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Lamento de um matemático, por Paul Lockhart


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Tempo de leitura: 34 minutos.

Lamento de um matemático [1]. Edição N.º 125 (2013): Cultura - Matemática - Educação (Revista temática) PARA ESTE NÚMERO SELECIONÁMOS. Publicado 2013-12-31. LINK.

Neste número incluímos um extracto de um texto de Paul Lockhart, escrito em 2002, que Keith Devlin publicou em 2007 na sua coluna mensal online do magazine da Mathematical Association of America. P. Lockhart, investigador e professor universitário na Brown University, decidira dedicar-se ao ensino básico desde o ano 2000 e neste texto exprime as suas opiniões sobre o estado actual do ensino da matemática. O texto tornou-se muito famoso, deu origem a inúmeras reacções e foi traduzido em diversas línguas. Em 2009 foi publicado um livro com o mesmo título, contendo a versão integral do presente texto e algumas sequelas.

***

Um músico acorda de um pesadelo terrível. No sonho vê-se num país em que a educação musical foi declarada obrigatória. «Estamos a ajudar os nossos alunos a tornarem-se mais competitivos num mundo cada vez mais dominado pelo som.» Educadores, escolas e o estado são chamados para este projecto de salvação nacional. São encomendados estudos, formadas comissões e tomadas decisões — tudo sem a participação de um único músico ou compositor.

Como é sabido que os músicos exprimem as suas ideias sob a forma de pautas musicais, estas estranhas rectas e pontos pretos devem tornar-se a «linguagem da música». Se pretendemos que os alunos adquiram alguma competência musical é imperativo que se tornem exímios nessa linguagem; seria sem dúvida insensato esperar que uma criança pudesse cantar uma canção ou tocar um instrumento sem ter tido uma aprendizagem prévia da notação e teoria musicais. Tocar e ouvir música, para não falar na composição de uma peça original, são considerados temas muito avançados e deixados de lado até ao ensino universitário, e mesmo até aos últimos anos da licenciatura.

Quanto ao ensino básico e secundário, têm por finalidade o treino dos alunos no uso desta linguagem — a manipulação de símbolos de acordo com um conjunto de regras fixas. «Nas aulas de música pegamos nas nossas pautas, o professor escreve algumas notas no quadro, e nós temos de copiá-las para as pautas ou transpô-las para uma clave diferente. Temos de ter cuidado em usar as claves e as tonalidades certas, além de que o nosso professor é muito picuínhas e está sempre a ver se os círculos das semínimas estão completamente preenchidos. Uma vez, deu-nos um problema sobre a escala cromática e eu resolvi-o bem, mas o professor deu-me negativa por eu ter feito as hastes das notas ao contrário.»

Na sua clarividência, os educadores chegam rapidamente à conclusão que é possível dar este tipo de formação musical a alunos mesmo muito novos. De facto, um aluno do terceiro ano que não saiba completamente de cor o seu círculo de quintas é visto como um caso chocante. «Tenho de arranjar um explicador de música para o meu filho. Não faz sequer o trabalho de casa. Diz que é aborrecido. Limita-se a ficar sentado à janela, a trautear umas melodias e a improvisar canções cómicas.»

Nos últimos anos do secundário a pressão aumenta. A verdade é que os alunos têm de estar preparados para as provas nacionais e para os exames de admissão à universidade. Têm de fazer as disciplinas Escalas e Modos, Métrica, Harmonia e Contraponto. «É muito o que têm de aprender, mas mais tarde na universidade, quando finalmente ouvi rem tudo isto, darão valor a todo o trabalho que fizeram no secundário.» Naturalmente, são poucos os alunos que seguem cursos superiores de música, e portanto apenas alguns deles ouvirão alguma vez os sons representados pelos pontos negros. É importante, porém, que todos os cidadãos sejam capazes de identificar uma modulação ou uma passagem em estilo de fuga, independentemente do facto de que nunca ouvirão nenhuma. «Para dizer a verdade, muitos alunos não são bons em música. Aborrecem-se nas aulas, as suas competências são péssimas, e os trabalhos de casa são praticamente ilegíveis. A maior parte deles não liga nada à importância que a música tem no mundo de hoje; limitam-se a fazer o mínimo de disciplinas de música e a não pensar mais nisso. Possivelmente, umas pessoas são dotadas para a música e outras não. Mas ainda me lembro de uma miúda, que era sensacional! As pautas dela eram impecáveis — todas as notas nos sítios certos, caligrafia perfeita, sustenidos, bemóis, tudo muito belo. Ainda um dia há-de ser uma música fora de série.»

Acordando alagado em suores frios, o músico compreende, aliviado, que se tratou apenas de um sonho disparatado. «Claro!» pensa aliviado, «nenhuma sociedade alguma vez reduziria uma forma de arte tão bela e valiosa a uma coisa tão trivial e vazia; nenhuma cultura poderia ser tão cruel com as suas crianças que as privasse de um modo de expressão humano tão natural e gratificante. Que absurdo!»

Entretanto, num outro extremo da cidade, um pintor acaba de acordar de um pesadelo semelhante…

Fiquei surpreendido quando percebi que estava numa sala de aula normal — nem cavaletes, nem bisnagas de tinta. «Na realidade nós não pegamos em tintas até ao ensino secundário,» explicaram-me os alunos. «No sétimo ano estudamos principalmente tintas e espátulas.» Mostraram-me uma ficha de exercícios. Num dos lados, havia amostras de tinta e espaços em branco onde os alunos deviam escrever os respectivos nomes. «Gosto de pintura,» disse-me um deles, «dizem-me o que tenho de fazer e eu faço. É fácil!»

Depois da aula falei com um dos professores. «Então os vossos alunos não pintam nada realmente?» perguntei. «Bom, no próximo ano fazem a disciplina Pré-Pintura-por-Números. Isso prepara-os para a sequência principal da Pintura-por-Números no secundário. Põem em prática o que aprenderam aqui e aplicam-no a situações reais de pintura — molhar o pincel na tinta, limpá-lo, coisas deste tipo. Está claro que vamos classificando os alunos de acordo com as suas habilidades. Os que se revelam pintores excelentes — que conhecem as tintas e os pincéis de trás para a frente — vão para a pintura a sério um pouco mais cedo e alguns deles até fazem os cursos avançados que contam para o currículo na universidade. Mas fundamentalmente o que estamos a fazer é tentar dar a estes jovens uma boa base sobre tudo que tem a ver com a pintura, e assim, quando saem daqui para o mundo real e pintam a cozinha de suas casa, não sai tudo uma desgraça.»

«Hum, aquelas disciplinas do secundário de que falou…»

«A Pintura-por-Números? Temos tido muito mais inscrições ultimamente. Julgo que isso se deve principalmente aos pais que desejam garantir que os filhos entram numa boa universidade. Nada melhor para isso do que terem na caderneta escolar do secundário Pintura Avançada-por-Números.»

«Porque é que as universidades valorizam a capacidade que eles apresentam para colorir espaços com as cores indicadas pelos números?»

«Porque isso, está a ver, revela um pensamento lógico claro. E evidentemente se um estudante tenciona frequentar um curso de ciências visuais, como moda ou decoração de interiores, então é realmente boa ideia ter já despachado as cadeiras de pintura na escola secundária.»

«Estou a ver… E quando é que os estudantes pintam livremente, numa tela em branco?»

«Até parece um dos meus professores! Estavam sempre a falar em exprimirmos a nossa personalidade e os nossos sentimentos e coisas do género — coisas abstractas bastante vanguardistas. Eu próprio tenho uma licenciatura em Pintura, mas nunca trabalhei muito com telas em branco. Uso apenas os kits de Pintura-por-Números fornecidos pela escola.»

***

Lamentavelmente, o nosso actual sistema de educação matemática é exactamente um pesadelo deste tipo. De facto, se eu tivesse que conceber um mecanismo com o objectivo declarado de destruir a curiosidade natural das crianças e o seu gosto pela construção de padrões, provavelmente não conseguiria fazer melhor do que o que hoje se faz – não teria simplesmente imaginação para inventar o tipo de ideias disparatadas e estupidificantes que constituem a educação matemática contemporânea.

Toda a gente reconhece que qualquer coisa está errada. Os políticos dizem, «precisamos de critérios de maior exigência». As escolas dizem, «precisamos de mais dinheiro e equipamento». Os educadores dizem uma coisa, e os professores dizem outra. Estão todos errados. Os únicos que compreendem o que se passa são precisamente os que são mais acusados e menos ouvidos: os alunos. Os que dizem: «as aulas de matemática são estúpidas e chatas,» e têm razão.

MATEMÁTICA E CULTURA

A primeira coisa que temos de compreender é que a matemática é uma arte. A diferença entre a matemática e as outras artes, como a música e a pintura, é que a nossa cultura não a reconhece como tal. Toda a gente compreende que os poetas, os pintores e os músicos criam obras de arte, e se exprimem através de palavras, imagens e sons. De facto, a nossa sociedade é particularmente generosa quando se trata de expressões criativas: arquitectos, chefes de cozinha, e mesmo realizadores de televisão são considerados artistas no seu trabalho. Porque não então os matemáticos?

Parte do problema é que ninguém tem a menor ideia do que fazem os matemáticos. A percepção mais vulgar parece ser a de que os matemáticos estão de certo modo associados à ciência — talvez ajudem os cientistas com as suas fórmulas, ou introduzam números importantes nos computadores por uma ou outra razão. Não há dúvida de que se o mundo tivesse de ser dividido entre «sonhadores poéticos» e «pensadores racionais» a maior parte das pessoas colocaria os matemáticos na segunda categoria.

No entanto, nada tem tanto a ver com o sonho, a poesia, não há nada tão radical, subversivo e psicadélico como a matemática. É tão apaixonante sob todos os aspectos como a cosmologia e a física (os matemáticos chegaram à noção de «buracos negros» antes de os astrónomos os terem descoberto) e permite uma maior liberdade de expressão do que a poesia, a arte ou a música (que dependem fortemente das propriedades do universo físico). A Matemática é a mais pura das artes, assim como a mais incompreendida.

Seja-me pois permitido explicar o que é a matemática, e o que fazem os matemáticos. Não há melhor maneira de começar do que com a excelente descrição de G. H. Hardy:

Um matemático, tal como um pintor ou um poeta, é um criador de padrões. Se os seus padrões são mais duradouros do que os deles, é porque são feitos de ideias.

Quer dizer que os matemáticos se entretêm a criar padrões de ideias. Que espécie de padrões? Que espécie de ideias? Ideias sobre o rinoceronte? Não, deixamos isso aos biólogos. Ideias sobre linguagem e cultura? Não, normalmente não. Essas são coisas complicadas de mais para o gosto da maior parte dos matemáticos. Se há qualquer coisa de parecido com um princípio estético unificador na matemática, então será este: o que é simples é belo. Os matemáticos gostam de pensar sobre as coisas mais simples que há, e as coisas mais simples que há são imaginárias.

Por exemplo, se estou numa de pensar em formas — o que acontece frequentemente — posso imaginar um triângulo dentro de uma caixa rectangular:



Faço conjecturas quanto à porção da caixa que o triângulo ocupa. Dois terços, talvez? O que interessa é compreender que não estou a falar deste desenho de um triângulo dentro de uma caixa. Nem estou a falar de um triângulo de metal que faz parte de um sistema de vigas de uma ponte. Não existe aqui nenhuma finalidade prática. Estou apenas a divertir-me. A matemática é isso — conjecturar, divagar, distrair-se com a sua imaginação. Quanto mais não seja, porque a questão de saber que espaço da caixa é ocupado pelo triângulo nem sequer faz sentido em relação a objectos reais, materiais. Mesmo o triângulo material feito com todo o cuidado continua a ser um conjunto complexo de átomos irrequietos; muda de tamanho a cada minuto. A não ser que queiramos falar de algum tipo de dimensões aproximadas. É aqui que intervém a estética. Não é nada simples, e consequentemente é uma questão incómoda que depende de todo o tipo de pormenores do mundo real. Deixamos isso para os cientistas. A questão matemática é sobre um triângulo imaginário dentro de uma caixa imaginária. Os lados do triângulo e do rectângulo são perfeitos porque quero que o sejam — é o tipo de objectos que prefiro para pensar. Esta é uma característica fundamental da matemática: as coisas são aquilo que queremos que sejam. Temos infinitas escolhas; não temos a realidade a atrapalhar-nos.

Por outro lado, feitas as escolhas (por exemplo, posso escolher se o triângulo é simétrico, ou não), as nossas criações seguem o seu caminho, quer nos agrade ou não. É isso que há de espantoso na construção de padrões imaginários: eles respondem-nos! O triângulo ocupa uma certa porção da caixa, e não tenho nenhum poder para decidir que porção é essa. Há ali um número qualquer, talvez seja dois terços, talvez não seja, mas não sou eu a dizê-lo. Tenho de descobrir qual é.

Assim, pômo-nos a divagar e a imaginar o que quer que seja, a fazer padrões e a colocar questões acerca deles. Mas como respondemos a essas questões? De modo nenhum como na ciência. Não posso fazer experiências com tubos de ensaio e com equipamentos ou seja lá o que for que me possam dizer a verdade sobre uma criação da minha imaginação. O único processo para atingir a verdade sobre as coisas que imaginamos é usando a imaginação, e isso é difícil.

No caso do triângulo na caixa, o que vejo é qualquer coisa de simples e bonito:



Se corto o rectângulo em duas peças como na figura, vejo que cada peça é dividida diagonalmente ao meio pelos lados do triângulo. Portanto há tanto espaço dentro como fora do triângulo. Isto significa que o triângulo deve ocupar exactamente metade da caixa!

É esse o aspecto e a sensação que uma peça de matemática oferece. Esta pequena narrativa é um exemplo da arte do matemático: formular perguntas simples e elegantes acerca das criações da nossa imaginação, e elaborar explicações satisfatórias e harmoniosas. Não há realmente nada de comparável a este mundo das ideias puras; é fascinante, é divertido e é de graça!

Mas de onde terá surgido esta minha ideia? Como sabia eu traçar aquele segmento? Como é que um pintor sabe onde tocar com o pincel? Inspiração, experiência, tentativa e erro, pura sorte. É aí que está a sua arte, criar estes pequenos poemas de pensamento, estes sonetos de pura razão. Há qualquer coisa de maravilhosamente transformacional nesta forma de arte. A relação entre o triângulo e o rectângulo era um mistério, e de um momento para o outro aquele pequeno segmento tornou-a óbvia. Não era capaz de ver, e de repente passei a ser. De certo modo, consegui criar beleza pura e profunda a partir do nada, e transformar-me também a mim nesse processo. A arte não é isto mesmo?

É por isso que é tão desolador ver o que está a ser feito à matemática na escola. Esta rica e fascinante aventura da imaginação foi reduzida a uma conjunto estéril de «factos» a memorizar e de procedimentos a seguir. Em lugar de uma pergunta simples e natural sobre formas, e um processo criativo e gratificante de invenção e descoberta, o que servem aos alunos é isto:

«A área de um triângulo é igual ao produto de metade da sua base pela sua altura». Aos alunos é pedido que memorizem esta fórmula e que a «apliquem» repetidamente em «exercícios». Perdeu-se a emoção, a alegria, e mesmo a frustração e o sofrimento do acto criativo. Já nem sequer é proposto um problema. A pergunta foi feita e respondida ao mesmo tempo — não ficou nada para o aluno fazer.

Mas permitam-me deixar claro a que é que me oponho. Não é às fórmulas, nem à memorização de factos interessantes. Isso é aceitável em contexto, e tem o seu lugar tal

Fórmula da área do triângulo

A = 1/2 bh



como a aprendizagem de um vocabulário — ajuda-nos a criar obras de arte mais ricas e elaboradas. Mas o mais importante não é o facto de os triângulos ocuparem metade das suas caixas. O importante é a bela ideia de o seccionar com um segmento, e como isso pode inspirar outras belas ideias e avanços criativos em outros problemas — o que a mera afirmação de um facto nunca nos pode dar.

Quando retiramos o processo criativo e deixamos apenas o resultado desse processo, estamos possivelmente a garantir que ninguém se vai empenhar a sério na questão. É como dizer que Miguel Ângelo criou uma bela escultura, sem me deixarem vê-la. Como pode tal coisa servir-me de inspiração? (E obviamente é ainda pior — pelo menos dá-se a entender que existe uma arte da escultura que não me é permitido admirar).

Se nos concentramos no quê e deixamos de fora o porquê, a matemática reduz-se a uma concha vazia. A arte não está na «verdade» mas na explicação, na argumentação. É a argumentação em si própria que fornece à verdade o seu contexto e determina o que realmente é dito e o seu significado. Matemática é a arte da explicação. Se negamos aos alunos a oportunidade de se ocuparem nesta actividade — propôr os seus próprios problemas, fazer conjecturas e descobertas, cometerem erros, enfrentarem as suas frustrações de modo criativo, terem uma inspiração, engendrarem as suas próprias explicações e demonstrações — estamos a negar-lhes a própria matemática. Por isso, não estou a lamentar a presença de factos e de fórmulas no nosso ensino, estou sim a lamentar a falta de matemática no nosso ensino de matemática.

Se o professor de arte nos dissesse que pintar consiste em preencher espaços numerados, percebíamos logo que havia ali qualquer coisa de errado. Temos a informação da cultura — existem museus de arte e galerias, bem como arte na nossa própria casa. A pintura é bem compreendida pela sociedade como sendo um meio de expressão do homem. Analogamente, se a professora de ciências nos tentasse convencer que a astronomia consiste em prever o futuro de uma pessoa com base na sua data de nascimento, saberíamos que estava doida — a ciência entrou de tal modo na cultura que quase toda a gente tem conhecimentos sobre átomos, galáxias e leis da natureza. Mas se o professor de matemática, explícita ou tacitamente, nos transmitir a noção que a matemática consiste em fórmulas e definições e em memorizar algoritmos, quem nos esclarecerá?

O problema cultural é um monstro que se reproduz a si próprio: os alunos aprendem o que é a matemática com os professores, e os professores aprenderam-no com os seus próprios professores, e assim esta falta de compreensão e de apreço pela matemática reproduz-se indefinidamente. Pior do que isso, a perpetuação desta «pseudo-matemática», esta ênfase na manipulação exacta mas sem sentido de símbolos, cria a sua própria cultura e o seu próprio sistema de valores. Aqueles que se tornaram hábeis nessa manipulação colhem uma boa dose de auto-estima com o seu sucesso. A última coisa que desejam ouvir é que a matemática na verdade tem a ver com a pura criatividade e a sensibilidade estética. Muitos estudantes licenciados ficam chocados ao descobrirem, depois de passarem uma década a ouvir dizer que eram «bons em matemática», que de facto não têm qualquer talento matemático e que são apenas muito bons a seguir procedimentos. A matemática não consiste em seguir procedimentos, consiste em criar novos procedimentos.

E nem sequer mencionei a falta de crítica matemática na escola. Em nenhuma altura é concedido aos alunos acesso ao segredo de que a matemática, como toda a literatura, é criada por seres humanos para o seu próprio prazer; de que as obras de matemática são objecto de avaliação crítica; de que podemos ter e desenvolver o gosto matemático. Uma obra de matemática é como um poema, e podemos perguntar se satisfaz os nossos critérios estéticos: Será sólida esta argumentação? Faz sentido? É simples e elegante? Ajuda-nos a aproximarmo-nos da raiz do problema? Naturalmente, na escola a crítica não existe — não há nenhuma obra de arte para criticar!

Por que razão não queremos que os nossos alunos aprendam a fazer matemática? Será porque não acreditamos neles, porque achamos que é demasiado difícil? Se parecemos achá-los capazes de apresentar argumentos e de chegar às suas próprias conclusões acerca de Napoleão, porque não acerca de triângulos? Penso que isso se deve simplesmente ao facto de que nós como cultura não sabemos o que é a matemática. A ideia que nos transmitem é que se trata de qualquer coisa muito fria e altamente técnica, que ninguém poderia alguma vez compreender — uma profecia auto-realizada, se alguma vez houve alguma.

Seria já suficientemente mau se na cultura reinasse a ignorância matemática, mas de facto o pior é que as pessoas julgam saber realmente do que trata a matemática — e são dominadas pelo manifesto mal-entendido de que a matemática é, de certo modo, útil para a sociedade! Esta é desde logo uma enorme diferença entre a matemática e as outras artes. A matemática é vista pela cultura como uma espécie de ferramenta para a ciência e para a tecnologia. Toda a gente sabe que a poesia e a música servem o puro prazer e a elevação e enobrecimento do espírito humano (e daí a sua virtual eliminação do currículo da escola pública), mas que, pelo contrário, a matemática é importante.

Simplicio [2]: Será que tentais afirmar que a matemática não é útil nem tem aplicações práticas na sociedade?

Salviati: Claro que não. Estou apenas a sugerir que o facto de alguma coisa ter consequências práticas não significa que seja esse o seu objecto. A música pode conduzir exércitos na guerra, mas não é essa a razão que leva alguém a escrever sinfonias. Miguel Ângelo decorou um tecto, nas estou convencido que tinha ideias mais sublimes na sua mente.

Simplicio: Mas não precisamos que as pessoas aprendam essas aplicações úteis da matemática? Não precisamos, por exemplo, de contabilistas e de carpinteiros?

Salviati: Quantas pessoas usam realmente alguma desta «matemática prática» que se diz terem aprendido na escola? Julgais que andam por aí carpinteiros a usar a trigonometria? Quantos adultos se lembram de como se dividem fracções ou se resolve uma equação do 2º grau? É evidente que os actuais programas de ensino prático não estão a resultar, e há boas razões para tal: são incrivelmente maçadores e de qualquer modo ninguém os utiliza. Porque razão então os consideram tão importantes? Não percebo de que serve à sociedade ter os seus membros a andar por aí com vagas lembranças de fórmulas algébricas e de diagramas geométricos e com uma recordação viva do ódio que lhes tinham. No entanto, teria tido alguma utilidade mostrar-lhes qualquer coisa de belo e dar-lhes a oportunidade de sentirem o prazer de serem pensadores criativos, flexíveis, e com espírito aberto — aquilo que uma verdadeira educação matemática poderia oferecer.

Simplicio: Mas as pessoas devem ser capazes de fazer contas ao seu dinheiro, não é verdade?

Salviati: Estou convencido de que a maior parte das pessoas usam a calculadora para a sua aritmética corrente. E porque não? É muito mais fácil e mais fiável. Mas o que eu pretendo mostrar não é simplesmente que o actual sistema é tremendamente mau, mas antes que aquilo que lhe falta é maravilhosamente bom! A matemática devia ser ensinada como arte pela arte. Os aspectos «utilitários» deviam surgir naturalmente como produtos colaterais. Beethoven não teria qualquer dificuldade em escrever um jingle publicitário, mas a sua motivação para aprender música era a criação de beleza.

Simplicio: Mas nem toda a gente se destina a ser artista. Que fazer com os jovens que «não tem queda para a matemática» ? Como entram no vosso esquema?

Salviati: Se todos experimentassem a matemática no seu estado natural, com todo o prazer do desafio e das surpresas que isso comporta, penso que veríamos uma mudança radical na atitude dos alunos em relação à matemática, e na nossa concepção do que significa ser «bom em matemática.» Estamos a perder muitos matemáticos potencialmente bem dotados — pessoas criativas e inteligentes que com razão rejeitam o que lhes aparece como uma matéria estéril e sem sentido. São simplesmente demasiado inteligentes para perderem tempo com essas tretas.

Simplicio: Mas não achais que se a aula de matemática passasse a ser mais como uma aula de arte muitos alunos não aprenderiam realmente nada?

Salviati: Tal como agora não estão a aprender nada! Era melhor não haver sequer aulas de matemática do que fazer o que se está a fazer. Pelo menos alguns deles poderiam descobrir por si próprios algo de belo.

Simplicio: Isso quer dizer que eliminaria a matemática do currículo escolar?

Salviati: A matemática já foi eliminada! A única dúvida é como preencher o vazio oco e insípido que ainda resta. Obviamente preferia substituí-lo por uma experiência activa e agradável com ideias matemáticas.

Simplicio: Mas quantos professores de matemática sabem o suficiente para a ensinarem desse modo?

Salviati: Muito poucos. E isso não passa da ponta do iceberg…


Notas

(1) Tradução de A Mathematician’s Lament de Eduardo Veloso (revista por José Ferreira de Lima). O tradutor escreve de acordo com a antiga grafi a.

(2) (Nota do tradutor) Diálogos imaginários entre os dois personagens Simplitio e Salviati são incluídos ao longo do texto por Lockhart. Recorde-se que estes dois personagens foram utilizados por Galileu na sua obra Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, em que punha em discussão o sistema geocêntrico e o sistema heliocêntrico.

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Leia mais em Os Objetivos da Educação Matemática, por George Pólya

Leia mais em Apologia da Matemática, de GH Hardy



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Educação Clássica na Idade Média


 
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Recensão do livro Trivium e Quadrivium: As Artes Liberais na Idade Média. Mongelli, Lênia Márcia (coord.). Cotia: Ibis, 1999., feito por Manoel Vasconcellos, publicado na revista VERITAS, Porto Alegre n. 45, n. 3, Setembro 2000 . p. 495-499. Disponível no LINK.

***

Durante a Idade Média a educação estava, fundamentalmente, centrada no estudo das Artes Liberais, divididas em duas bases: o Trivium e o Quadrivium. O Trivium constituía-se na formação voltada para a construção dos argumentos e da conversação; dele faziam parte a Gramática, a Dialética e a Retórica. São as artes sermocinales e foram assim definidas por Hugo de Saint-Victor: "A gramática é o conhecimento de como falar sem cometer erro; a dialética é a discussão perspicaz e solidamente argumentada por meio da qual o verdadeiro se separa do falso; e a retórica é a disciplina da persuasão para toda e qualquer coisa apropriada e conveniente". O Quadrivium, por sua vez, era composto pelas artes reales: a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia. Em grande parte do período medieval, o Trivium e o Quadrivium foram os pré-requisitos para o estudo da Teologia, mas sua importância cresceu à medida que os conteúdos das diversas artes liberais foram se expandindo, levando os estudiosos ao alargamento dos campos de pesquisa.

A obra Trivium e Quadrivium: As Artes Liberais na Idade Média, lançada pela editora IBIS, busca mostrar ao leitor contemporâneo, mesmo àquele não especializado, em que consistiu o projeto educacional da Idade Média. O estudo da educação medieval, tendo por base as Artes Liberais é, sem dúvida, uma iniciativa bastante pertinente, uma vez que estas constituem a "base mais coesa para qualquer reflexão sobre o assunto". Em verdade, elas foram sistematizadas por volta do século V e continuaram sendo objeto de interesse por parte dos estudiosos, mesmo depois do advento das universidades. Com este intuito, foi convidado um especialista de cada área, que deveria produzir um artigo de forma critico-descritiva, referente a cada uma das artes liberais. A coordenação do trabalho coube à professora Lênia Maria Mongelli. Como um projeto de tal monta necessariamente enfrentaria dificuldades em manter a uniformidade; coube à introdução geral da obra, elaborada pela professora Tereza Aline Pereira de Queiroz, o papel de preencher as lacunas de informação que, eventualmente, tenham faltado nas sete grandes partes do livro, cada uma delas dedicada a uma das artes.

A obra pretende abordar urna série de temas referentes ao sistema de ensino medieval, tais como: a função e estrutura da escola, quem eram os mestres e os discípulos, de que modo se processou a educação ao longo deste vasto período, as características do saber e sua transmissão no âmbito monástico e clerical, a influência da antigüidade greco-romana (reconhecida e tratada com apreço pelos autores). Há também uma "questão decisiva": Como conciliar a complexidade das eventuais respostas aqui entrevistas com a imagem de 'trevas' atribuída à Idade Média? Estes e outros temas perpassam toda a obra, e as diversas respostas estão pinceladas nos vários artigos, todos eles elaborados com propriedade, preocupação histórica e rigor científico.

É interessante notar que cada um dos autores procedeu a um riquíssimo levantamento histórico, situando o objeto de sua pesquisa não apenas no âmbito do período medieval (o que, por si só, já seria um trabalho de fôlego), mas também retrocedendo à antigüidade, à Grécia e à Roma antigas, a fim de possibilitar ao leitor uma melhor compreensão da recepção obtida por aquela disciplina na Alta Idade Média e seus desdobramentos posteriores. Seria, igualmente, grave omissão deixar de ressaltar a preciosa relação bibliográfica indicada pelos diversos comentadores, ao final de suas exposições. De fato, a bibliografia indicada, além de revelar as qualificadas fontes dos pesquisadores, possibilita ao leitor interessado o aprofundamento da reflexão.

Como já foi dito, a exposição das diversas disciplinas que constituem o Trivium e o Quadrivium é precedida por uma introdução, intitulada "Aprender a Saber na Idade Média", onde a autora, a professora Tereza Aline Pereira de Queiroz mostra que entre os séculos V e XV há uma defasagem entre o mundo concreto e o saber curricular. Nota-se mesmo que "uma fração reduzida das sobrevivências medievais que nos impressionam hoje em dia dependeram de uma escolaridade formal". Feita esta constatação, a autora passa a discorrer sobre os grandes marcos da história medieval da aprendizagem, iniciando pelo período da desintegração do império romano, onde a intelectualidade cristã buscava na tradição cultural clássica um suporte para o cristianismo, o que não impediu a originalidade do pensamento dos Padres da Igreja, que procuravam "dar substância filosófica, moral e institucional aos ensinamentos de um mestre espiritual". Aborda também as origens do monaquismo com seus sistemas de formação, nada teórico no Oriente, enquanto, no Ocidente, era sustentado pela tríade rezar, trabalhar e estudar, a partir da proposta de São Bento.

Preparando o que vai ser explicado detalhadamente, ao longo da obra, a introdução mostra os diversos nomes que contribuíram para a difusão e aperfeiçoamento das artes liberais na Idade Média: Cassiodoro, Boécio, Isidoro de Sevilha, Beda, entre outros, ressaltando, contudo, que "a institucionalização, ao menos teórica, do Trivium e do Quadrivium como suportes metodológicos e de conteúdo da educação masculina - em princípio meninas não estudavam - talvez possa ser localizada nos tempos carolíngios", graças ao papel importante exercido por Alcuíno", nome que, diga-se de passagem, é ressaltado por todos os demais autores.

A partir do século XI, bem mostra a Professora Tereza Queiroz, com o fortalecimento da vida urbana, a cultura formal desloca-se das grandes abadias para as cidades, onde as escolas episcopais assumem uma importância maior, e de onde surgirão as universidades, entendidas como "uma corporação, uma guilda, uma reunião de pessoas com interesses comuns", cujos estudos seguiam o sistema do Trivium e do Quadrivium. A partir daí, a autora, com propriedade e riqueza de detalhes, discorre sobre o que era estudado e de que forma era estudado nos séculos seguintes, para concluir que "os saberes do trivium e do quadrivium, além de serem ministrados a uma parcela mínima da população, a que freqüentava escolas e universidades, só deixou marcas indiretas na cultura medieval", pois os conhecimentos que dirigiam o dia-a-dia estavam distantes da educação formal, o que não impede, contudo, a percepção de sua importância.

A análise do Trivium começa com o comentário do Prof. Evanildo Bechara sobre aquela arte que sempre foi elencada em primeiro lugar, a Gramática. O autor destaca algumas obras que foram largamente utilizadas, como instrumento de ensino, tais como o Ars Poetica de Horácio, o Barbarismus, a Ars Minor e a Ars Maior de Donato, bem como a célebre Institutio de Arte Grammatica de Prisciano. O prof. Bechara mostra o trabalho gramatical na Idade Média em dois momentos significativos: o primeiro (séculos VIII a XII), é marcado pela forte influência das obras de Donato e Prisciano, seguindo a "teoria, a metodologia e a pedagogia transmitidas pela tradição romana", embora já apresentando algumas alterações devido às influências da orientação teológica e da exegese espiritual, pois as obras romanas faziam referências a autores pagãos, provocando um certo choque com a mensagem cristã. Também a sintaxe e o léxico não eram os mesmos do latim bíblico da Vulgata. O ensino da Gramática, contudo, foi sempre importante. Antes de passar para o segundo momento, Bechara destaca o trabalho dos "enciclopedistas", que marcam a ligação entre o período clássico e o medieval. Mas, a partir do século XII, como mostra o autor, a Gramática terá um novo sentido, passando a ser considerada como uma questão em si mesma. Tal mudança de perspectiva coincide, não por acaso, com a substituição do pensamento platônico pelo aristotélico, muito embora reconheça o autor a renovação metodológica e conceitual, sofrida pela Gramática, já estivesse prenunciada no De Grammatico de Santo Anselmo. No entanto, a tradução dos tratados aristotélicos fez com que a Lógica ocupasse um lugar de destaque, influindo na atividade gramatical fazendo com que esta assumisse um papel especulativo, suscitando novas questões.

O estudo da Retórica, elaborado pela Professora Lênia Márcia Mongelli começa com a análise etimológica, reveladora da ambigüidade do termo. Após, a autora mostra como, na Idade Média, a Retórica se encontrava intimamente ligada às demais artes liberais, particularmente à Gramática e à Dialética. Analisa também o papel da Retórica na Grécia antiga, onde se destaca sua vertente filosófica, e na Roma antiga, assume um papel mais prático, fazendo-se presente na sala de aula, da mesma forma que a Gramática. No período medieval, a Retórica, inserida no contexto religioso da época, "visará a fornecer doutrinação e argumentos para a salvação dos cristãos... A sabedoria funde-se à religião e os sacerdotes são os novos doutores das Artes, colocando o saber profano a serviço do esclarecimento dos mistérios bíblicos".

O comentário sobre a Dialética coube à professora Celina Lértora Mendoza, que inicia mostrando a identificação entre Dialética e Lógica no âmbito medieval, uma vez que a Dialética é entendida como "o estudo das formas de pensamento e de argumentação", denominação que foi transmitida aos medievais por Boécio e Martianus Cappela. A autora fala da relação da Dialética com as demais disciplinas do Trivium, a fim de melhor analisar sua função na educação medieval, mostrando que "ao homem medieval a Lógica interessou como uma arte do pensar correto, como um conjunto de regras e de modos de operar que permitiram fazer afirmações com certeza, sobretudo aquele tipo de afirmações que mais lhe interessavam, as relativas a seus principais problemas". A autora detém-se, igualmente, sobre os diferentes períodos, traçando um panorama da Dialética medieval, abordando tanto o avanço dos temas, como as formas de produção e de comunicação. Conclui o artigo com algumas interessantes considerações sobre o valor; nem sempre reconhecido, da Lógica medieval. Apresenta também uma relação dos principais nomes com suas respectivas contribuições para o pensamento lógico daquele período.

A análise do Quadrivium abre-se com o artigo do Prof. César Polcino Milies sobre a Aritmética medieval. A fim de melhor compreendê-la, o autor remonta à antiga Roma, dada a forte relação existente entre a Aritmética medieval e a romana. Salienta que, comparada à grega, a Matemática praticada em Roma e na Idade Média não apresenta tantos "progressos", em parte devido ao fato de que a numeração romana, apesar de ter sido um instrumento adequado para o registro dos números (em que pese as dificuldades inerentes), mostrou-se limitada no que tange ao trabalho com as operações aritméticas. O autor comenta também a apresentação da Aritmética nos tratados de Boécio, Cassiodoro, Isidoro de Sevilha e Alcuíno. Explica que a Matemática foi vista pela Igreja como uma "boa preparação para os intrincados raciocínios teológicos", bem como um instrumento necessário, tendo em vista sua aplicação no calendário, a fim de bem marcar as datas das festas religiosas. Após mostrar os vínculos existentes entre Matemática e Astrologia e Matemática e Medicina, o Prof. César Milies apresenta inúmeros e interessantes exemplos a fim de possibilitar ao leitor uma melhor compreensão dos métodos operatórios utilizados na Idade Média. Conclui apresentando a "teoria dos números", especialmente em Boécio e sua De Institutio Arithmetica.

O comentário sobre a Geometria coube ao Prof. Eduardo Carreira que discorreu sobre os "Limites e Grandezas do Pensamento Geométrico na Idade Média", mostrando-nos que, mais do que os documentos, são os monumentos que evidenciam um "sugestivo conhecimento geométrico, que se conserva a despeito de tudo; e mais, desenvolve-se com criatividade", pois o estudo da Geometria medieval supõe a percepção da "natureza cultural mais dilatada" da Geometria, ou seja, suas relações com a vida cotidiana. O Prof. Carreira mostra como a obra de Agostinho sobre as Artes Liberais é paradigmática do modo como a Geometria é vista na Idade Média: O elogio formal, a incompletude e o silêncio sobre os conteúdos - são exatamente aquilo que impressiona na História da Geometria medieval. Tal situação não impede, porém, a manifestação da "dimensão empírica e mais antiga da Geometria", fazendo com que esta pudesse ser uma "expressão de idéias e arquétipos transcendentes". O autor finaliza sua reflexão, mostrando como a Europa medieval, após o milênio, a partir de processos pluridimensionais de intercâmbios, sofre grandes modificações que também se refletem na Geometria, fazendo com que, no século XIII, se perceba um "debate especializado e bem sustentado", que faz vislumbrar um tímido anúncio do Renascimento italiano.

O prof. Gerardo Huseby mostra um esboço do processo sofrido pela Música, desde o período grego, até o final da Idade Média, época em que a Música se aproxima um pouco mais da atual concepção que temos desta arte. Salienta o autor a ambigüidade da Música no pensamento cristão medieval, pois ela foi, ao mesmo tempo, meio de elevação espiritual e imagem da harmonia divina e instrumento demoníaco e fonte de corrupção. Estas duas concepções, presentes no De Musica agostiniano, perpassam a Idade Média. O autor percorre com profundidade a história da Música medieval, seu desenvolvimento teórico e prático, seu uso na liturgia, a evolução do sistema de notação musical, mostrando que por um lado a Música já não ocupará os elevados setiais metafísicos em que foi colocada pelo pensamento clássico grego e em que permaneceu durante séculos; por outro lado, passará a ser considerada em termos de suas técnicas compositivas, de sua beleza e do prazer que sua erudição provoca.

A última parte da obra refere-se ao comentário sobre a Astronomia medieval, onde o Prof. Amâncio Friaça, depois de prestar esclarecimentos sobre o uso dos termos Astronomia e Astrologia na Idade Média (quem primeiro fez a distinção foi Isidoro de Sevilha), discorre sobre a Cosmografia medieval, apresentando-a na perspectiva de diversos autores. Destaca também a presença de uma nova concepção da Astronomia a partir dos estudos efetivados sob o impulso do Império Carolíngio. Ressalta, igualmente, a inestimável contribuição que a Europa cristã recebeu da Astronomia islâmica, a partir do ano 1000, o que vai provocar um "redespertar da Astronomia observacional", tendo em vista a utilização de novos instrumentos. O autor mostra também as peripécias que envolveram, a começar no século XIII, a presença da totalidade da obra de Aristóteles no ocidente e suas conseqüências no campo da Astronomia. Aborda, igualmente, o conflito entre físicos e matemáticos e mostra também como a Optica, a partir de Grosseteste e Roger Bacon, se torna a ciência física básica. Conclui sua reflexão com uma análise do que chama "a cosmologia da luz", mostrando que, em contraste com a Física aristotélica, que concebia movimentos naturais muito distintos para corpos celestes e corpos terrestres e que separava a Física e a Astronomia em domínios estanques, os luminólogos eram Astrofísicos, pois acreditavam que as mesmas leis físicas se aplicavam a todo o universo.

Sem dúvida, a obra Trivium e Quadrivium: As Artes Liberais na Idade Média, neste momento em que, pouco a pouco, aprofundam-se no Brasil, os estudos sobre a Idade Média vêm mostrar-nos que o pensamento medieval soube cultivar de modo ímpar um desejo profundo de conhecer, sem temer os intercâmbios e as novidades, por mais que pudessem ser dificultosos. Fala-se muito, hoje, na necessidade de integração dos conhecimentos, na busca da interdisciplinaridade. Pois bem, como nos mostram os autores de Trivium e Quadrivium, a Idade Média, não obstante as vicissitudes enfrentadas, tem interessantes exemplos a nos oferecer.

***

Leia mais em Sobre as Sete Artes Liberais, por Rabano Mauro

Leia mais em As Artes Liberais do Trivium e do Quadrivium



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Matemática Medieval, por Cassiodoro

Entronado, Cassiodoro apresenta seu livro. Inicial iluminada “C” (séc. XII).
Vault Case Manuscript 8, Institutiones, folio 1r.
A Idade Média nunca se esqueceu do autor das Instituições. 

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O texto abaixo é retirado do livro de Institutiones: introdução às letras divinas e seculares, de Flávio Magno Aurélio Cassiodoro, publicado pelas Edições Kírion, 2018.

***

Movamo-nos agora aos princípios da matemática.

Da matemática

A matemática, que podemos chamar de doutrinal (teorética), é a ciência que considera a quantidade abstrata. E quantidade abstrata é a que tratamos apenas com a razão, separando-a intelectualmente da matéria ou de outros acidentes. Por exemplo, as noções de par e ímpar, e similares.

Divisão da matemática: aritmética; música; geometria; astronomia.

A aritmética é a disciplina da quantidade numerável considerada em si mesma. A música é a disciplina que fala dos números em relação aos sons. A geometria é a disciplina da magnitude imóvel e das figuras. A astronomia é a disciplina que versa sobre o curso dos astros no céu. Ela investiga todas as formas e percorre as configurações das estrelas em relação a si mesmas e à Terra. Nós as indicamos um pouco mais amplamente no lugar apropriado para que o valor dos assuntos mencionados seja convenientemente demonstrado.

Discutamos o termo disciplinas (ciências). Como foi dito, disciplinas são aquelas que escapam das armadilhas da opinião e por isso recebem esse nome; elas seguem inexoravelmente as suas regras. Não podem ser estendidas ou diminuídas, nem modificadas por quaisquer variáveis, mas conservam com uma firmeza inabalável suas regras permanentes em seu próprio poder. Quando as consideramos em uma longa meditação, elas aguçam nossa inteligência, varrem para fora dela a poeira da ignorância e, se tivermos um espírito são, nos conduzem, com a ajuda do Senhor, à contemplação especulativa. Mas devemos saber que Josefo, o mais douto dos hebreus, diz, no capítulo nono de seu primeiro livro Das antigüidades que Abraão transmitiu primeiro a aritmética e a astronomia aos Egípcios, que, recebendo dele as sementes, desenvolveram mais profundamente as demais disciplinas para seu próprio uso — como fazem os homens de gênio muito perspicaz. Os Santos Padres nos recomendam — e com razão — o estudo dessas ciências. Pois elas afastam em grande parte nosso apetite das coisas carnais e nos fazem desejar o que só podemos ver com a alma, mediante auxílio do Senhor. É hora, portanto, de falarmos breve e individualmente sobre elas.


Capítulo IV 

Aritmética

Os escritores das letras seculares estabeleceram a aritmética como a primeira entre as disciplinas matemáticas, porque a música, a geometria e a astronomia, que a seguem, precisam dela para explicar suas noções. Por exemplo, exigem conhecimentos de aritmética a noção de número simples ou duplo em música, a de triângulo e quadrado (e outros similares) em geometria, o cálculo das posições móveis dos corpos celestes em astronomia. Mas a aritmética não precisa nem da música, nem da geometria, nem da astronomia. Por isso, para elas é fonte e mãe. Pitágoras a louvou tanto a ponto de declarar que tudo foi criado por Deus sob número e medida, dizendo que algumas coisas foram formadas em movimento e outras em repouso, de modo que nenhuma, além das mencionadas, recebesse substância. Creio que esse princípio está certo, e eu o tomo, como muitos filósofos, da frase do profeta que diz: “Deus dispôs todas as coisas em medida, número e peso”.

A aritmética consiste na quantidade distinta, que gera as espécies de números, que não estão ligados por nenhum limite comum. Não há nenhum limite comum que associe os números 5 e 10; ou 6 e 4; ou 7 e 3. É chamada de aritmética porque os números constituem seu domínio. E número é um conjunto formado por unidades, como 3, 5, 10, 20 etc. O propósito da aritmética é nos ensinar a natureza do número abstrato e seus acidentes. Por exemplo, paridade, imparidade etc.

O número é dividido em:



Par é o número que pode ser dividido em duas partes iguais [1], como 2, 4, 6, 8, 10 etc. Ímpar é o número que não pode ser dividido de modo algum em duas partes iguais [2], como 3, 5, 7, 9, 11 etc. Igualmente par é o número cuja divisão pode se dar em duas partes iguais até um. Por exemplo, 54 é dividido em 32, 32 em 16, 16 em 8, 8 em 4, 4 em 2, 2 em 1. Igualmente ímpar é o número que pode ser dividido somente em duas partes iguais, como 10 em 5, 14 em 7, 18 em 9, e similares. Desigualmente par é o número que pode receber mais de uma divisão segundo a igualdade das partes, mas sem chegar a um. Por exemplo, 24 em 2x12, 12 em 2x6, e 6 em 2x3. E não se pode prosseguir mais adiante. O número ímpar primo e simples é o número que só pode ser dividido por um [3]. Por exemplo 3, 5, 7, 11, 13, 17, e similares. O número ímpar secundário e composto é o que pode ser dividido não só por um, mas por outro número além de um. Por exemplo, 9, 15, 21, e similares. Ímpar intermediário é o número que sob certo aspecto é simples e não-composto, e sob outro, é secundário e composto. Por exemplo, 9, se comparado com 25, é primo e não-composto, porque não compartilha com ele nenhum número a não ser 25. Mas se for comparado com o número 15, é secundário porque tem 3 como divisor comum.

Segunda divisão de números pares e ímpares; o número é:



Supérfluo é o número que deriva de pares. Como é par, ele parece possuir partes supérfluas de quantidade. Como a metade de 12 é 6, a sexta parte é 2; a quarta parte é 3; a terceira é 4; a décima segunda é 1. Somadas essas quantidades, tem-se 16.

O número insuficiente também deriva de pares. Ele possui uma soma inferior das partes de sua quantidade. Como 8, cuja metade é 4, cujo quarto é 2, e cujo oitavo é 1. Essas partes, somadas, valem 7.

O número perfeito também deriva de pares. E como é par, suas partes somadas equivalem ao seu próprio valor. Como 6, cuja metade é 3, cujo terço é 2 e cujo sexto é 1. Somadas as partes, elas formam o próprio número 6.

Terceira divisão dos números.

Os números são ou:



O número per se é o que não possui nenhuma relação com outros. Como 3, 4, 5, 6 e outros similares.

O número relativo é o que se compara com outros. Por exemplo, se comparamos 4 com 2, 6 com 3, 8 com 4, 10 com 5, os chamamos dobro ou múltiplo. Se comparamos 3 com 1, 6 com 2, 9 com 3, os chamamos de triplo etc.

Os números iguais são os que são iguais segundo a quantidade. Por exemplo, 2 e 2, 3 e 3, 10 e 10, 100 e 100 etc.

Os números desiguais são os que, comparados entre si, demonstram desigualdade. Como 3 e 2, 4 e 3, 5 e 4, 10 e 6.

Em geral, quando o maior for assim comparado ao menor, ou o menor ao maior, chama-se desigual.

Número maior é o que contém em si o menor, com o qual é comparado, e unidades adicionais. Por exemplo, 5 vale mais do que 3 porque o contém em si e mais duas unidades.

Número menor [4] é aquele contido pelo maior, com o qual é comparado, junto com outra unidade adicional. Por exemplo, 5 é menor do que 3, porque, junto com duas unidades, encontra-se contido nele.

Número múltiplo é o que contém em si o número menor, duas, três, quatro, ou múltiplas vezes. Por exemplo, comparado a 1, 2 contém-lhe o dobro; 3, o triplo; 4, o quádruplo etc.

Número sub-múltiplo, por outro lado, é aquele contido no múltiplo, com o qual é comparado, duas, três, quatro ou múltiplas vezes. Por exemplo, 1 é contido duas vezes em 2, três vezes em 3, quatro vezes em 4, cinco vezes em 5 e assim por diante.

Número super-particular é superior por conter dentro de si o inferior e uma unidade dele. Por exemplo, se comparamos 3 e 2, três contém dois e mais uma unidade, que é a metade de dois. Se comparamos 4 e 3, quatro contém três e mais uma unidade, que é um terço de três. Se comparamos 5 e 4, cinco contém quatro e mais uma unidade, que é um quarto de quatro. E assim por diante.

Sub-super-particular é o número menor que é contido no maior acrescido de uma parte sua: a metade, a terça parte, ou a quarta, ou a quinta. Por exemplo: 2 em relação a 3, 3 em relação a 4, 4 em relação a 5 etc.

Super-partiente é o número que contém em si todo o número inferior, e além dele, suas outras duas unidades, ou três, ou quatro, ou cinco, ou mais unidades. Por exemplo, 5 em relação a 3: cinco contém em si o número três, e além dele, suas outras duas unidades. 7 em relação a 4: sete contém quatro e mais três unidades dele.

Sub-super-partiente é aquele número contido no número super-partiente com algumas outras unidades suas (duas, três ou mais), como, por exemplo, 3 está contido em 5 mais outras duas unidades suas. 4 em 7, mais três unidades; 5 em 9, mais quatro unidades.

Múltiplo super-particular é o número que, comparado a um número inferior, o contém várias vezes e mais uma unidade. Por exemplo, comparemos 5 a 2. 5 contém o dobro de 2 e mais uma unidade. 9 contém em si o dobro de 4, mais uma unidade.

Sub-múltiplo super-particular é o número que, comparado a um maior, é por ele contido, junto com uma unidade, várias vezes. Por exemplo, comparemos 2 a 5. 2 é contido duas vezes por 5 e mais uma unidade sua.

Múltiplo super-partiente é o que, comparado a um número inferior, o contém várias vezes e mais outras unidades. Por exemplo, 8 contém dois terços de 3, e mais outras duas unidades. 14 contém o dobro de 6 e mais duas unidades. 16 contém o dobro de 7 e mais duas unidades. 19 contém o dobro de 8 e mais três unidades dele.

Sub-múltiplo super-partiente é o número que, comparado ao maior, é por ele contido, junto com outras unidades suas, várias vezes. Por exemplo, 3 está contido duas vezes em 8 com mais duas unidades. 4 está contido três vezes em 15 com outras três unidades suas.


Segue-se a quarta divisão dos números: discretos; e contíguos: lineares, planos, sólidos.

O número discreto é o que está contido em outro por unidades distintas, por exemplo, 3 está contido em 4, 5 em 6, etc.

Contíguo é o número contido em outro por unidades conjuntas. Por exemplo, o número 3, entendido em sua magnitude, é chamado número contíguo linear, plano ou sólido. Assim como os números 4 e 5.

Linear é o número que, começando a partir de um, se escreve linearmente até o infinito; por isso, as linhas são designadas com a letra alpha, que, em grego, significa um: aaa…

Plano é o número considerado não só segundo seu comprimento, mas também por sua largura, como o número triangular, o número quadrado, o número retangular, o número pentagonal, o número circular e outros números planos.

Número triangular     Número quadrado     Número pentagonal


Número circular é o que, multiplicado de maneira similar, volta sempre ao ponto de partida. Por exemplo: 5x5=25… Assim se dá com o seis: 6x6=36, 6x36=216.

Sólido é o número considerado segundo seu comprimento, largura e altura, como o são as pirâmides, que se erguem em forma de chamas, ou cubos, que são como os dados, ou as esferas, que possuem, de todos os lados, a mesma circularidade.

Esférico é o número que, multiplicado por um número circular, começa e volta a si mesmo. Por exemplo, 5x5=25. Se esse número circular for multiplicado por si mesmo, formará uma esfera: 5x25=125.



Tratai desses assuntos com um espírito solícito, lembrai-vos de que essa disciplina é colocada na frente das outras, uma vez que — como foi dito acima — não precisa de nenhuma outra. As demais, a seguir, como demonstra sua própria natureza, precisam da aritmética para existir. Nicômaco expôs a aritmética cuidadosamente entre os gregos. Ele foi traduzido ao latim, primeiro por Apuléio de Madaura e depois por Boécio, para que os romanos o lessem e relessem. Se os utilizamos, à medida que nos é lícito, as lições se derramam num raciocínio evidentemente muito lúcido. Foi-nos dado também viver em grande parte sob a égide dessa disciplina. Sempre que por meio dela aprendemos as horas, computamos o curso dos meses, reconhecemos o período do ano que se repete. Somos ensinados pelos números a não ser enganados. Retira do século o cômputo e a cega ignorância abraçará a tudo e a todos. Nem pode diferir dos outros animais aquele que não entende o resultado do cálculo. Trata-se de uma disciplina tão gloriosa quanto necessária à nossa vida. Por meio dela, averiguamos os nossos recursos e, sopesados os cômputos, as nossas despesas. O número é aquilo que dispõe todas as coisas. Por meio dele, aprendemos o que devemos fazer primeiro e o que fazer depois.

E se examinares minuciosamente a causa de tão grande fato, nem por isso os milagres do Senhor se tornam alheios à força do número. O número um diz respeito a Deus, como se lê no Pentateuco: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor” [5]. O número dois está relacionado aos Testamentos, como está dito em Reis: “E pôs no Oráculo dois querubins de pau de oliveiras, do tamanho de dez côvados” [6]. Por fim, o fruto suavíssimo de toda nossa esperança foi depositado na Santa Trindade, não porque esteja a serviço do número, mas porque mostra pelo poder de sua majestade a utilidade dele. Entendemos, certamente, que há a unidade na essência da Divindade, e a Trindade nas pessoas. Lê-se na epístola de João: “E três são os que dão testemunho na terra: o Espírito, a água e o sangue” [7]. Quanto aos quatro Evangelhos, também se lê em Ezequiel: “E no meio deste mesmo fogo se via a semelhança de quatro animais” [8]. Sabemos que o número cinco refere-se aos cinco livros de Moisés, como diz o Apóstolo: “Mas eu antes quero falar na Igreja cinco palavras da minha inteligência” [9]. No sexto dia, Deus criou o homem à sua imagem e semelhança. Com efeito, nós cremos que o próprio Espírito Santo é septiforme. O número descobre-se necessário para que as concepções mais sublimes e poderosas sejam compreendidas.

[...]

Capítulo VI

Geometria

Voltemo-nos agora à geometria, que é a descrição especulativa das formas e a prova visível de que dispõem os filósofos. Estes, para tecer loas a ela, afirmam que Júpiter usa os métodos da geometria em seus próprios trabalhos. Não sei se a geometria é louvada ou repreendida, quando eles afirmam, falsamente, que Júpiter realiza no céu o que eles retratam em poeira envernizada. Se for aplicada ao Criador e Senhor onipotente, talvez essa frase possa corresponder à verdade. Na realidade, é a Santa Trindade — se é lícito dizer — que geometriza quando concede diversas espécies e formas às criaturas que fez com que existissem até hoje; quando distribui as rotas das estrelas com seu venerável poder, faz correr linearmente tudo o que se move e institui o que é fixo e certo em seu devido lugar. Tudo o que é bem arranjado e acabado pode ser atribuído às qualidades dessa disciplina.

Geometria significa, em latim, medida da terra, pois se conta que o Egito — como alguns afirmam — foi primeiramente dividido entre os devidos senhores e proprietários segundo as diversas formas desta ciência. Os professores de geometria eram antes chamados de medidores. Mas Varrão, o mais profundo escritor latino, assim descreve a causa pela qual esse nome passou a existir: diz que primeiro as dimensões das terras, com limites bem definidos, providenciaram os benefícios da paz aos povos nômades e discordantes; depois, o círculo do ano inteiro foi dividido conforme o número de meses, e então os próprios meses, que são assim chamados por medir o ano; instigados por essa descoberta, alguns estudiosos começaram, em seguida, a investigar a distância entre a Lua e a Terra, entre o Sol e a Lua e a distância até o vértice do céu; Varrão menciona ainda que os geômetras alcançaram o que buscavam; ora, relata que a dimensão de toda a Terra foi circunscrita numa medida provável; e, por isso, aconteceu que a própria ciência recebesse o nome (geometria) que preserva por longos séculos. É por isso que Censorino, no livro que endereçou a Quinto Celério, descreveu, movido pelo desejo de conhecimento, os próprios espaços do céu e a órbita da Terra segundo o número de estádios [10] Se alguém desejar examiná-lo, descobrirá numa breve leitura muitos mistérios dos filósofos.

A geometria é, em verdade, a ciência da extensão imóvel e das formas. Ela divide-se em: plano; extensão numerável; extensão racional e irracional; figuras sólidas.

Figuras planas são as que contém comprimento e largura. Extensão numerável é a que pode ser dividida com os números da aritmética. Extensões racionais são aquelas cuja medida podemos saber, irracionais aquelas cuja medida não é considerada conhecida. Figuras sólidas são as que possuem comprimento, largura e altura.

Tratamos de toda a disciplina da geometria nestas partes e subdivisões, e com essa exposição concluímos as numerosas formas presentes na terra ou no céu. Houve bons escritores nesse campo entre os gregos, como Euclides, Apolônio, Arquimedes e outros. Desses autores, Boécio, homem magnífico, publicou a versão latina de Euclides. Se Euclides for relido com diligência e cuidado, aquilo que foi explicado nas mencionadas subdivisões torna-se conhecido pela clareza de uma inteligência comprovada.

Notas:

[1] Isto é, em dois números inteiros iguais.

[2] Isto é, em dois números inteiros.

[3] E, é claro, por ele mesmo.

[4] A seguinte definição foi omitida ou perdida. Ela é uma reconstituição a partir da anterior.

[5] Dt 6, 4.

[6] 1Rs 6, 23.

[7] 1Jo 5, 8.

[8] Ez 1, 5.

[9] 1Cor 14, 19.

[10] Medida grega que correspondia a 185 metros.

Obs.: As duas últimas figuras foram retiradas do mesmo Tratado de Aritmética, de Cassiodoro, contido na Coleção de Artes Liberais: Volume 9.

***

Leia mais em Institutiones, um livro que preservou a Educação Clássica

Leia mais em A Matemática de S. Isidoro de Sevilha e a Educação Medieval



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Deus, Matemática e Dostoievski



Tempo de leitura: 9 minutos.

Apresentamos um trecho do livro Irmãos Karamazov, de Fiódor Dostoiévski, retirado do cap. III do Livro V. Editora Martin Claret. Tradução: Nathalia Nunes e Oscar Mendes.
Contextualizando: em um restaurante, Ivã e seu irmão Aliócha estão conversando sobre diversos assuntos. 

***

Ivã: —  [...] Nós outros, fedelhos, temos como tarefa resolver as questões eternas, eis nosso fim. Agora, toda a jovem Rússia só faz dissertar sobre essas questões primordiais, ao passo que os velhos se limitam às questões práticas. Por que me olhaste durante três meses com um ar ansioso, senão para me perguntar: "Tens fé ou não tens?" Eis o que exprimiam os teus olhares, Alieksiéi Fiódorovitch; não é verdade?

Aliócha: — Pode muito bem ser — concedeu Aliócha, sorrindo. — Mas não estás zombando de mim neste momento, meu irmão?

— Zombando de ti? Não haveria de querer causar pesar a meu jovem irmão, que me olhou durante três meses com tanta ansiedade. Aliócha, olha-me de frente: sou um menino igual a ti, com a diferença de que és noviço. Como procede a juventude russa, pelo menos uma parte? Vai para um botequim de ar viciado, tal como este, por exemplo, e instala-se num canto. Esses rapazes não se conhecem e ficarão quarenta anos sem tornar a encontrar-se. Que discutem eles naqueles breves minutos? Apenas questões essenciais: se Deus existe, se a alma é imortal. Os que não crêem em Deus discorrem sobre o socialismo, a anarquia, sobre a renovação da humanidade; ora, essas questões são as mesmas, mas encaradas sob outra face. E boa parte da juventude russa, a mais original, hipnotiza-se com essas questões. Não é verdade?

— Sim, para os verdadeiros russos, as questões da existência, de Deus, da imortalidade da alma, ou, como dizes, as mesmas encaradas sob outra face, são primordiais, e tanto melhor assim — disse Aliócha, olhando seu irmão, com um sorriso escrutador.

— Aliócha, ser russo não é sempre uma prova de inteligência. Não há nada de mais tolo que as ocupações atuais da juventude russa. No entanto, há um adolescente russo a quem amo bastante.

— Como expuseste bem tudo isso! — disse Aliócha, rindo.

— Pois bem, dize-me por onde começar. Pela existência de Deus?

— Como queiras, podes mesmo começar pela "outra face". Proclamaste ontem que Deus não existia. — Aliócha olhou seu irmão com um olhar penetrante.

— Disse isso ontem em casa do velho, expressamente para irritar-te. Vi teus olhos faiscarem. Mas agora estou disposto a entreter-me seriamente contigo. Desejo entender-me contigo, Aliócha, porque não tenho amigo e quero ter um. Imagina que admito talvez Deus — disse Ivã, rindo. — Não esperavas por isto, hein?

— Sem dúvida, se não brincas neste momento.

— Vamos lá! Foi ontem, em casa do stáriets [*], que se podia achar que eu estava brincando. Sabes, meu caro, que havia um velho pecador no século XVIII que disse: "Si Dieu riexistait pas, il foudrait Vinventer"? [21] E, com efeito, foi o homem quem inventou Deus. E o que é espantoso não é que Deus exista realmente, mas que essa idéia da necessidade de Deus tenha vindo ao espírito de um animal feroz e mau como o homem, tão santa, comovente e sábia é ela, tanta honra faz ao homem. Quanto a mim, renunciei desde muito tempo a perguntar a mim mesmo se foi Deus quem criou o homem, ou o homem quem criou Deus. Bem entendido, não passarei em revista todos os axiomas que os adolescentes russos deduziram das hipóteses européias, porque o que na Europa é uma hipótese torna-se logo um axioma para os ditos. adolescentes, e não somente para eles mas para seus professores, que muitas vezes se lhes assemelham. De modo que afasto todas as hipóteses: qual é, com efeito, nosso desígnio? Meu desígnio é explicar-te o mais rapidamente possível a essência de meu ser, minha fé e minhas esperanças. Assim, declaro admitir Deus, pura e simplesmente. É preciso notar, no entanto, que, se Deus existe, se criou verdadeiramente a terra, fê-la, como se sabe, segundo a geometria de Euclides, e não deu ao espírito humano senão a noção das três dimensões do espaço. Entretanto, encontraram-se, encontram-se ainda geômetras e filósofos, mesmo eminentes, para duvidar de que todo o universo e até mesmo todos os mundos tenham sido criados somente de acordo com os princípios de Euclides. Ousam mesmo supor que duas paralelas que, de acordo com as leis de Euclides, jamais se poderão encontrar na terra, possam encontrar-se, em alguma parte, no infinito. Decidi, sendo incapaz de compreender mesmo isto, não procurar compreender Deus. Confesso humildemente minha incapacidade em resolver tais questões; tenho essencialmente o espírito de Euclides: terrestre. De que serve querer resolver o que não é deste mundo? E aconselho-te a jamais quebrar a cabeça a respeito, meu amigo Aliócha, sobretudo a respeito de Deus: existe ele ou não? Essas questões estão fora do alcance dum espírito que só tem a noção das três dimensões. Assim, admito Deus, não só voluntariamente, mas ainda sua sabedoria, seu fim que nos escapa; creio na ordem, no sentido da vida, na harmonia eterna, na qual se pretende que nos fundiremos um dia: creio no Verbo para o qual propende o Universo que está em Deus e que é ele próprio Deus, até o infinito. Estou no bom caminho? Imagina que, em definitivo, esse mundo de Deus, eu não o aceito e, embora saiba que ele existe, não o admito. Não é Deus que repilo, nota bem, mas a criação; eis o que me recuso admitir. Explico-me: estou convencido, como uma criança, de que o sofrimento desaparecerá, que a comédia revoltante das contradições humanas se esvanecerá como uma lamentável miragem, como a manifestação vil da impotência mesquinha, como um átomo do espírito de Euclides; que no fim do drama, quando aparecer a harmonia eterna, uma revelação se produzirá, preciosa a ponto de enternecer todos os corações, de acalmar todas as indignações, de resgatar todos os crimes e o sangue vertido; de sorte que se poderá não só perdoar, mas justificar tudo quanto se passou sobre a terra. Que tudo isso se realize, seja, mas não o admito e não quero admiti-lo. Que as paralelas se encontrem sob meus olhos, verei e direi que se encontraram; e no entanto não o admitirei. Eis o essencial, Aliócha, eis minha tese. Comecei expressamente nossa conversa duma maneira que não podia ser mais idiota, mas levei-a até minha confissão, porque é o que esperas. Não era a questão de Deus que te interessava, mas a vida espiritual de teu irmão querido. Tenho dito.

Ivã acabou sua longa tirada com uma emoção singular, inesperada.

— Mas porque começaste de "uma maneira que não podia ser mais idiota"? — perguntou Aliócha, olhando com ar pensativo.

— Em primeiro lugar, por cor local: as conversas dos russos sobre esse tema travam-se sempre idiotamente. Em seguida, a idiotice aproxima do fim e da clareza. É concisa e não faz astúcia, o espírito usa de atalhos e escapa-se. O espírito é desleal, mas há honestidade na idiotice. Quanto mais idiotamente confessar o desespero que me acabrunha, tanto melhor valerá isto para mim.

— Explicar-me-ás por que "não admites o mundo"?

— Decerto, não é um segredo e ia fazer isso mesmo. Meu irmãozinho, não tenho a intenção de perverter-te, nem de abalar tua fé. Sou eu antes que quereria curar-me ao teu contato — disse Ivã com o sorriso duma criança. Aliócha jamais o vira sorrir assim.

Notas:

[*] Stáriets Zósima: Monge idoso e pobre, respeitado pela sua bondade e sabedoria.

[21] "Se Deus não existisse, precisaríamos inventá-lo" Citação da Epístola ao Autor dos "Três Impostores", de Voltaire.

***

Leia mais em A Matemática leva a Deus: Euclides, Hilbert e o futuro da Matemática

Leia mais em Lista de Livros Clássicos, segundo o Instituto Hugo de São Vitor



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Apresentamos uma lista dos principais conteúdos de Matemática atualmente do Ensino Médio, para aqueles que querem começar ou revisar seus estudos na Matemática Básica. Caso queira algo mais básico ainda, segue mais abaixo os conteúdos de Matemática do Ensino Fundamental também. Todo esse material encontra-se no Manual Compacto de Matemática: Teoria e Prática, publicado pela Editora Rideel, edição de 2010. O link desses manuais em pdf encontra-se AQUI


SUMÁRIO

Capítulo 1
Função do 1º grau ....................................... 11
1. Função do 1° grau ............................................ 11
2. Gráfico da função do 1º grau ........................ 14
3. Raiz ou zero da função do 1º grau .............. 17
4. Estudo de sinal da função do 1º grau.......... 20
5. Inequação do 1º grau ...................................... 21
6. Inequações produto e quociente.................. 22
Teste seu saber ..................................................... 26

Capítulo 2
Função do 2º grau ....................................... 29
1. Raízes da função do 2º grau .......................... 30
2. Gráfico da função do 2º grau ........................ 33
3. Vértice da parábola – máximos e mínimos da função. 37
4. Conjunto-imagem ............................................ 38
5. Estudo do sinal da função do 2º grau ......... 42
6. Inequações do 2º grau .................................... 44
7. Inequações produto e quociente.................. 46
Teste seu saber ..................................................... 50

Capítulo 3
Função modular .......................................... 54
1. Módulo de um número real .......................... 54
2. Gráfico da função modular ........................... 57
3. Equações modulares ....................................... 59
4. Inequações modulares ................................... 61
Teste seu saber ...................................................... 64

Capítulo 4
Função exponencial .................................... 68
1. Equação exponencial ...................................... 69
2. Gráficos da função exponencial ................... 72
3. Inequação exponencial ................................... 76
Teste seu saber ...................................................... 84

Capítulo 5
Função logarítmica .................................... 87
1. Logaritmo ......................................................... 87
2. Propriedades decorrentes da definição .... 89
3. Logaritmo decimal – característica e mantissa. 92
4. Propriedades operatórias dos logaritmos . 93
5. Mudança de base ............................................. 95
6. Função logarítmica ......................................... 97
7. Equações logarítmicas .................................. 100
8. Inequações logarítmicas ............................... 103
Teste seu saber ..................................................... 108

Capítulo 6
Funções circulares – trigonometria .........111
1. Triângulo retângulo ...................................... 111
2. Razões trigonométricas ................................ 112
3. Teorema de Pitágoras .................................... 115
4. Ângulos notáveis ............................................. 117
5. Relações trigonométricas ............................. 119
6. Circunferência ................................................ 123
7. Comprimento da circunferência ............... 123
8. Arco de circunferência ................................. 125
9. Ciclo trigonométrico ..................................... 128
10. Arcos côngruos ............................................. 129
11. Seno ................................................................. 133
12. Cosseno ............................................................136
13. Relação fundamental da trigonometria.139
14. Tangente .........................................................141
15. Cotangente, secante e cossecante ........... 143
16. Relações derivadas ..................................... 144
17. Equações e inequações trigonométricas. 146
18. Transformações trigonométricas ........... 153
19. Funções trigonométricas ........................... 155
Teste seu saber .................................................... 160

Capítulo 7
Sequências e progressões ......................... 165
1. Lei de formação .............................................. 165
2. Progressões aritméticas ............................... 167
3. Fórmula do termo geral da P.A. ................. 171
4. Soma dos termos da P.A. finita .................. 173
5. Progressões geométricas (P.G.) .................. 176
6. Fórmula do termo geral da P.G. ................. 179
7. Soma dos termos da P.G. finita ................... 181
8. Soma dos termos da P.G. infinita ............... 182
Teste seu saber .................................................... 186

Capítulo 8
Matrizes e determinantes ........................ 190
1. Definição .......................................................... 190
2. Tipo ou ordem de uma matriz .................... 191
3. Representação genérica de uma matriz .. 191
4. Igualdade de matrizes .................................. 193
5. Operações com matrizes .............................. 194
6. Casos particulares .......................................... 200
7. Determinantes ................................................ 203
Teste seu saber .................................................... 215

Capítulo 9
Sistemas lineares ...................................... 218
1. Definição .......................................................... 218
2. Equação linear ............................................... 219
3. Solução de uma equação linear ................ 219
4. Representação genérica de um sistema linea. 222
5. Representação de um sistema linear por meio de matrizes . 223
6. Sistema normal .............................................. 225
7. Regra de Cramer ........................................... 225
8. Classificação de um sistema linear .......... 227
Teste seu saber .................................................. 232

Capítulo 10
Análise combinatória e binômio de Newton.. 235
1. Princípio fundamental da contagem ou princípio multiplicativo . 235
2. Fatorial ............................................................ 240
3. Tipos de agrupamento ................................ 243
4. Permutações simples ................................... 244
5. Arranjos simples .......................................... 245
6. Combinações simples .................................. 247
7. Agrupamentos com repetição ................... 250
8. Números binomiais...................................... 254
9. Números binomiais complementares ..... 255
10. Números binomiais consecutivos .......... 257
11. Propriedade dos números binomiais consecutivos (Relação de Stiffel) .................. 258
12. Triângulo de Tartaglia-Pascal ................... 259
13. Binômio de Newton .................................... 260
14. Fórmula do termo geral ............................. 262
Teste seu saber .................................................... 265

Capítulo 11
Probabilidade e estatística ...................... 267
1. Definição ......................................................... 267
2. Elementos da teoria das probabilidades. 267
3. Experimento composto ............................... 269
4. Probabilidade de um evento ..................... 270
5. Probabilidade da união de eventos ......... 273
6. Probabilidade de um evento complementar. 274
7. Probabilidade condicional .......................... 275
8. Probabilidade da intersecção de eventos. 277
9. Lei binominal das probabilidades ............ 279
10. Estatística ....................................................... 280
11. Medidas de tendência central .................. 282
Teste seu saber .................................................... 284

Capítulo 12
Matemática financeira .......................... 288
1. Porcentagem ............................................... 288
2. Lucro e prejuízo ......................................... 290
3. Descontos e acréscimos ............................ 292
4. Acréscimos e descontos sucessivos ........ 294
5. Juro ................................................................. 298
6. Unidade de tempo ...................................... 298
7. Montante ...................................................... 299
8. Juro simples ................................................. 299
9. Juro composto ............................................. 303
10. Aplicação ou capital à taxa variável ... 304
11. Inflação ....................................................... 305
Teste seu saber ................................................ 307

Capítulo 13
Números complexos ................................. 310
1. Definição .......................................................... 310
2. Conjunto dos números complexos ............ 310
3. O número complexo ...................................... 311
4. Casos especiais ................................................ 311
5. As potências de i ............................................. 315
6. Igualdade de números complexos ............. 317
7. Conjugado de um número complexo ....... 318
8. Operações com números complexos ........ 318
9. Equações do 1º e 2º graus em C .................. 321
10. Representação gráfica – plano de Argand-Gauss. 323
11. Módulo de um número complexo ........... 324
12. Argumento de um número complexo .... 326
13. Forma trigonométrica ou polar dos números complexos. 327
Teste seu saber .................................................... 330

Capítulo 14
Polinômios e equações polinomiais ........ 333
1. Função polinomial ........................................ 333
2. Grau do polinômio ........................................ 335
3. Princípio de identidade de polinômios ... 336
4. Polinômio identicamente nulo .................. 337
5. Valor numérico de um polinômio ............ 337
6. Operações com polinômios ........................ 340
7. Método de Descartes .................................... 344
8. Equações polinomiais ................................. 348
9. Teorema fundamental da álgebra ........... 349
10. Teorema da decomposição ...................... 349
11. Multiplicidade de uma raiz ..................... 351
12. Teorema das raízes complexas .............. 352
13. Relações de Girard .................................... 355
Teste seu saber ................................................. 357

Capítulo 15
Geometria analítica .................................. 362
1. Introdução ....................................................... 362
2. Sistema de coordenadas sobre uma reta. 362
3. Distância entre dois pontos na reta real. 363
4. Coordenadas cartesianas............................. 363
5. Distância entre dois pontos de um plano. 366
6. Ponto médio de um segmento .................... 368
7. Baricentro ........................................................ 369
8. Condição de alinhamento de três pontos. 371
9. Inclinação de uma reta ................................ 373
10. Coeficiente angular de uma reta ............. 374
11. Equação da reta ........................................... 377
12. Determinando a equação da reta ........... 377
13. Equação reduzida da reta ......................... 380
14. Equação segmentária da reta.................... 382
15. Equação geral da reta ................................. 384
16. Posições relativas de duas retas ............... 386
17. Intersecção de retas .................................... 389
18. Condição de perpendicularismo ............. 390
19. Distância entre um ponto e uma reta .... 392
20. Definição de circunferência ..................... 394
21. Equação reduzida da circunferência ..... 394
22. Definição de elipse ...................................... 398
23. Equações da elipse ...................................... 398
Teste seu saber ................................................... 402

Respostas dos exercícios ......................... 406
Tabela trigonométrica ............................. 425
Tabela de logaritmos decimais ............... 427
Bibliografia ............................................... 430
Siglas de vestibulares .............................. 431



SUMÁRIO

Capítulo 1
O que são números? E numerais? ............. 11
Número e numeral são a mesma coisa? ........ 11
O sistema de numeração romano ................... 12
O sistema de numeração decimal ................... 14
Conjunto dos números naturais ...................... 15
Comparando números naturais ...................... 17
Teste seu saber ..................................................... 18

Capítulo 2
Conjuntos e sua linguagem ........................ 21
Representação dos conjuntos ........................... 21
Tipos de conjunto ................................................ 23
Operações com conjuntos ................................. 27
Teste seu saber ..................................................... 30

Capítulo 3
Operações no conjunto dos números naturais. 32
A adição de números naturais ......................... 32
A subtração de números naturais ................... 35
A multiplicação de números naturais ............ 37
A divisão de números naturais ........................ 40
A potenciação com números naturais ........... 43
A radiciação de números naturais .................. 48
Resolução de expressões aritméticas ............. 49
Teste seu saber ..................................................... 52

Capítulo 4
O divisor de um número ............................ 56
Critérios de divisibilidade ................................. 57
Os números primos e compostos..................... 61
Máximo divisor comum: o mdc ....................... 66
Mínimo múltiplo comum: o mmc ................... 69
Teste seu saber ..................................................... 72

Capítulo 5
Os números fracionários ........................... 74
A ideia da fração .................................................. 74
Operações com frações ...................................... 85
Propriedades das frações .................................. 88
Resolução de expressões numéricas .............. 89
Problemas com frações ...................................... 92
Teste seu saber ..................................................... 95

Capítulo 6
Os números decimais ................................. 98
A ideia de número decimal ............................... 98
Teste seu saber ................................................... 109

Capítulo 7
Sistema de medidas ................................. 112
Introdução .......................................................... 112
Unidades de superfície .................................... 115
Unidades de volume ........................................ 121
Unidades de massa ........................................... 126
Teste seu saber ................................................... 129

Capítulo 8
Os números inteiros ................................. 132
A ideia dos números inteiros ......................... 132
Números racionais relativos .......................... 143
Teste seu saber ................................................... 148

Capítulo 9
Equações e inequações do 1o grau .......... 151
Problemas do cotidiano ................................... 151
Resolvendo problemas com uma variável. 157
Inequações do 1o grau ..................................... 161
Sistemas de equações simultâneas do 1o grau. 166
Teste seu saber .................................................... 171

Capítulo 10
Razão e proporção .................................... 173
A ideia de razão .................................................. 173
Proporções ........................................................... 177
Média aritmética ............................................... 183
Divisão proporcional ....................................... 186
Regras de três ..................................................... 193
Porcentagem ....................................................... 199
Juro simples ......................................................... 202
Teste seu saber .................................................... 206

Capítulo 11
Cálculos algébricos .................................... 209
Considerações preliminares ............................ 209
Tradução em linguagem matemática ........... 210
Expressões algébricas ....................................... 210
Polinômios ........................................................... 214
Produtos notáveis .............................................. 223
Teste seu saber ................................................... 230

Capítulo 12
Fatoração algébrica .................................. 233
Casos de fatoração de expressões algébricas. 233
Máximo divisor comum entre expressões algébricas (mdc) ............................................... 245
Mínimo múltiplo comum entre expressões algébricas (mmc) ............................................... 247
Teste seu saber ................................................... 249

Capítulo 13
Frações algébricas ..................................... 251
O que é uma fração algébrica? ....................... 251
Operações com frações algébricas ................. 255
Teste seu saber .................................................... 262

Capítulo 14
O conjunto dos números reais .................. 265
Introdução ............................................................ 265
Equações do 2o grau com uma única variável. 270
Equações redutíveis a equações de 2o grau. 283
Equações irracionais ......................................... 285
Sistemas simples do 2o grau ........................... 289
Resolvendo problemas a partir de sistemas de 2o grau ................................................................... 291
Teste seu saber .................................................... 294

Capítulo 15
Funções: qual seu significado e aplicações?.. 297
Introdução ........................................................... 297
Relação x função ................................................ 297
O plano cartesiano ............................................. 300
Função do primeiro grau ................................. 303
Função do segundo grau .................................. 310
Teste seu saber .................................................... 322

Capítulo 16
Geometria .................................................. 325
Introdução ........................................................... 325
Linhas planas ...................................................... 329
Ângulos ................................................................. 331
Retas perpendiculares ...................................... 332
Medida de um ângulo plano ........................... 333
Operações algébricas com ângulos ............... 334
Classificação dos ângulos ................................ 336
Linha poligonal .................................................. 342
Estudo dos triângulos ....................................... 347
Congruência de triângulos .............................. 355
Perpendicularismo ............................................ 358
Paralelismo .......................................................... 358
Ângulos formados por duas retas paralelas cortadas por uma transversal ........................ 359
Relações de congruência entre os ângulos formados por duas retas paralelas e uma transversal. 360
Soma dos ângulos internos de um polígono convexo de n lados (Si) ..................................... 364
Soma dos ângulos externos de um polígono convexo de n lados (Se) ..................................... 365
Quadriláteros convexos .................................... 367
Paralelogramo ..................................................... 367
Trapézio ................................................................ 370
Linhas proporcionais nos triângulos ............ 373
Relações métricas no triângulo retângulo ... 375
Teste seu saber .................................................... 381

Capítulo 17
Trigonometria ........................................... 384
Medida dos ângulos e dos arcos .................... 384
Funções trigonométricas ................................. 387
Funções trigonométricas no triângulo retângulo. 389
Determinações de valores das funções trigonométricas dos ângulos de 30º, 45º e 60°. 391
Relações métricas em triângulos que não são retângulos. 398
Teste seu saber .................................................. 403

Capítulo 18
Circunferência .......................................... 408
Círculo................................................................... 409
Posições relativas de uma reta e uma circunferência. 411
Propriedade fundamental da tangente e da normal a uma circunferência ......................... 411
Posições relativas de duas circunferências. 411
Correspondência entre arcos e ângulos – medidas. 412
Relações métricas no círculo .......................... 414
Potência de um ponto com relação a uma circunferência. 416
Polígonos regulares ........................................... 418
Teste seu saber ................................................... 425

Respostas dos exercícios ......................... 428

Bibliografia ................................................ 455

***

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