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Educar na Verdade e nas virtudes

Menino escrevendo com sua irmã, 1875, Albert Anker

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Educar na Verdade: quando as virtudes superam a ciência, Por Claudio Titericz. disponível no LINK.

A ciência é valiosa, mas limitada. Só o intelecto humano, aliado às virtudes, pode alcançar a verdade — e a educação deve formar para isso. 

Gostaria de refletir sobre o entendimento do que seja ciência e como se relaciona com a educação. Faço isto porque, várias vezes, tenho ouvido em meios de comunicação que a verdade deve ser científica para ser considerada. Isto parece dar uma autoridade especial à ciência ou pesquisas científicas como se fossem a última palavra em conhecimento da realidade humana.

Entretanto, ao meditar o sexto livro escrito por Santo Tomás de Aquino, quando este realizou o comentário ao livro de Aristóteles intitulado “Ética a Nicômaco”, verificamos que o entendimento filosófico sobre o que seja a ciência não é corretamente compreendido. Vejamos o que diz o santo doutor católico.

A alma humana tem uma parte dita racional, a qual pode ser racional por essência ou por participação. Ainda, a parte por essência divide-se em científica e raciocinativa. Esta parte, que é dita por essência, necessita para seu desenvolvimento de virtudes intelectuais, enquanto a participativa exige um aperfeiçoamento por meio das virtudes morais.

A divisão da parte por essência dirige-se para a especulação do necessário, por isto chama-se “científica”, enquanto para especular os contingentes, se faz necessário a raciocinativa.

Devemos entender que para tomarmos uma decisão racional, o ser humano elege dependendo do seu intelecto e do seu hábito moral, fato que aperfeiçoa a força apetitiva, dando-lhe condições de utilidade, de deleitação e a busca do bem honesto. Podemos dizer que sem uma especulação científica e raciocinativa não se tem certeza de uma decisão ou julgamento.

Isto está de acordo com tudo o que já escrevi aqui em outros artigos. O ser humano tem uma alma com uma inteligência e uma vontade própria, sendo que esta última é cega, necessitando do esclarecimento da primeira. Esta busca da verdade, própria da inteligência, é o âmago do que estamos falando, enquanto a vontade sempre busca o bem para si e para os seus.

Existem, em suma, duas grandes obras próprias do homem: o conhecimento da verdade e a ação. Ambas as atividades se completam e exigem do intelecto o do conhecimento da verdade que só pode vir da prática ou raciocinativa, e da especulativa ou científica.

Nos atentarmos às considerações sobre a parte da alma racional por essência, uma vez que está diretamente ligada ao tema que desenvolvo aqui, ou seja, o chamado "conhecimento científico". Outras reflexões sobre os demais aspectos deixaremos para artigos futuros.

Para aperfeiçoar esta parte do intelecto são buscadas as virtudes intelectuais. São várias e as principais são: a ciência, a arte, a prudência, o intelecto e a sabedoria. Vamos entender cada uma delas.

As Virtudes Intelectuais e o alcance da Verdade

A ciência só o é do que seja eterno e nunca do contingente. Isto significa que os entes contingentes são incertos, podem ser ou não ser, enquanto os entes eternos, os quais são também chamados necessários, nunca poderão deixar de ser, nunca serão corrompidos e não se geram e é para estes que se volta a ciência. Ela é demonstrável e ensinável.

Aristóteles diz ser um sinal da ciência o poder ensinar e o modo de obter este ensinamento pode ser por indução ou por dedução. Neste primeiro modo se parte do particular para o universal e o segundo modo, também dito silogismo, parte-se do universal para o singular.

Já a arte é um fazer, mas não qualquer fazer, mas um fazer com o uso da razão. Nunca haverá arte sem uma razão e não há ação realizada com razão que não seja arte. Aqui fica claro que é um hábito voltado para os entes contingentes, pois uma arte pode ser realizada ou não, trata-se de coisas artificiais onde o fim é a própria arte realizada.

Também no campo dos contingentes, a prudência é aconselhar-se sobre o que vem a ser o bem útil, com o fim de produzir uma vida humana boa. É um hábito ativo com verdadeira razão, não acerca do factível, que são exteriores ao homem, mas acerca dos bens e dos males do próprio homem. A prudência não visa o fim no objeto construído, mas no próprio realizador, enfim o bem da ação está no próprio agente, está nos bens do homem.

O intelecto, na visão aristotélica, não é a própria potência intelectiva, mas sim um hábito voltado para os primeiros princípios, os quais por serem os primeiros são indemonstráveis. É necessário que exista no ser humano esta percepção de que existe um princípio de raciocínio, sem o que não podemos pensar coisa alguma.

Por último, vemos que a sabedoria é uma virtude intelectual por excelência. Por este hábito o ser humano tem a visão clara da causa final, determinando, portanto, diante do início de qualquer processo, o resultado a que vai se atingir com as ações planejadas, caso sejam realizadas. A sabedoria enxerga os princípios, aponta os erros e identifica a linha de causalidade, demonstrando com certeza os resultados.

Ciência, indução e o risco das Verdades Provisórias

Depois de apresentar estas principais virtudes intelectuais, acredito poder aprofundar meu ponto de vista sobre o que seja a ciência e de como está sendo utilizada indevidamente.

Bem, a ciência é um hábito demonstrativo e que se utiliza do conhecimento adquirido para, a partir deste, evoluir para novas conclusões. São dois os modos de realizar a intelecção na ciência, como já abordei acima, a indução e a dedução.

A dedução nos conduz sempre a uma verdade inquestionável. Vou dar um exemplo: o todo é maior que as partes. Outro exemplo característico da filosofia é o silogismo categórico, onde eu digo: todo homem é mortal, eu sou um homem, portanto, eu sou mortal.

Podemos verificar a certeza e a correção lógica, fatos que não afrontam o raciocínio intelectual de forma alguma e a conclusão será uma verdade e, como tal, não pode ser contestada, seja no ontem, no hoje ou no amanhã, seja aqui neste mundo ou em qualquer outro planeta. A verdade é eterna.

Agora, na indução, os princípios universais do que se busca não são conhecidos e parte-se do particular, do singular, para o universal. Neste caso, os resultados por vezes se aproximam de uma verdade, sem nunca garantir totalmente esta verdade. Assim, quase sempre os resultados de uma indução são expressos em probabilidades.

Algum leitor poderia perguntar se este método não traz certeza, por que o realizar? Responderia que, infelizmente, não temos condições de buscar respostas para todos os questionamentos que a humanidade procura utilizando a dedução, neste caso resta-nos a indução. Vejamos alguns exemplos.

Diante da pergunta: como surgiu a Terra? Como não temos informações para deduzir a resposta, partimos para a indução, ou seja, verificamos os resultados que nos aparecem e inferimos as suas causas.

Neste caso, é formulado uma teoria, a qual diz ter ocorrido uma grande expansão há 14,5 bilhões de anos e de lá ocorreu um movimento até que há 4,5 bilhões de anos surge a nossa Terra. Outra teoria é sobre como a humanidade surgiu após estes 4,5 bilhões de anos. E mais uma teoria se forma.

Vejam, não é possível ter a certeza, apenas probabilidades e se montam modelos que subsistem até que surgem novas observações e experiências que levam a aperfeiçoamento ou mudanças completas da teoria vigente. Poderia citar o embate entre Einstein e Newton como um exemplo de mudança de teoria e de modelo científico.

Acredito poder demonstrar que é aqui, no raciocínio indutivo, que se encaixa a ciência. Quando é impossível ter conclusões certeiras nos temas onde não há possibilidade da dedução, é aqui que podemos utilizar nossa capacidade intelectual na avaliação de experiências e verificar a relação causal nestes testes, verificando probabilidades de resultados. Também aqui é onde a sabedoria será mais necessária, quando se interpretam resultados muitas vezes anômalos.

Desta forma, quando nos apropriamos de resultados experimentais realizados em órgãos sérios, tais como uma universidade por exemplo, pode nos dar uma ideia de probabilidade, mas nunca a certeza do resultado. Pode por vezes ser apresentado sob um verniz acadêmico uma informação que no fundo não passa de uma probabilidade, nunca uma verdade.

Não podemos esquecer que a verdade não é a narrativa. Fica claro que muitas pessoas e meios de comunicação dizem a mesma coisa, não significa que esta informação seja correta.

Muitas vezes é apenas um modelo adotado até que as ciências experimentais tragam mais teste e mais dados no raciocínio indutivo e possibilita que se monte um modelo, ou se altere um anterior. Quando nos deparamos com a verdade, esta nunca muda, me parece óbvio.

Com esta rápida reflexão, podemos concluir que a educação e o ensino têm papeis fundamentais em todo este processo que envolve a ciência.

"É na formação da inteligência que se deve voltar a educação para enfrentar estes desafios indutivos que acompanham a sociedade moderna"

Verificamos que o foco educacional deve ser o desenvolvimento das virtudes e que aqui apenas falamos das intelectuais.

O ser humano otimamente educado buscará realizar ações, para isto deverá saber uma arte, a qual está fundada em uma ciência, deverá realizar esta arte com prudência e sabedoria, utilizando plenamente o seu intelecto. A tecnologia em si é ignorante sem uma inteligência que a direcione para o bem.

Identificar vários órgãos nacionais e internacionais que se arvoram em resultados acadêmicos, os quais são sempre indutivos, para aplicarem recursos com a finalidade de obter resultados financeiros, independentemente das consequências negativas, por vezes óbvias.

A ciência parte sempre de algo conhecido, tal qual a mente humana, mas não tem como saber a priori os resultados, e aí realiza testes e experiências buscando sequências lógicas para formular teorias. Quanto mais testes, mais perto de resultados satisfatórios, entretanto, nunca se atingirá a certeza, ou seja, a verdade do que se explora.

Por fim, os métodos experimentais não têm a capacidade de apontar as causas, tão somente a inteligência humana pode fazer isto. A verdade está no intelecto, não fora dele. Também gostaria de deixar claro que suspeitas e opiniões não são virtudes intelectuais, mesmo partindo de personalidades daquela área de estudos.

Os verdadeiros cientistas são humildes o suficiente para dizer que não sabem e estão buscando o conhecimento e aquilo que já sabem serão aprimorados pelos seus seguidores. A ciência é um excelente auxiliar para a natureza humana, mas não é uma formuladora de verdades.

***

Claudio Titericz, coronel reformado do Exército, é bacharel, mestre e doutor em Ciências Militares e bacharel em Teologia; estudante permanente de Filosofia da Educação e ex-integrante do Ministério da Educação e é um dos fundadores do Instituto de Biopolítica Zenith, autor do livro “O Problema da Educação Brasileira”.

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Leia mais em O declínio da escola tradicional

Leia mais em A diferença entre a Educação Clássica e a atual



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A Matemática e a Arte


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A Arte e a Matemática, por A.O.I. Disponível no LINK.

O número cria ordem, a ordem contém ritmo, o ritmo engendra harmonia, e a harmonia está prenhe de beleza. O ritmo plasmado pelo número é uma ordenação determinada dos tempos.

O Nascimento de Vênus, por Sandro Botticelli, 1482.
A posição no espaço dos personagens é submetida à regra do retângulo
de ouro. As dimensões da obra (172,5 cm X 278,05 cm) correspondem
exatamente ao formato de um retângulo de ouro.

A realidade é um número — afirmava Pitágoras de Samos — e Euclides considerava a matemática mais como uma arte do que como uma ciência. Proclo expressa no seu Comentário a Euclides: “Ali onde há número, há beleza”, e esta frase poderia inverter-se dizendo que onde há beleza, há número. “O número vive na arte”, afirmava Santo Agostinho, e no seu Tratado da Música inclui os números e o ritmo como princípios estéticos e cosmológicos. São Tomás de Aquino compreendeu que entre a beleza e a matemática existia uma relação direta, válida tanto para a beleza natural como para a obra de arte realizada pelo homem. Leibniz escreveu: “A música é um exercício de aritmética secreta; quem se entrega a ela ignora que está a operar com números.” “A arte é a expressão mais elevada de uma aritmética interior e inconsciente.”

O número cria ordem, a ordem contém ritmo, o ritmo engendra harmonia, e a harmonia está prenhe de beleza. O ritmo plasmado pelo número é uma ordenação determinada dos tempos.

Platão, no Timeu, fala-nos do sincronismo dos ritmos da “Alma Individual” e da “Alma Universal”. Quando esta alma está bem harmonizada, quando entre o ritmo do homem (microcosmo) e o ritmo do Universo (macrocosmo) existe proporção, harmonia e concórdia, a beleza resplandece. Para Platão, a Beleza é o esplendor da Verdade.

A Natureza é, sem dúvida, uma manifestação de ritmos harmônicos. O homem, no seu anseio de eternidade, cria — como um fazedor de ritmos — um espelho de Deus: a Natureza criada por Deus. E quando o homem cria a beleza na sua face epidérmica, aparente (a forma), a chamada “natura naturata” (segundo Aristóteles, no século XVII) identifica-se com a “natura naturans”, o Ser absoluto. Por isso, quando o homem, com esse sentido imitativo ontológico, transcende as barreiras limitantes do não-ser e, numa atitude de verticalidade, capta o Absoluto, eterniza-se.

Fig. 1: Pitágoras.


Pitágoras situava a felicidade suprema (eudaimonia da alma) na contemplação da harmonia dos números.

Para os pitagóricos, toda a Natureza estava ordenada conforme o número. Estes celebravam juntos, no falanstério principal, o sétimo e o quinquagésimo dia. Essa escolha era motivada pelo carácter sempre virgem do número sete, pois este não podia ser produto nem primo indivisível; porque, se é possível dividir um círculo em doze ou em seis partes, não é possível — como demonstra a geometria — dividi-lo em sete. Desde o século XIX, Gauss, no início dos anos 1800, estudou o número sete na sucessão euclidiana rigorosa em sete partes iguais. Isso levou à “virgindade” do número sete, não numerosa, nos tons atômicos lógicos dos Padres da Igreja.

Ele encontra também, para os pitagóricos, o mais santo e natural dos números, porque equivale à soma de $9 + 16 + 25$ (soma resultante dos quadrados construídos sobre o “triângulo mágico”, também chamado triângulo de Pitágoras, de relação 3-4-5) e ao produto da pentade e da década (5 x 10 = 50), que representam, respetivamente, o microcosmo (o homem) e o macrocosmo (o Universo).

Fig. 2: O Homem Vitruviano.


Estudo da proporcionalidade de um corpo humano (Leonardo da Vinci, cerca de 1500, Veneza, Gallerie dell’Accademia).

Inscrito em um quadrado (conforme Platão, símbolo do elemento terra) e em um círculo (símbolo do cosmos como todo), torna-se um símbolo da correspondência matemática entre microcosmo e macrocosmo.

O Número de Ouro (Divina Proporção ou Secção Áurea) rege o jogo das proporções do triângulo pentagonal ou decagonal e também o mágico triângulo sagrado 3-4-5. A Proporção Áurea é a expressão geométrica do Número de Ouro aritmético. A Proporção Áurea e o Número de Ouro são constantes tangíveis, a nível matemático, da Proporção Divina.

O curioso é que podem ser realizadas aritmeticamente e geometricamente, mas não podem ser captadas nem apreendidas pela razão; daí que o número Phi seja denominado incomensurável na aritmética, e a razão deva contentar-se apenas em compreender que não pode compreendê-lo. Por isso, é um número ou relação presente que o homem capta intuitivamente na sua ação de Ser, quando, como microcosmo, opera em harmonia com o macrocosmo, o Universo.

No século XIII, Leonardo da Pisa — conhecido geralmente como Fibonacci — tentou resolver o problema da proliferação dos coelhos e observou, com assombro, que estes se reproduziam de acordo com a seguinte progressão: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, … etc. Tomando a relação a partir do número 34 e do seu antecessor, estabeleceu-se uma constante de 1,618…, que não é outra senão o Número de Ouro. Fibonacci também observou que esta série se encontrava nas plantas e em todo o reino animal.

Fig. 3: O número de ouro é a constante obtida a partir da proporção áurea.


Leonardo Da Vinci, Luca Pacioli, Piero Della Francesca, León Battista Alberti estudaram com paixão o Número de Ouro durante o Renascimento. Dürer viajou especialmente até Bolonha para se iniciar nos mistérios da Seção Áurea, e escreveu num dos seus textos que “o comovia menos ver reinos desconhecidos do que conhecer as suas teorias”. Em Veneza esteve em contato com Frei Luca Pacioli. O seu quadro mágico e enigmático “A Melancolia” nasceu nessa época, e o seu talento viria a nutrir a ciência da arte na Alemanha. Na realidade, o último a celebrar o misticismo e as virtudes mágicas do Número de Ouro foi Kepler.

Estes notáveis homens compreenderam que a Criação traz implícito um ritmo no tempo e uma ordenação no espaço. Que tudo possui uma ordem, uma harmonia, uma simetria que lhe é própria, traçada pelo “Grande Geômetra” ou “Arquiteto Divino”, Deus. Que os corpos da Natureza, quando estão em ressonância com essa “grande harmonia”, estão de acordo com o “grande traçado”, com o “grande plano”, e operam num crescimento harmonioso.

Essa harmonia percebe-se desde o infinitamente pequeno — os átomos (microcosmos) — até o infinitamente grande — o Universo (macrocosmos). O homem está colocado entre o infinitamente pequeno e o infinitamente grande, mas tem um dilema a resolver que se chama “livre-arbítrio”; e pode, portanto, agir de acordo com o “grande plano”, realizando ações belas, estando em harmonia, unindo-se e obedecendo ao imperativo categórico do seu Ser, ou pode não estar em concordância e agir de forma antiestética, obedecendo ao seu não-Ser. É neste conflito que o homem se desfaz.

O homem capta a beleza no seu agir ético no mundo, e o resultado desse agir ético — configurado por ações belas — serão objetos belos, estéticos, obras de arte que refletirão o esplendor da Verdade.

Neste século, homens de talento como Möesel, Theodoro Cook, Jay Hambidge, Hans Kayser e Matila Ghyka, entre outros, retomaram o estudo do Número de Ouro. Isso levou o célebre empirista lógico inglês Bertrand Russell a escrever, provavelmente muito a contragosto, em 27 de setembro de 1924, na revista The Nation: “Talvez o mais estranho da ciência moderna seja o seu regresso ao pitagorismo.”

É de esperar que assim seja — e que a austera claridade da tocha trazida do Egito por Pitágoras, portadora do divino Platão, ilumine a Humanidade, para que esta possa contemplar a beleza mística do Número Puro e a Harmonia Celeste da Música das Esferas. 

Texto publicado originalmente na Revista Tot, Buenos Aires, Abril 1972

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Leia mais em A Matemática leva a Deus: Euclides, Hilbert e o futuro da Matemática

Leia mais em Número de ouro, coelhos e Fibonacci



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Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 5

Rose e Bertha Gugger, por Albert Anker, 1883.

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Continuando com nossas tradicionais listas de livros sobre Educação, já chegamos à quinta parte. Essas listas tem sido um sucesso de acessos. Muito Obrigado. O critério destas listas continua sendo o mesmo: livros sobre educação sem influências ideológicas e que estivessem preocupados em explanar sobre uma verdadeira educação. Novamente muitos desses livros foram publicados pela primeira vez ou republicados recentemente no Brasil. Obviamente esta lista complementa e amplia as listas anteriores. 

As listas anteriores estão abaixo: 

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 1

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 2

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 3

Lista de livros sobre a Educação verdadeira - parte 4



A Tradição Das Artes Liberais. Kevin Clark e Ravi Scott Jain, Edições Kírion, 2021.

Sinopse: Este livro é sobre uma educação completa nas “artes liberais”, as disciplinas fundamentais que os estudantes terão como base pelo resto de sua vida acadêmica, independentemente das disciplinas especializadas que venham a estudar no futuro, na faculdade e na pós-graduação. Acima de tudo, são disciplinas que precisamos conhecer para a vida, para uma vida que seja livre e não servil (donde o termo educação liberal). É uma educação da pessoa integral. Baseia-se na tradição consagrada da educação liberal inventada pelas maiores mentes da história. É o melhor do antigo e o melhor do novo. ― Peter Kreeft 

Todo educador, acadêmico ou leitor interessado na renovação da educação clássica hoje não pode dar-se ao luxo de ignorar este livro sucinto. A tradição das artes liberais, talvez mais do que qualquer outro livro no século XXI, nos diz o que foi a educação clássica e o que ela pode ser hoje nas nossas escolas e na educação domiciliar. ― Christopher Perrin 

A tradição das artes liberais é um grande presente para as mães adeptas da educação domiciliar. Escrito com beleza, tem cada página agraciada pelo encanto da verdade. Um antídoto para a minha própria educação progressista, este livro reordenou os meus pensamentos e prioridades. Trata-se de um convite irresistível para voltarmos à humanidade, à plenitude e ao maravilhamento. ― Lesli Richards



A Beleza na Palavra: As bases da educação repensadas. Stratford Caldecott, Edições Kírion, 2024.

Sinopse: Stratford Caldecott fala àqueles pais e professores que pretendem tomar de volta para si a responsabilidade sobre a educação, seja tirando seus filhos das escolas para educá-los em casa, seja, especialmente, fundando novas escolas, que tenham na base os seus princípios, os seus valores, que tenham respeito pela fé e, como objetivo último, a sabedoria. Para isso, é necessário compreender as premissas que tornam possível uma verdadeira educação e, sobretudo, compreender a essência da educação clássica, para saber como aplicá-la, como atualizá-la eficazmente em nossa situação concreta de hoje, e não apenas reproduzir esquemas engessados. Investigando suas bases filosóficas e teológicas, Caldecott brinda-nos aqui com uma interpretação renovada das três artes do Trivium, as artes da Palavra ― gramática, dialética e retórica ―, que ele apresenta como as três atividades humanas (e divinas) de “recordar”, “pensar” e “falar”.

Essa é uma educação firmada na realidade ― a realidade do mundo e das pessoas. A criança, pela memória, percebe a realidade; mais velha, pelo pensamento, explora mais realidades; já jovem, pela fala, ela compartilha as realidades com os outros, em uma comunidade. É uma educação em que a luz atravessa o coração e a inteligência. Depois de uma longa jornada nas profundezas da monotonia e do desânimo, é como se esse sábio e alegre homem finalmente nos chamasse para subir e ver com ele, outra vez, as estrelas.”

Anthony Esolen



A educação segundo Aristóteles. Traduzidos e editados por John Burnet. Edições Kírion, 2023.

Sinopse: Este volume é composto por trechos extraídos da Ética a Nicômaco e da Política de Aristóteles, editados e traduzidos pelo grande helenista escocês John Burnet, que os emoldura, além disso, com uma esclarecedora introdução e com riquíssimas notas de rodapé. Seu objetivo é revelar, com toda precisão, o que é a educação segundo Aristóteles, e que lugar ela tem no contexto geral de sua filosofia, com base em suas próprias concepções. Para tal, ele expõe a teoria das causas, e os conceitos de ação, virtude e felicidade; explana qual é, para o filósofo, o bem do homem, e o que é exatamente a ciência política. Como admirável professor, Burnet nos conduz de tal modo que, quando nos entregamos à leitura dos textos mesmos, o que antes pareceria árido deixa transparecer facilmente todo o seu sentido.



Emburrecimento Programado: O Currículo Oculto Da Escolarização Obrigatória. John Taylor Gatto, Edições Kírion, 2019
 
Sinopse: O debate atual sobre termos um currículo nacional é uma farsa. Já temos um currículo oculto cujo objetivo é emburrecer, e nenhuma mudança nos conteúdos pode reverter seus efeitos macabros. As escolas ensinam exatamente o que pretendem, e o fazem muito bem: elas são um mecanismo de engenharia social. Está na hora de encararmos o fato de que a escola obrigatória é nociva para as crianças e que fazer remendos não resolverá o problema. A culpa não é dos professores ruins ou da falta de investimento: injetar mais dinheiro ou mais gente nessa instituição doente fará apenas com que ela fique ainda mais doente. Se queremos mudar o que está rapidamente se transformando num desastre de ignorância, temos de compreender que a instituição escolar serve para “escolarizar”, mas não para “educar”, e que “educar” e “escolarizar” são termos mutuamente excludentes. É urgente ignorarmos as vozes autorizadas da televisão e da mídia e recuperarmos as premissas fundamentais de uma verdadeira educação.



Armas De Instrução Em Massa.  John Taylor GattoEdições Kírion, 2021.

Sinopse: Será que precisamos mesmo da escola? Não me refiro à educação, mas à instrução institucional: seis aulas por dia, cinco dias por semana, nove meses por ano ― por doze anos. Essa rotina extenuante é realmente necessária? É considerável o número de homens notáveis ― artistas, empresários, escritores e eruditos ― que não passaram por esses torturantes anos e se deram muito bem. Alguém os ensinou, é claro, mas eles não são produtos de um sistema escolar, e nenhum deles jamais “se formou”. Nós fomos instruídos a pensar que “sucesso” é sinônimo de “escolaridade”, mas isso não é historicamente verdadeiro, nem no sentido intelectual, nem financeiro. Se realmente quiséssemos, seria fácil ajudar as crianças a adquirirem uma educação em vez de apenas receberem uma instrução em massa. Mas os professores, como funcionários da escola, estão presos em estruturas ainda mais rígidas do que aquelas que impõem às crianças. De quem é a culpa, então? E se não houver um “problema” com as nossas escolas? E se elas são como são, não porque estão fazendo algo errado, mas por estarem acertando?



Etymologiae: De Isidoro de Sevilha, Traduzido por Ariel Placidino Silva, Editora Uiclap 2023.

Sinopse: A monumental Etymologiae de Isidorus Hispalenses, na íntegra e em volume único. Em colunas paralelas dispondo o texto original e sua tradução, a obra é uma edição bilíngue apresentada como a única em língua portuguesa. | “Isidoro de Sevilha, salientando-se como enciclopedista, teólogo e historiador, escreveu A Etymologiae, qual durante séculos, foi tida por uma das mais valiosas obras de referência. A póstumo, esse notável acervo de conhecimento tornou-se uma coleção obrigatória nas bibliotecas medievais, e suas etimologias se transmitiram até o fim do século XIV. “ ― Ariel P. S.
Isidoro de Sevilha, em lat. Isidorus Hispalenses, doutor da Igreja, nasceu em Cartagena c, 560 e morreu em Sevilha em 636. Sucessor de seu irmão Leandro como arcebispo de Sevilha 600). Presidiu em 633 um concilio em Toledo. Salientando-se como enciclopedista, teólogo e historiador, reuniu em Etymologiae notável acervo dos conhecimentos de seu tempo, o que as tornou durante séculos, uma das mais valiosas obras de referência. Além de autor de vários tratados, nos campos da linguística, da ciência natural, da história e da cosmologia, foi o organizador da Igreja da Espanha e combateu os visigodos arianos. Proclamado doutor da Igreja em 1722, é festejado a 4 de abril. 
Etymologiae (Etimologias) é uma enciclopédia em vinte volumes. Segundo Isidoro, a natureza primitiva e a essência das coisas se reconhecem pela etimologia dos nomes que as designam. A enciclopédia de Isidoro era obrigatória nas bibliotecas medievais, e suas etimologias se transmitiram até o fim do século XIV. Essa obra monumental abrangia desde a gramática, a retórica, e a dialética, passando pelas línguas, pelos povos, Estados, famílias, a agricultura, a horticultura a marinha, o vestuário, as artes domésticas, os instrumentos, até os membros da Igreja, os anjos e Deus.” Encyclopaedia Brtinannica do Brasil [Mirador]  Filosofia Patrística (35.-1).



Fundamentos e Fins da Educação. Francisco Ruiz Sánches. Editora Verbo Encarnado, 2025.

Sinopse: um livro essencial que denuncia ideologias totalitárias na educação e apresenta uma filosofia realista baseada em Santo Tomás de Aquino.
Reflexão perene para pais e educadores que buscam verdade, objetividade e transcendência no ensino.
Fundamentos e Fins da Educação
Este livro, justamente por conter uma filosofia realista sobre o homem e a educação, conserva seu valor perene numa época de enorme confusão. Uma época em que, em muitos lugares, o Estado moderno se erige autoritário, impondo um pensamento único sobre educação, até mesmo negando aos pais esse direito sobre os filhos. Manifestação esta do totalitarismo marxista na educação – fortemente denunciado neste livro – tendo seu auge na segunda metade do século passado, e que hoje, subjacente, procura se impor disfarçado com outros nomes que nada mais são do que desdobramentos do mesmo marxismo, tais como o feminismo radical, o transumanismo ou a famigerada “teoria de gênero” ou gender.
O valor perene do pensamento contido neste livro reside no fato de se fundamentar na filosofia do ser, tendo Santo Tomás de Aquino como seu principal guia, cuja eleição como mestre lhe confere precisamente um caráter objetivo, universal e transcendente. Porque o pensamento de Santo Tomás esteve sempre no horizonte da verdade universal, objetiva e transcendente.


Educação Católica. Mario Casotti, Editora Verbo Encarnado, 2022

Sinopse: Neste livro, Mário Casotti vai na contramão da corrente relativista em voga na educação de hoje em dia. Em Educação Católica, o autor parte do princípio de que a fé representa um aspecto essencial do homem e não somente uma relação de confiança, pois inclui realmente a aceitação das verdades reveladas por Deus. Agora, se a educação é uma atividade que visa a formação do ser humano na Verdade, todo sistema pedagógico que exclua a fé e as verdades reveladas será, por definição, incompleto. 




Mestre e Aluno. Mário CasottiEditora Verbo Encarnado, 2025.

Sinopse: análise profunda da educação moderna, denunciando ideologias totalitárias e defendendo a liberdade dos pais.
Baseado na filosofia de Santo Tomás de Aquino, oferece uma visão objetiva e universal para formar mentes e corações em busca da verdade.
Mestre e Aluno
Mário Casotti é, sem dúvidas, um dos maiores representantes da pedagogia contemporânea italiana. Seu grande mérito foi o de reconduzir a arte pedagógica aos fundamentos ontológicos, antropológicos e gnosiológicos da filosofia perene de Santo Tomás de Aquino. Transcorridos, porém, quase 50 anos de sua morte, seu fecundo pensamento e sua vasta obra caíram em um quase que total esquecimento. Parece que a boa semente terminou sufocada pelos pedregulhos e pelos espinhos do mundo impregnado de tantas ideologias que descendem, de um modo ou de outro, do materialismo e do idealismo.
Essa semente, contudo, não morreu. Ela permanece dormente aguardando uma terra fértil para poder dar seus frutos. Deus permite o mal, dispondo em sua providência que dele redunde um bem muito maior. Os estragos que o pensamento moderno e pós-moderno causaram parecem ter sido também a ocasião para um renovado interesse no pensamento do Doutor Angélico que estamos presenciando nos últimos anos. Um renascimento das cinzas que tem mostrado inclusive aqui, na Terra de Santa Cruz, um ímpeto notável.


Escritos Pedagógicos, de São João BoscoEditora Verbo Encarnado, 2025.

Sinopse: Os escritos pedagógicos de São João Bosco constituem um tesouro inestimável para a Igreja e para o mundo da educação. Neles, o Santo não apenas deixou um método educativo, como também um espírito, uma forma de entender a vida e a missão de guiar os jovens para o bem, a verdade e a beleza. Sua obra transcende o tempo e continua a iluminar o caminho de todos aqueles que se dedicam à nobre missão de educar.
Dom Bosco acreditava firmemente que a educação deveria ser integral, formando não apenas o corpo e a mente, como também o coração e a alma. Como afirma São João Paulo II, “a tarefa primária e essencial da cultura em geral, e mesmo de cada cultura em particular, é a educação, que consiste em fazer com que o homem seja cada vez mais homem, que possa ‘ser’ mais e não apenas ‘ter’ mais” (Carta Iuvenum Patris, n. 1). Para Dom Bosco, o homem formado e maduro é o cidadão que tem fé, aquele que coloca no centro de sua vida o ideal do novo homem proclamado por Jesus Cristo, e que testemunhe sem respeito humano, suas convicções religiosas.



Educação, Cultura e Maturidade. Miguel Ángel Fuentes, Editora Verbo Encarnado, 2022.

Sinopse: A Educação Pede Socorro. O Brasil nunca precisou tanto de obras que tratassem do tema educação como agora. Todos os anos, bilhões de reais investidos nesta área são jogados no lixo por causa da falta de uma verdadeira educação.
Os alunos saem dos centros educacionais reféns de um analfabetismo funcional e dos delírios de uma mente ideologizada. Nenhum dos sistemas educacionais em vigor propõe uma formação integral do ser humano.
Neste livro você aprenderá os princípios de uma verdadeira educação católica.
Educação, Cultura e Maturidade, de Pe. Miguel Ángel Fuentes, IVE
Além de tratar da educação e da maturidade, em Educação, Cultura e Maturidade, o Pe. Miguel Ángel Fuentes pretende explicar as raízes históricas e pedagógicas do problema da educação contemporânea e propor sua solução: o retorno à boa e sã filosofia, iluminada pela teologia.
Um bom método de estudo que desenvolva a integridade da pessoa humana é a chave para fazer com que o homem se reencontre consigo mesmo e, sobretudo, com Deus.



A imaginação educada. Northrop Frye, Editora Sétimo Selo, 2024.

Sinopse: Nenhuma sociedade humana é tão primitiva que não tenha alguma espécie de literatura. No entanto, é muito comum pensar no estudo literário como um métier elegante. Afinal de contas, o que é a literatura? De que adianta e como ensiná-la? Qual é seu valor social, político e religioso? Ajuda ela a pensar com mais clareza, a perceber com mais sensibilidade ou a viver melhor? Qual é o lugar da imaginação no processo de aprendizagem? E mais importante: é possível educar a imaginação? São estas e outras perguntas a que Northrop Frye, um dos influentes críticos literários do século XX, procura responder. Mais do que dicas pontuais, o leitor encontrará neste livro uma concepção abrangente de educação, de literatura e de mundo, capaz de orientar um processo pedagógico desde o início.



Educação Católica e Homeschooling. Kimberly Hahn e Mary Hasson, Editora Ecclesiae, 2021.

Sinopse: Unido a teoria e a prática, o secular e o sagrado, este livro compreende desde o planejamento e o conteúdo do ensino domiciliar, com sugestões de métodos e materiais, até a formação espiritual das crianças no seio da família. As autoras explicam os benefícios e objetivos do homeschooling, além de responderem aos principais questionamentos sobre ele. Elaborada por duas mães educadoras de comprovada experiência, a obra é um guia de como os pais podem edificar seu lar de modo que seus filhos estabeleçam um relacionamento pessoal com Deus, em primeiro lugar, e recebam a melhor formação humana e intelectual possível.



Educação Católica: guia para pais e educadores. John D. Redden e Francis A. Ryan, Editora Minha Biblioteca Católica, 2026. [Este livro foi publicado pela Livraria Agir Editora em 1973 sob o título de Filosofia da Educação].

Sinopse: Educação Católica Educação Católica: guia para pais e educadores | Filosofia da educação católica. Livro de John D. Redden e Francis A. Ryan sobre os fundamentos da educação católica. Indicado para pais e educadores interessados na formação segundo a tradição da Igreja.
Educação Católica: guia para pais e educadores, de John D. Redden e Francis A. Ryan, é uma obra clássica que apresenta com clareza e profundidade os fundamentos da educação inspirada na tradição católica. Baseado na filosofia escolástica e na compreensão integral do ser humano, o livro mostra como a formação cristã deve abranger corpo, inteligência, vontade e vida espiritual, orientando o educando para sua finalidade última em Deus.
Ao longo de suas páginas, os autores explicam por que a educação não pode ser reduzida a técnicas pedagógicas ou a teorias modernas passageiras. Para eles, toda educação depende de uma visão verdadeira do homem e da realidade. A partir dessa perspectiva, a obra apresenta os princípios permanentes da filosofia católica da educação e analisa criticamente correntes modernas que reduzem o homem a dimensões apenas biológicas, sociais ou econômicas.
Os autores também demonstram que a educação católica busca formar o homem integral, desenvolvendo harmoniosamente todas as suas capacidades. Por isso, a verdadeira educação não se limita à instrução intelectual: ela envolve também a formação moral, espiritual e cultural, preparando o indivíduo para viver a verdade, praticar a virtude e contribuir para o bem comum.
Trata-se, portanto, de um livro especialmente valioso para pais e educadores que desejam compreender a missão formativa da educação à luz da fé católica e da tradição filosófica cristã.

Quem foram John D. Redden e Francis A. Ryan
John D. Redden (1903–1959) e Francis A. Ryan (1887–1955) foram educadores e pensadores católicos dedicados ao estudo da filosofia da educação. Atuaram na formação de professores e na reflexão pedagógica no meio acadêmico ligado à tradição católica nos Estados Unidos.
Seus estudos buscaram integrar a tradição filosófica clássica — especialmente a herança aristotélico-tomista — com os desafios educacionais da sociedade moderna. A obra tornou-se uma referência importante para escolas, universidades e programas de formação docente interessados em compreender a educação à luz da tradição cristã.




A Mente Bem Treinada: Um Guia Para Educação Clássica Em Casa. Susan Wise Bauer e Jessie Wise, Editora Klasiká Liber, 2021.

Sinopse: Após quarenta anos de experiência em educação, Jessie e Susan Wise chegaram a uma simples conclusão: se você deseja que seu filho tenha uma educação excelente, precisa assumir o comando pessoalmente. Você não tem de reformar o sistema escolar inteiro, nem deve se preocupar com o falatório sobre a complexidade da formação de um professor. Tudo o que você tem de fazer é ensinar seu próprio filho. Esqueça tudo o que ouviu sobre a necessidade absoluta das salas de aula e sobre psicopedagogia: essas coisas são necessárias para um professor que tem de encarar uma turma de trinta crianças em ebulição ou de vinte adolescentes desligados, mas a sua tarefa é inteiramente diferente. Tudo que você precisa para ensinar seu filho em casa é dedicação, algum conhecimento básico sobre como as crianças aprendem, uma boa orientação nas habilidades específicas de cada matéria e uma grande quantidade de livros. “A mente bem treinada” oferece tudo isso a você ― exceto a dedicação. Eis um manual completo de educação clássica, que o ajudará a ensinar seus filhos a ler, escrever, calcular, pensar e entender.

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Sobre o Latim Medieval

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Tempo de leitura: 43 minutos. 

Apresentamos o Prefácio e a Introdução do livro Aprenda o latim medieval: manual para um grande começo de Monique Goullet e Michel Parisse, Editora da Unicamp, 2019. 

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

Marcelo Santiago Berriel

Quando, em 2012, a professora Monique Goullet ministrou uma oficina de latim medieval organizada pelo Núcleo de Estudos sobre Narrativas e Medievalismos (Linhas) e realizada nas dependências do campus de Nova Iguaçu da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, estudantes e pesquisadores brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer, na prática, o método cuidadoso e prático do Apprendre le Latin Médiéval - Manuel pour grands commençants, obra de inestimável contribuição aos estudos medievais de autoria da professora em questão e de Michel Parisse. Os autores do manual dispensam apresentações, suas publicações e pesquisas os notabilizam há décadas. Cabe-nos aqui apenas ressaltar a importância da edição desta obra que chega ao público lusófono.

Publicado em 1996 (e sempre reeditado desde então), o manual ganha agora sua versão em língua portuguesa. Versão que não se caracteriza apenas por ser uma importante ferramenta para estudantes e pesquisadores, mas também por ser produto de um volumoso trabalho em equipe envolvendo pesquisadores de três países. Ao lado dos pesquisadores brasileiros do Linhas, trabalharam zelosamente os pesquisadores do Centro de Estudos Clássicos, da Universidade de Lisboa, além, obviamente, do acompanhamento sempre atento de Monique Goullet.

Desde que o projeto para esta tradução foi iniciado, os professores do Linhas conseguiram construir acordos profícuos com os colegas portugueses, o que resultou em uma edição ímpar, sobretudo considerando que a contribuição destes proporcionou que a obra ganhasse uma de suas características mais dignas de nota: os Exercises Pratiques de Traduction do original em francês foram completamente adaptados com fontes concernentes à história medieval portuguesa, presenteando o leitor lusófono com uma selecta planejada e direcionada às suas características específicas (tendo em vista que a maioria dos medievalistas de língua portuguesa pesquisa temas ligados ao medievo português). O leitor tem em mãos, portanto, mais do que uma boa tradução de um importante manual de latim medieval, o fruto de um trabalho coletivo internacional concebido para auxiliar nas pesquisas dos interessados nas lições aqui contidas.


PREFÁCIO À EDIÇÃO FRANCESA

Monique Goullet e Michel Parisse

Nosso método de aprendizagem do latim medieval resulta da seguinte constatação atualmente, não há, no mercado, nenhum manual simples e acessível a um público mais vasto, capaz de oferecer a um estudante não especia1izado em latim a possibilidade de dominar, em um ano, os rudimentos dessa língua. Ora, se quisermos chegar à leitura eficaz dos textos, devemos reconhecer que a aprendizagem linguística possui um estatuto de disciplina autônoma. Permita-nos que citemos aqui, Strecker:

Todas as disciplinas [...] que devem utilizar incessantemente as fontes medievais conduziram no seu seguimento ao estudo da língua médio-latina. Mas essas disciplinas subordinaram esse estudo à sua própria atividade; elas lhe subestimaram as dificuldades, de tal maneira que surgiu a ideia de que a filologia da Idade Média era um domínio aberto a todos e no qual todos poderiam brilhar. E, no entanto, nunca será demais insistir no fato de que o latim medieval não é uma ciência auxiliar, mas sim uma disciplina independente e que deve ser estudada do mesmo modo que os outros ramos do conhecimento [1].

A priori, pode parecer estranha a pretensão de aprender o latim medieval, na sua especificidade, sem antes começar pela aprendizagem do latim clássico. Evidentemente, não é nem o mais lógico nem o mais fácil, uma vez que os próprios autores medievais eram formados na escola do latim clássico. Desejando atender às necessidades de um público não especializado, que precisa aceder, rapidamente, às fontes medievais, optamos assim por expor, em cada lição, em primeiro lugar os elementos básicos do latim clássico, que constitui a base do latim medieval, e, em seguida, as modificações linguísticas ocorridas durante a Idade Média, Se, por um lado, para facilitar a tarefa aos estudantes que já se beneficiaram de alguma iniciação no latim durante o percurso de seus estudos, nós, na maior parte do tempo, conservamos os paradigmas [2] do latim clássico, por outro, selecionamos os exemplos e os exercícios em textos medievais [3], porque é sobretudo na esfera lexicográfica e conceitual que se revela como a língua medieval difere da língua clássica, pelo menos, até século XIII.

Esta obra é fruto de uma experiência pedagógica realizada Entre os anos de 1993-1995, dirigida aos estudantes de licenciatura que, desejando empreender um mestrado e um doutorado em história medieval, não tinham, durante o ensino médio, estudado latim. Os manuais de iniciação ao latim clássico, aliás excelentes quanto ao resto, porém concebidos para estudantes de letras ou de línguas, revelaram-se inadequados em função dos seus objetivos, dos seus métodos e do tempo de aprendizagem requerido.

Na realidade, o ensino de latim não pode ocupar um lugar excessivo no emprego do tempo de um estudante de história. O horário ideal seria duas horas semanais: uma voltada à explicação da lição, à repetição das declinações e das conjugações, à análise das formas, e outra dedicada ao contato com os textos. Os primeiros estudantes que utilizaram este manual tiveram apenas uma hora semanal de curso. Eles admitiram que lhes seriam necessárias, em geral, mais de duas horas de trabalho pessoal e, para alguns, até mesmo quatro horas semanais para que conseguissem assimilar adequadamente o programa. Um número razoável deles já tinha frequentado cursos de latim clássico, durante o ensino médio, mas reconhecia que não havia absorvido um conhecimento suficiente. A perspectiva de um latim “mais fácil” parecia-lhes atraente. Após um ano, eles tinham aprendido acerca do latim e não o latim. Assim, sabiam o bastante para não mais temer abordar textos nessa língua, Caso se disponha apenas de uma hora de curso por semana, convém que o estudante estude sozinho a lição e prepare os exercícios de aplicação, para que a aula possa ser dedicada a resolver as dificuldades de compreensão e a dar explicações complementares. No fim de cada lição, encontra-se uma lista com uma dezena de palavras para a memorização. Trata-se, evidentemente, do mínimo necessário para que se estabeleça o hábito do estudo. Na verdade, os progressos serão tanto mais rápidos quanto mais depressa o estudante retiver o conjunto do vocabulário das lições, que pertence, em sua quase totalidade, ao léxico básico do latim medieval.

Este manual não é autossuficiente, embora dê indicações sobre a morfologia e a sintaxe, sobre a etimologia dos vocábulos e o seu léxico. A utilização sistemática e regular de um dicionário e de uma gramática de latim clássico é obrigatória, porque não existe uma gramática usual [4] nem um dicionário completo de latim medieval. A aquisição desses instrumentos é indispensável, uma vez que, no presente método, nem tudo é objeto de uma explicação sistematizada e detalhada. O acesso à tradução precisa e correta exigirá longos anos de treinamento, e sai do âmbito destes rudimentos.

Agradecemos, inicialmente, aos estudantes das universidades de Paris I e de Nancy II que serviram como cobaias. Eles aceitaram fazer preciosas observações, dar-nos suas impressões e também nos encorajaram. Destacamos, igualmente, o acolhimento dado à nossa iniciativa por parte de numerosos colegas aos quais somos gratos.


Notas:

[1] K. Strecker. Introduction à l'étude du latin médiéval. Paris, Presses Universitaires de France, 1946, p. 10.

[2] Chamamos de paradigma um modelo de declinação ou de conjugação.

[3] Para evitar que se alongue nossa apresentação, não daremos as referências das frases isoladas utilizadas nos exemplos ou nos exercícios. O caráter edificante de muitos de nossos exemplos e de nossos exercícios explica-se, precisamente, pela nossa vontade de os retirar, diretamente, das fontes medievais, no seio das quais os textos com objetivos religiosos ou morais estão sobrerrepresentados.

[4] Assinalamos, no entanto, a publicação da gramática de Peter Stotz. Cf. P. Stotz. Handbuch zur lateinischen Sprache des Mittelalters. Munich, Beck, 1996, 5 volumes, especificamente o volume 3, Lautlehre (Fonética), e o volume 4, Formenlehre, syntax und stilistik (Morfologia, sintaxe e estilística), 1998.


INTRODUÇÃO

1 - O LATIM MEDIEVAL

A história do latim medieval estende-se do século V ao século XV. Em mil anos, essa língua conheceu uma lenta evolução e passou por tantas transformações quanto tinha passado durante os oito séculos que compreendem o período chamado de Antiguidade clássica e, após, a Antiguidade tardia (do século III a.C., data dos primeiros testemunhos literários, ao século V d.C.). Assimilando, abusivamente, o latim clássico ao de Cícero, esquecemos que a língua de Plauto (século III a.C.) era bem diferente da de Plínio (século I d.C.) e que, por razões cronológicas e estéticas, ambos se distinguiam da língua de Cícero (século I a.C.) ou do seu contemporâneo Lucrécio, embora o latim de Cícero e o latim de Lucrécio fossem diferentes entre si. Desde o fim do Império Romano, numerosas transformações já tinham ocorrido no que, às vezes, ainda chamamos de baixo-latim. Além disso, depois do século XV, o latim permaneceu vivo e, da literatura do Renascimento até o século XVIII, há um número considerável de poemas e de peças de teatro escritas em latim. Enfim, o vigor desse neolatim foi tal que, até o início do século XX, era em latim que se apresentavam as teses complementares [*] ao doutorado de Estado. Assim, percebemos que a Idade Média é apenas uma etapa na longa história da língua latina.

Portanto, não é pertinente opor o latim medieval ao clássico e apresentar o primeiro como uma degradação do segundo. Antes de mais nada, as singularidades adquiridas pelo latim ao longo dos séculos não seriam capazes de esconder sua continuidade filológica, uma vez que, entre os diferentes estados do latim, há uma lenta diferenciação e não oposições capazes de realizar uma ruptura. A compreensão do latim medieval impõe que se considerem as contribuições do latim cristão do período chamado de Antiguidade tardia, no curso do qual se constitui um verdadeiro idioma específico ao universo do cristianismo, do qual ele assume novos conceitos. Assim, o latim medieval é formado mais por enriquecimentos sucessivos do que por rupturas. Além disso, foi o latim clássico que serviu de modelo e de ideal aos "instrutores" de Carlos Magno, aos quais devemos o reaparecimento de algumas obras latinas redigidas durante o período que chamamos de Renascimento Carolíngio, e que inaugura vários séculos de uma vivaz literatura latina. Em uma certa medida, então, a leitura do latim medieval não é extremamente diferente da do latim clássico, ainda mais porque os textos propostos ao historiador raramente são anteriores ao século IX.

Em compensação, também não seria justo negar a característica errônea, surpreendente e, mesmo, anômala de alguns textos merovíngios, que foram qualificados por alguns como "latim de cozinha", e que se explica, ao mesmo tempo, pelo declínio da cultura, que prejudicou a transmissão da tradição latina, e pela influência da língua falada [1]. Tal estado de degradação tornara necessário o esforço de normatização do Renascimento Carolíngio. Segundo a mesma ordem de ideias, o latim medieval, que somente era falado em circunstâncias muito particulares [2], jamais constituiu uma língua materna e, sobretudo a partir do século XIII, era frequentemente apenas a transcrição de um pensamento cuja expressão natural teria sido em uma língua vernacular, como, por exemplo, o francês, o italiano ou o alemão. O latim medieval deixou de ser uma língua materna para se transformar, segundo a fórmula de um linguista, na "língua pátria da república dos letrados", ou seja, um idioma supranacional, utilizado por toda a Europa exclusivamente como língua culta, literária, técnica, administrativa ou jurídica. Se apresenta a mesma correção que o latim clássico, ele o deve mais aos tratados dos gramáticos e aos seus exercícios de imitação do que ao seu próprio curso natural. Diante dessa trama linguística comum, é necessário que nos esforcemos também para nos familiarizar com as particularidades de cada época, com os gêneros literários e com os autores, sobretudo no plano do léxico, cuja compreensão está ligada à dos realia e dos conceitos do universo medieval.

Há, no entanto, uma outra coisa. Contrariamente aos textos antigos, os textos medievais podem ser lidos, diretamente, em manuscritos cuja redação é contemporânea (ou quase) da sua elaboração. Ler e compreender o latim medieval é também percorrer, diretamente, as cartas, os sermões, as preces, as crônicas, resolvendo, corretamente, as abreviaturas, decifrando, convenientemente, a grafia. Isso explica algumas particularidades deste livro, cuja pretensão é a de ser um manual de aprendizagem para uso daqueles que vão confrontar-se não apenas com as edições, mas também com as fontes originais, frequentar os arquivos, ler os manuscritos medievais.

[*] As teses complementares ao doutorado de Estado eram teses curtas, escritas em latim, cujo tema deveria ser diferente do tema da tese de doutorado de Estado, mas que eram obrigatórias para a obtenção do título. (N. da T.)


Referências bibliográficas

BLAISE, A. Manuel du latin chrétien. Strasbourg, Le Latin Chrétien, 1955. 

BODSON, A.; DUBUISSON, M. & FAMERIE, E. Méthode de langue latine pour grands commençants et étudiants. Paris, Nathan, 1989 (latim clássico).

BOUET, P.; CONSO, D. & KERLOUEGAN, F. Initiation au système de la langue lati- ne. Du latin classique aux langues romanes. Paris, Nathan, 1975 (A abordagem sincrônica foi completada por um estudo diacrônico que considera o sistema do latim literário clássico, o do latim chamado vulgar e o do latim falado da alta Idade Média).

COLLINS, J. F. A primer of ecclesiastical latin. Washington D.C., CUA Press, 1985. 

DÉLÉANI, S. & VERMANDER, J.-M. Initiation à la langue latine et à son système. Vol. I: Manuel pour grands débutants. Paris, Sedes, 1975 (latim clássico). 

MAROUZEAU, J. La traduction du latin: Conseils pratiques. 5. ed. Paris, Belle-Lettres, 1969.

NORBERG, D. Manuel pratique de latin médiéval. Paris, Picard, 1968 (Contém um breve histórico do latim medieval e uma antologia de textos que, em sua maioria, são literários).

QUEDNAU, L. R. O acento do latim ao português arcaico. Tese de doutorado. Porto Alegre, Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2000.

SIDWELL, K. Reading medieval latin. Cambridge, Cambridge University Press, 1995 (Antologia de textos apresentados e comentados).

STOCK, L. Gramática de latim. Lisboa, Editorial Presença, 2000.

STOTZ, P. Handbuch zur lateinischen Sprache des Mittelalters. Munich, Beck, 1996, 5 volumes.

STRECKER, K. Introduction à l'étude du latin médiéval (Traduzido do alemão por p van de Woestijne). 6. ed. 1971. Paris, Presses Universitaires de France, 1946, revisão de R. B. Palmer, Introduction to medieval Latin, 1957.


2 - A PRONÚNCIA DO LATIM

a) A pronúncia "restaurada" do latim clássico breves,

Embora seja possível reconstituir, facilmente, a pronúncia do latim nas diversas épocas nas quais foi falado, seria muito difícil colocá-la em prática, essencialmente por duas razões: em primeiro lugar, o latim clássico compreendia, além de sons desconhecidos do português, uma sucessão de sílabas longas e e uma acentuação estranha ao caráter da nossa língua [*]; por outro lado, a pronúncia do latim evoluiu, ao longo do tempo, e também se diferenciou bastante em cada região, influenciada, em diversos níveis, pelas falas regionais [3]. Então, se foi estabelecida uma convenção, há alguns anos, sobre uma pronúncia dita restaurada do latim clássico, a qual sabemos, aliás, que é muito aproximativa, por outro lado, não há uma "vulgata" para o latim medieval e não é possível tê-la. 

Por isso, por uma preocupação essencialmente prática de uniformização, propomo-nos adotar a pronunciação restaurada, por mais artificial e convencional que seja, corrigida à luz das principais modificações fonéticas ocorridas ao longo do tempo.




[*] Os autores referem-se naturalmente à língua francesa. O português conserva sem grandes alterações a acentuação latina. (N. da T.)


Todas as letras são pronunciadas e sempre da mesma forma: deus = dêuss, haud = háud (com aspiração) etc. Na pronúncia restaurada, não há nasalização, isto é, mentem é pronunciado <menntemm>, o que, certamente, não se conforma com a realidade histórica: as consoantes finais nasalizam, provavelmente, a vogal, mesmo na época clássica.

O s antes de consoante (sc, sch, sp, st) é sempre pronunciado separadamente, como, por exemplo, sceptrum = s-ceptrum; schola = s-chola; spiritus = s-piritus; studium = s-tudium [*].


b) Principais modificações da pronúncia do latim medieval em relação ao latim clássico

No latim clássico, ae e oe eram ditongados. No entanto, no latim medieval, eles foram monotongados em e, o que é confirmado pela grafia dos manuscritos, nos quais, por exemplo, cenobium é a grafia habitual da palavra coenobium, e ecclesie é a grafia ordinária da forma ecclesiae (encontramos, além disso, frequentemente, œcclesie). É conveniente ler e tanto para ae quanto para oe. Nos manuscritos, a terminação -ae do latim clássico pode então ser expressa por -ae, -e, ou ainda por um e cedilhado, que são grafias diferentes de um mesmo fonema.

A letra y era estrangeira ao alfabeto latino, como indica o seu nome em francês (= i grego) [**]. Transcrição do upsilon grego, lia-se, primitivamente, o y como o ü francês em um certo número de palavras oriundas do grego: presbyter pronunciava-se presbüter no latim clássico. No latim medieval, ele substituía, frequentemente, o i (lacryma é uma grafia medieval de lacrima) e sempre era pronunciado como i, mesmo no caso das palavras com origem grega: presbyter pronunciava-se presbiter.

No latim clássico, -c sempre era pronunciado como -k, mesmo antes de -e ou -i. No latim medieval, havia assibilação, o que significa que -ci pronunciava-se -si e que -ce pronunciava-se -se. Contudo, a presença, no interior de um mesmo modelo de declinação, de formas não assibiladas deve ter exercido uma influência: assim, amicis pôde continuar a ser pronunciado amikis, sob a influência da forma amicus, que se pronunciava amikus. No latim clássico, a pronunciação de -tia era claramente diferente da de -cia. No latim medieval, como comprova a grafia dos manuscritos, a pronúncia de -ti + vogal passou a ser idêntica à de -ci + vogal. Assim, encontraremos, indiferentemente, patientia, patiencia, paciencia. 

[*] Informação extraída do livro de Stock, 2000, p. 9. (N. da T.)

[**] Em francês, a letra y chama-se i grec, isto é, "i grego". (N. da T.)


O latim medieval, como o latim clássico, ignorava j e v. Em português, usamos j e v para transcrever i e u em uma situação de semiconsoante, ou seja, na posição inicial ou intervocálica, como, por exemplo, em iam (= jam), Troia (= Troja), uos (= vos), triuium (= trivium). Contudo, alguns escribas usavam as letras v e j. Encontramos tanto uuillelmus quanto vvillelmus, que os editores transcreveram Willelmus. O problema da transcrição dessas duas letras é muito debatido pelos especialistas em edição de textos medievais. É conveniente pronunciar j como i, e v como u.

Algumas palavras do latim clássico, que se aprenderão com o uso, viram sua pronúncia e sua ortografia modificarem-se durante a Idade Média. Por exemplo, mihi (forma do pronome pessoal da 1ª pessoa do singular) transformou-se em michi, e nihil (= nada) transformou-se em nichil.

A letra -h pode juntar-se a -c, -t ou -p (charitas = caritas, caridade) ou, ao contrário, cair após essas mesmas letras (spera = sphera, esfera). Ela também pode juntar-se ou cair quando em posição inicial (ortus = hortus, jardim; hac = ac, e). Encontramos -t por -d e vice-versa (set = sed, mas). Um -p chamado epentético foi, frequentemente, introduzido entre -m e -n para evitar a assimilação desses dois sons (columpna = columna, coluna).

Expomos, enfim, de forma sucinta, a questão do acento e da quantidade silábica. No latim clássico, o acento da palavra era de altura (ou seja, melódico), uma vez que a sílaba acentuada era pronunciada em um tom mais elevado. Assim, afeta sempre a primeira sílaba de uma palavra dissílaba e, se ela for longa, a penúltima sílaba de uma palavra de três ou mais sílabas. Se a penúltima for breve, a antepenúltima sílaba receberá o acento. Os monossílabos são também acentuados, à exceção de certas palavras (preposições, conjunções):

quod, clérus, tabernáculum (-cu breve); testaméntum (-men longo)

A quantidade (= a duração) das vogais é dada pelo dicionário, porém poderemos reter elementos simples de prosódia: uma vogal seguida de uma outra vogal é sempre breve; uma sílaba é longa se contiver uma vogal longa por natureza, um ditongo ou uma vogal breve em posição fechada, ou seja, seguida de duas consoantes.

No latim medieval, deixamos de diferenciar as sílabas breves e as longas. Além disso, o acento mudou de natureza sem mudar de lugar. Ele se transformou em um acento de intensidade, ou seja, a sílaba sobre a qual foi colocado é pronunciada com mais força. Essa evolução explica a passagem do latim clássico ao medieval e, em seguida, ao português, cuja tendência foi a da manutenção do acento na mesma sílaba em que se encontrava no latim medieval [*], de uma palavra como dóminus < dómnus < dom. Esses fenômenos complexos, cujos detalhes não aprofundaremos, são importantes para compreender a passagem do latim às línguas românicas, de um lado, e o sistema de versificação do latim clássico e do medieval, de outro.

Em conclusão, devemos reter que a nossa pronúncia do latim medieval será sempre muito aproximativa e, mesmo sem garantia de autenticidade histórica, contentar-nos-emos em ser coerentes.


[*] Para maiores informações sobre esse processo na língua portuguesa, cf. Quednau, 2000, p. 33 e ss. (N. da T.)


3 - A LEITURA DOS TEXTOS

a) Os textos editados

A maioria dos textos medievais editados é pontuada segundo as regras em vigor nos locais e nas datas de sua edição e não segundo a pontuação original do manuscrito. Além disso, os editores modernos distinguem os nomes próprios dos comuns, atribuindo-lhes uma letra inicial maiúscula. Os princípios da pontuação medieval eram diferentes dos nossos pelos símbolos usados e pela utilização que se fazia deles. Em todo caso, seria simplista declararmos, com base em alguns textos, que os escribas da Idade Média não sabiam pontuar ou que pontuavam segundo a sua imaginação.

A pontuação utilizada atualmente segue regras diferentes segundo os países, não tanto pela utilização do ponto final, que representa uma grande pausa forte, mas pelo uso do ponto e vírgula, dos dois-pontos e, sobretudo, da vírgula. Particularmente, certos editores repartem, com cuidado, o texto para isolar os elementos da oração, facilitando, assim, a sua compreensão. Já outros editores utilizam a vírgula com parcimônia. No caso do uso das letras iniciais em maiúscula, também existem divergências. O Comitê Internacional de Diplomática recomenda escrever com maiúscula Deus (Deus), Dominus (o Senhor), Virgo (a Virgem), bem como utilizá-la para os adjetivos derivados de nomes próprios (Parisiensis, parisiense; Cisterciensis, cisterciense). Há ainda os casos em que se utiliza a maiúscula para facilitar a leitura e a compreensão, designando, especialmente, os nomes de lugares e de pessoas que poderiam ser confundidos com nomes comuns (por exemplo, vicus, aldeia, é diferente de Vicus, Vic (-sur-Seille)) [*].




b) Os textos manuscritos

Notícia [**] de Marmoutier, A.D. Maine-et-Loire 40 H 1

Transcrição

Omnibus notum fieri volumus quod Gausfredus de Baraceio calumniabatur nobis monachis scilicet Maioris Monasterii apud Dalmariacum manentibus terram quandam quam Rainardus cognomento Choerius et uxor ejus nomine Maria de Rogeio nobis dederant pro animabus suis, propterea scilicet quod filiam eorum Richildem nomine duxerat conjugem. Postea vero propter Dei et beati Martini amorem atque nostrum concessit eam nobis in perpetuum coram Girardo de Doxeio, accipiens inde quasi pro caritate centum solidos a domno Ernaldo ipsius tunc obedientiae priore, Girardo eodem concedente et propter ipsam concessionem XX solidos recipiente. Cujus utriusque concessionis testes hi sunt: Jaguelinus, Mainardus de Praia, Drogo famulus, Hubertus Nigrum Dorsum, Rainardo de Cortice. Postea quoque in die Exaltationis sanctae Crucis perrexerunt simul ad castrum quod Matefelon dicitur supradictus prior et predictus Girardus. Ubi superius memoratus Gausfredus fecit uxorem quam Richildem nomine et filium suum ac filiam concedere quod ipse prius de terra superius memorata concesserat. Quorum utrique dedit ipse monachus III denarios, testibus his Jaguelino, Algerio de Dalmariaco, Rainaldo Beichart, Drogone famulo.

(Arquivos departamentais do Maine-et-Loire, 40 H 1.)


Tradução

Nós queremos que seja do conhecimento de todos o que Gausfredo de Baraceio nos reclamava, abusivamente, a nós, monges do Mosteiro de Marmoutier, instalados em Daumeray, ou seja, uma terra que Rainardo, apelidado de Quério, e sua mulher, chamada de Maria de Rogeio, nos haviam dado para a salvação de suas almas, uma vez que ele casou sua filha Richilde. Mas, em seguida, por amor a Deus, ao bem-aventurado Martinho e do nosso, ele a deu a nós, para sempre, na presença de Girardo de Doxeio, recebendo então, como agradecimento, 100 soldos de dom Ernaldo, então prior desta observância, com a anuência do mesmo Girardo, que recebeu 20 soldos em troca desta concessão. Dessa dupla concessão são testemunhas Jaguelino, Mainardo de Praia, o servidor Drogo, Huberto Costas Negras, Rainardo de Cortice. E, em seguida, também no dia da Exaltação da Santa Cruz, o citado prior e o mencionado Girardo dirigiram-se juntos ao castelo de Mateflon. Lá, o acima referido Gausfredo cedeu para sua mulher Richilde, para seu filho e para sua deu filha a parte que ele próprio concedera da terra acima referida. Esse monge três denários a cada um deles, diante das seguintes testemunhas: Jaguelino, Algerio de Dalmarico, Rainaldo Beichart, o servidor Drogone [4].


Vejamos algumas observações preliminares concernentes ao latim escrito por um escriba medieval:

As palavras são, frequentemente, abreviadas, e, às vezes, além das regras de abreviação - mais ou menos seguidas, mais ou menos idênticas segundo os períodos e as regiões -, o conhecimento do latim é indispensável para transcrever corretamente um texto. Através da comparação entre o original e a sua transcrição, descobre-se assim que omib com -s sobreposto deve ser lido omnibus, que o -m final de notum e o -us de volumus foram transcritos através de símbolos especiais do mesmo modo que o -us de Gausfredus, enquanto a associação do -q e do -d por contração traçada não deve ser lida como quid, mas como quod. A aprendizagem do latim medieval e a da paleografia são, então, igualmente exigidas.

- Aqueles que estão habituados a folhear dicionários de latim clássico nem sempre encontrarão as palavras decifradas. Isso se deve ao fato de que algumas são termos específicos da Idade Média ou nomes ou cognomes à pessoas, ao passo que outras foram submetidas a modificações fonética; ou sua ortografia é diferente. Lemos, assim, dommo como domino, -ti e -ci são confundidos etc. O editor moderno introduziu as letras maiúscula; para facilitar a compreensão de algumas palavras (nomes de pessoas ou palavras do vocabulário religioso, como, por exemplo, Crux), o que era raramente realizado pelo escriba medieval. A pontuação é igualmente diferente: o escriba pontuava seu texto em função das pausas realizadas no momento da leitura em voz alta, ao passo que o editor segue os imperativos semânticos e sintáticos da pontuação moderna. É necessário estar atento à pontuação medieval, a qual ajuda, frequentemente, na compreensão de um texto que não era destinado a uma leitura silenciosa.

- Enfim, o vocabulário torna-se um obstáculo caso não se conheçam as práticas e as instituições da Idade Média. Assim, as palavras prior e obediência só são compreendidas dentro do contexto monástico da época.

- As fontes históricas medievais são muito numerosas e torna-se necessário um certo número de precauções antes de lê-las e de analisá-las. Os escribas e os autores empregam um latim variado; um texto, como a ata da prática dos monges de Marmoutier, difere de um texto jurídico ou literário. É preciso prestar muita atenção à natureza dos documentos a estudar.


[*] Neste caso, trata-se de uma referência à comuna, que, segundo os padrões medievais, era, em níveis populacional, econômico e político, superior à vila. No exemplo citado, os auto- res referem-se a Vic-sur-Seille, que é uma comuna francesa localizada no departamento de Moselle, na Lorena. (N. da T.)

[**] Notícia é um pequeno texto descritivo e explicativo destinado a apresentar sumariamente um tema particular. (N. da T.)


4 - A TRADUÇÃO

a) Os instrumentos: Dicionários e gramáticas

Para a compreensão, a utilização de dicionários é, frequentemente, indispensável. Um dicionário de latim clássico é suficiente para resolver uma grande parte dos problemas. O dicionário de referência, na língua francesa continua a ser GAFFIOT, F. Dictionnaire illustré latin-français. 1re ed. Paris, Hachette, 1934; há ainda uma nova edição revista e ampliada sob a direção de FLOBERT, P. Le grand Gaffiot. Dictionnaire latin-français. Paris, Hachette, 2000. A edição de 1934 está, atualmente, disponível gratuitamente on-line no site <www.lexilogos.com>, assim como outros dicionários de latim (latim-francês, latim-inglês etc.).

Já para os casos que não são resolvidos com esse dicionário, existem dicionários específicos dedicados ao latim medieval. Neste livro, citamos apenas os mais comuns, excetuando os que estão em processo de elaboração e são, portanto, incompletos. Abaixo, indicamos uma relação de dicionários:

BLAISE, A. Dictionnaire latin-français des auteurs chrétiens. Turnhout, Brepols, 1954.

DU CANGE. Glossarium mediae et infimae latinitatis. 8 volumes. Paris, Institui Francie Typographi, 1850. [Pode ser consultado on-line no site <http:// ducange.enc.sorbonne.fr/>.] (Trata-se de uma obra muito antiga, cuja primeira edição data de 1678. Foi escrita totalmente em latim, recenseia o vocabulário específico da Idade Média e traz exemplos para documentar; ajuda na compreensão, embora não forneça traduções. É muito útil para o vocabulário concreto, particularmente do final da Idade Média.)

FERREIRA, A. G. Dicionário de latim-português. 4. ed. Porto, Porto Edi- tora, 2012.

NIERMEYER, J. F. Mediae latinitatis lexicon minus. Leyde, Brill, 2002. (Tradução em francês e inglês, às vezes comentada, de termos essencialmente técnicos. Obra muito útil para a diplomática.)

TORRINHA, F. Dicionário latino português. 1. ed. 1937. (3. ed. 1986). Porto, [s.e.], 1937. [esgotado.]


O estudante deverá, além disso, recorrer regularmente a uma gramática completa do latim clássico de sua escolha. Na língua francesa, damos, como exemplo, MORISSET, R.; GASON, J.; THOMAS, A. & BAUDIFFIER, E. Précis de grammaire des lettres latines. Paris, Magnard, 1977.

Para um aprofundamento e para a resolução de problemas pontuais, podemos consultar:

ERNOUT, A. & THOMAS, F. Syntaxe latine. Paris, Klincksieck, 1972. (Abordagem descritiva e não normativa. Dedica algum espaço ao latim tardio.) 

HOFMANN, J. B. Lateinische syntax und stylistik. 2. ed. Munich, a. Szantyr, 1965. (Obra publicada em alemão, muito erudita e também um pouco difícil para um iniciante, porém considera o latim medieval.)

FARIA, E. Gramática superior da língua latina. Rio de Janeiro, Livraria Acadêmica, 1958. (Biblioteca Brasileira de Filologia, 14.)


b) Técnica de tradução

Uma tradução realizada palavra por palavra gera uma compreensão apenas parcial do texto. Assim, é necessário que façamos uma adequação estilística de modo a torná-la clara e aprimorada, lembrando-nos, com frequência, da célebre máxima italiana traduttore traditore, isto é, traduzir é trair. Portanto, é necessário que nos empenhemos em trair o menos possível o texto latino [5].

Após termos ultrapassado a etapa da aprendizagem, tiraremos um grande proveito do livro BOURGAIN, P. & HUBERT, M-C. Le latin médiéval. Turnhout, Brepols, 2005.


Notas:

[1] Como afirmou D. Norberg, "O latim escrito da época merovíngia é um produto artificial, no qual se encontram, de forma confusa, as reminiscências da língua literária, as fórmulas fixas provenientes de períodos precedentes, os traços pertencentes à língua falada, as grafias inversas, como, por exemplo, ferrae ou invés de ferre (segundo o modelo terrae, forma clássica de terre) com excessos de 'regionalismos' e puros erros. Por volta do ano 700, esse latim tornou-se, completamente, caótico". Norberg, 1968, p. 31.

[2] Sobre a questão, muito controversa, do momento em que se parou de falar latim, recomendamos a sucinta, mas clara exposição: Bouet; Conso & Kerlouegan, 1975, pp. 17-30.

[3] Para uma exposição detalhada do sistema fonético do latim e de sua evolução, cf. Bouet; Conso & Kerlouegan, 1975, pp. 35-64.

[4] Devemos os nossos mais profundos agradecimentos a Yves Chauvin, que nos forneceu a identificação exata dos lugares citados neste texto.

[5] No caso da tradução do latim para o francês, os autores indicam como referência a seguinte obra: Marouzeau, 1969.

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Leia mais em Latim pelo método natural

Leia mais em O ressurgimento do latim



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