latina, mas os gregos, os latinos e os homens de todas as línguas querem alcançá-la. Ela é conhecida por todos, e se todos pudessem ser interrogados a uma só voz — quereis ser felizes? — sem dúvida alguma responderiam que sim. O que não aconteceria se em sua memória não se conservasse a realidade que esta palavra significa.
21. O que significa recordar a felicidade
30 É ela uma recordação, como Cartago está na lembrança de quem a viu? Não. A vida feliz não se vê com os olhos, porque não é corporal. Então nos lembramos dela como quem se lembra dos números? Também não, pois, quem os conhece não procura possuí-los, ao passo que a noção de felicidade leva, não só a amá-la, mas a querer possuí-la para ser feliz. Lembramo-nos dela como quem se lembra da eloqüência? Também não, embora as pessoas não eloqüentes, ao ouvirem esta palavra, recordem a realidade que ela exprime e que muitos desejariam obter — o que mostra possuírem já alguma idéia de eloqüência. É, porém, através dos sentidos do corpo que ouviram outros oradores e, deleitando-se com isso, também desejam ser eloqüentes. É claro que não se deleitariam, se já não tivessem da eloqüência uma noção interior; e se com ela não se deleitassem, não desejariam alcançá-la. Todavia, não é pelos sentidos corporais que descobrimos a felicidade nos outros. Será que a recordamos como nos lembramos de uma alegria? Talvez sim. De fato, minhas alegrias são lembradas mesmo quando estou triste e penso na felicidade, ainda que esteja infeliz. E nunca vi, nem ouvi, nem cheirei, nem saboreei ou apalpei minha alegria, mas sempre a experimentei na alma quando me alegrei. E a idéia da alegria permaneceu-me impressa na memória, para que eu a pudesse recordar mais tarde, às vezes com desgosto, outras com saudade, conforme a diversidade das circunstâncias em que me lembro de ter estado alegre. Realmente, se me senti invadido de alegria por motivos torpes, agora detesto e abomino a lembrança deles; se por motivos bons e honestos, que agora recordo com saudade embora já não existam, evoco com tristeza a antiga alegria.
31 Onde e quando experimentei a felicidade para poder recordá-la, amá-la e desejá-la? Eu não sou o único, nem são poucos os que desejam ser felizes; mas todos sem exceção o querem. Se não conhecêssemos com precisão essa felicidade, não a desejaríamos com vontade tão firme. Que significa isso? Se perguntarmos a dois homens se querem fazer o serviço militar, pode acontecer que um responda sim e o outro diga não. Mas se lhes perguntarmos se querem ser felizes, ambos responderão imediatamente, sem hesitação, que o querem. E quando um aceita o serviço militar e o outro o rejeita, assim fazem para ser felizes. E, embora um tenha prazer numa determinada condição, e outro noutra, estarão todos de acordo em querer ser felizes, como também estariam se lhes fosse perguntado se desejam a alegria: é justamente a alegria que chamamos de felicidade. Ainda que este siga por um caminho e aquele por outro, ambos se esforçam por chegar a um só fim, que é alegrarem-se. Como ninguém pode dizer que nunca experimentou alegria, ela é encontrada na memória, e é reconhecida sempre que se ouve a palavra felicidade.
22. Só em ti se encontra a felicidade, Senhor
32 Longe de mim, Senhor, longe do coração do teu servo, que se confessa diante de ti, longe o pensamento de que uma alegria qualquer possa torná-lo feliz. Há uma alegria que não é concedida aos ímpios, mas àqueles que te servem por puro amor: essa alegria és tu mesmo. E esta é a felicidade: alegrar-nos em ti, de ti e por ti. É esta a felicidade, e não outra. Quem acredita que exista outra felicidade, persegue uma alegria que não é a verdadeira. Contudo, a sua vontade não se afasta de certa imagem de alegria.
23. Todos desejam a felicidade
33 Portanto, não podemos dizer com segurança que todos queiram ser felizes, pois aqueles que não querem alegrar-se em ti — única felicidade — certamente não querem ser felizes. Ou talvez o queiram, mas “não fazem o que desejariam, porque a carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias à carne” [6]. Chegam somente até onde podem, e se contentam com isso, porque não podem alcançar o que não desejam com a força necessária para obtê-lo. Pergunto a todos se preferem gozar da verdade ou da falsidade. E todos com firme resolução dizem preferir a verdade, como também afirmam querer ser felizes. Felicidade é gozo da verdade, o que significa gozar de ti, que és a verdade [7], “ó Deus, minha luz e salvação da minha face” [8]. Essa felicidade, essa vida que é a única feliz, todos a querem, todos querem a alegria que provém da verdade. Conheci muitos com desejo de enganar aos outros, mas não encontrei ninguém que quisesse ser enganado. Onde conheceram essa felicidade, senão onde conheceram a verdade? Se de fato não querem ser enganados, é porque amam também a verdade. E já que amam a felicidade que nada mais é que a alegria oriunda da verdade, amam certamente também a verdade. No entanto, não a amariam se dela não tivessem alguma noção na memória. Por que não se alegram nela? Por que não são felizes? Porque se empolgam demais com outras coisas, que os tornam infelizes mais facilmente do que a verdade os faria felizes, a verdade que tão debilmente eles recordam. E ainda resta um pouco de luz entre os homens; que eles prossigam, prossigam no caminho, para que a escuridão não os alcance [9].
34 No entanto, por que a verdade gera o ódio [10], e o homem que anuncia a verdade em teu nome se torna inimigo daqueles que amam a felicidade, a qual consiste exatamente na alegria oriunda da verdade? De fato, o amor da verdade é tal, que os que amam algo diferente querem que aquilo que amam seja a verdade. Como não admitem ser enganados, detestam ser convencidos do seu erro. Assim, odeiam a verdade porque amam aquilo que supõem ser a verdade. Amam-na quando ela brilha, e a odeiam quando ela os repreende. Não querendo ser enganados e desejando enganar, eles a amam quando se manifesta, e a odeiam quando os denuncia. Mas a verdade sabe retribuir: como eles não querem ser por ela revelados, ela os denunciará contra a vontade deles, e não mais se revelará a eles. Assim é o espírito humano: cego e preguiçoso, torpe e indecente; deseja permanecer escondido, mas não quer que nada lhe seja ocultado. E sucede-lhe o contrário: ele não se esconde da verdade, mas é esta que se lhe oculta. E apesar de tanta miséria, prefere encontrar alegria no que é verdadeiro, a encontrá-la no que é falso. Portanto, ele será feliz quando, sem obstáculos nem perturbações, puder gozar daquela única verdade, fonte de tudo que é verdadeiro.
24. Presença de Deus em nossa memória
35 Eis o espaço que percorri em minha memória para buscar-te, Senhor, e não te encontrei fora dela. Nada encontrei referente a ti, de que não me lembrasse desde que te conheci, porque, desde então, nunca mais me esqueci de ti. Onde encontrei a verdade, aí encontrei o meu Deus, que é a própria verdade, da qual nunca mais me esqueci, desde o dia em que a conheci. Desde então permaneces em minha memória, e aí eu te encontro, quando me lembro de ti e em ti me alegro. São essas as delícias que me deste em tua misericórdia, ao volveres teu olhar para à minha pobreza.
25. Lugar de Deus na memória
36 Onde habitas, Senhor, na minha memória? Em que recanto dela habitas? Que esconderijo aí construíste, que santuário edificaste? Deste-me a honra de habitar em minha memória, mas em que parte? É o que estou procurando. Ao recordar-me de ti, ultrapassei as regiões da memória que também os animais possuem, porque aí, entre as imagens dos seres corpóreos, eu não te encontrava. Passei às regiões onde depositei os sentimentos do espírito [11], e nem mesmo aí te encontrei. Entrei na sede da própria alma [12] — pois o espírito também se recorda de si mesmo — e nem aí estavas. Como não és imagem corpórea, e tampouco sentimento de um ser vivente como alegria, tristeza, desejo, temor, lembrança, esquecimento e outros semelhantes, assim também tu, não podes ser o próprio espírito, porque és o Senhor e Deus do espírito. E enquanto todas essas coisas são mutáveis, tu permaneces imutável acima de todas elas. E te dignaste habitar na minha memória desde que te conheci. Mas, por que procurar em que parte habitas, como se na memória houvesse vários compartimentos? É certo que nela habitas, pois recordo-me de ti desde o dia em que te conheci. E é aí que te encontro quando me lembro de ti.
Notas:
[1] A língua latina, acrescentando ao verbo uma raiz ito, exprimia assim as ações que se realizavam repetida e intensamente. Destarte, atendo-nos apenas aos exemplos do texto, cogo (de co-ago = co-agir) era equivalente a estimular ao mesmo tempo; cogito queria dizer estimular simultaneamente dentro (na mente) muitas coisas durante muito tempo, isto é, pensar; ago equivalia a estimular; agito era estimular com força e repetidamente; facio era igual a faço, e, portanto, factito equivalia a faço habitualmente.
[2] Assim ensinava, por exemplo, Cícero: cf. De finibus bonorum et malorum, 3,10; Tusculanae Disputationes 4,6.
[3] Ecl. 11,7.
[4] Cf. Lc 15,8.
[5] Cf. 1Cor 15,22.
[6] Gl 5,17.
[7] Cf. Jo 14,6.
[8] Sl 26,1; 41,6s.
[9] Cf. Jo 12,35.
[10] Terêncio, Andria a. I, sc. I, v. 68.
[11] Ver cap. 14.
[12] Ver cap. 8
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