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Durante a Idade Média a educação estava, fundamentalmente, centrada no estudo das Artes Liberais, divididas em duas bases: o Trivium e o Quadrivium. O Trivium constituía-se na formação voltada para a construção dos argumentos e da conversação; dele faziam parte a Gramática, a Dialética e a Retórica. São as artes sermocinales e foram assim definidas por Hugo de Saint-Victor: "A gramática é o conhecimento de como falar sem cometer erro; a dialética é a discussão perspicaz e solidamente argumentada por meio da qual o verdadeiro se separa do falso; e a retórica é a disciplina da persuasão para toda e qualquer coisa apropriada e conveniente". O Quadrivium, por sua vez, era composto pelas artes reales: a Aritmética, a Geometria, a Música e a Astronomia. Em grande parte do período medieval, o Trivium e o Quadrivium foram os pré-requisitos para o estudo da Teologia, mas sua importância cresceu à medida que os conteúdos das diversas artes liberais foram se expandindo, levando os estudiosos ao alargamento dos campos de pesquisa.
A obra Trivium e Quadrivium: As Artes Liberais na Idade Média, lançada pela editora IBIS, busca mostrar ao leitor contemporâneo, mesmo àquele não especializado, em que consistiu o projeto educacional da Idade Média. O estudo da educação medieval, tendo por base as Artes Liberais é, sem dúvida, uma iniciativa bastante pertinente, uma vez que estas constituem a "base mais coesa para qualquer reflexão sobre o assunto". Em verdade, elas foram sistematizadas por volta do século V e continuaram sendo objeto de interesse por parte dos estudiosos, mesmo depois do advento das universidades. Com este intuito, foi convidado um especialista de cada área, que deveria produzir um artigo de forma critico-descritiva, referente a cada uma das artes liberais. A coordenação do trabalho coube à professora Lênia Maria Mongelli. Como um projeto de tal monta necessariamente enfrentaria dificuldades em manter a uniformidade; coube à introdução geral da obra, elaborada pela professora Tereza Aline Pereira de Queiroz, o papel de preencher as lacunas de informação que, eventualmente, tenham faltado nas sete grandes partes do livro, cada uma delas dedicada a uma das artes.
A obra pretende abordar urna série de temas referentes ao sistema de ensino medieval, tais como: a função e estrutura da escola, quem eram os mestres e os discípulos, de que modo se processou a educação ao longo deste vasto período, as características do saber e sua transmissão no âmbito monástico e clerical, a influência da antigüidade greco-romana (reconhecida e tratada com apreço pelos autores). Há também uma "questão decisiva": Como conciliar a complexidade das eventuais respostas aqui entrevistas com a imagem de 'trevas' atribuída à Idade Média? Estes e outros temas perpassam toda a obra, e as diversas respostas estão pinceladas nos vários artigos, todos eles elaborados com propriedade, preocupação histórica e rigor científico.
É interessante notar que cada um dos autores procedeu a um riquíssimo levantamento histórico, situando o objeto de sua pesquisa não apenas no âmbito do período medieval (o que, por si só, já seria um trabalho de fôlego), mas também retrocedendo à antigüidade, à Grécia e à Roma antigas, a fim de possibilitar ao leitor uma melhor compreensão da recepção obtida por aquela disciplina na Alta Idade Média e seus desdobramentos posteriores. Seria, igualmente, grave omissão deixar de ressaltar a preciosa relação bibliográfica indicada pelos diversos comentadores, ao final de suas exposições. De fato, a bibliografia indicada, além de revelar as qualificadas fontes dos pesquisadores, possibilita ao leitor interessado o aprofundamento da reflexão.
Como já foi dito, a exposição das diversas disciplinas que constituem o Trivium e o Quadrivium é precedida por uma introdução, intitulada "Aprender a Saber na Idade Média", onde a autora, a professora Tereza Aline Pereira de Queiroz mostra que entre os séculos V e XV há uma defasagem entre o mundo concreto e o saber curricular. Nota-se mesmo que "uma fração reduzida das sobrevivências medievais que nos impressionam hoje em dia dependeram de uma escolaridade formal". Feita esta constatação, a autora passa a discorrer sobre os grandes marcos da história medieval da aprendizagem, iniciando pelo período da desintegração do império romano, onde a intelectualidade cristã buscava na tradição cultural clássica um suporte para o cristianismo, o que não impediu a originalidade do pensamento dos Padres da Igreja, que procuravam "dar substância filosófica, moral e institucional aos ensinamentos de um mestre espiritual". Aborda também as origens do monaquismo com seus sistemas de formação, nada teórico no Oriente, enquanto, no Ocidente, era sustentado pela tríade rezar, trabalhar e estudar, a partir da proposta de São Bento.
Preparando o que vai ser explicado detalhadamente, ao longo da obra, a introdução mostra os diversos nomes que contribuíram para a difusão e aperfeiçoamento das artes liberais na Idade Média: Cassiodoro, Boécio, Isidoro de Sevilha, Beda, entre outros, ressaltando, contudo, que "a institucionalização, ao menos teórica, do Trivium e do Quadrivium como suportes metodológicos e de conteúdo da educação masculina - em princípio meninas não estudavam - talvez possa ser localizada nos tempos carolíngios", graças ao papel importante exercido por Alcuíno", nome que, diga-se de passagem, é ressaltado por todos os demais autores.
A partir do século XI, bem mostra a Professora Tereza Queiroz, com o fortalecimento da vida urbana, a cultura formal desloca-se das grandes abadias para as cidades, onde as escolas episcopais assumem uma importância maior, e de onde surgirão as universidades, entendidas como "uma corporação, uma guilda, uma reunião de pessoas com interesses comuns", cujos estudos seguiam o sistema do Trivium e do Quadrivium. A partir daí, a autora, com propriedade e riqueza de detalhes, discorre sobre o que era estudado e de que forma era estudado nos séculos seguintes, para concluir que "os saberes do trivium e do quadrivium, além de serem ministrados a uma parcela mínima da população, a que freqüentava escolas e universidades, só deixou marcas indiretas na cultura medieval", pois os conhecimentos que dirigiam o dia-a-dia estavam distantes da educação formal, o que não impede, contudo, a percepção de sua importância.
A análise do Trivium começa com o comentário do Prof. Evanildo Bechara sobre aquela arte que sempre foi elencada em primeiro lugar, a Gramática. O autor destaca algumas obras que foram largamente utilizadas, como instrumento de ensino, tais como o Ars Poetica de Horácio, o Barbarismus, a Ars Minor e a Ars Maior de Donato, bem como a célebre Institutio de Arte Grammatica de Prisciano. O prof. Bechara mostra o trabalho gramatical na Idade Média em dois momentos significativos: o primeiro (séculos VIII a XII), é marcado pela forte influência das obras de Donato e Prisciano, seguindo a "teoria, a metodologia e a pedagogia transmitidas pela tradição romana", embora já apresentando algumas alterações devido às influências da orientação teológica e da exegese espiritual, pois as obras romanas faziam referências a autores pagãos, provocando um certo choque com a mensagem cristã. Também a sintaxe e o léxico não eram os mesmos do latim bíblico da Vulgata. O ensino da Gramática, contudo, foi sempre importante. Antes de passar para o segundo momento, Bechara destaca o trabalho dos "enciclopedistas", que marcam a ligação entre o período clássico e o medieval. Mas, a partir do século XII, como mostra o autor, a Gramática terá um novo sentido, passando a ser considerada como uma questão em si mesma. Tal mudança de perspectiva coincide, não por acaso, com a substituição do pensamento platônico pelo aristotélico, muito embora reconheça o autor a renovação metodológica e conceitual, sofrida pela Gramática, já estivesse prenunciada no De Grammatico de Santo Anselmo. No entanto, a tradução dos tratados aristotélicos fez com que a Lógica ocupasse um lugar de destaque, influindo na atividade gramatical fazendo com que esta assumisse um papel especulativo, suscitando novas questões.
O estudo da Retórica, elaborado pela Professora Lênia Márcia Mongelli começa com a análise etimológica, reveladora da ambigüidade do termo. Após, a autora mostra como, na Idade Média, a Retórica se encontrava intimamente ligada às demais artes liberais, particularmente à Gramática e à Dialética. Analisa também o papel da Retórica na Grécia antiga, onde se destaca sua vertente filosófica, e na Roma antiga, assume um papel mais prático, fazendo-se presente na sala de aula, da mesma forma que a Gramática. No período medieval, a Retórica, inserida no contexto religioso da época, "visará a fornecer doutrinação e argumentos para a salvação dos cristãos... A sabedoria funde-se à religião e os sacerdotes são os novos doutores das Artes, colocando o saber profano a serviço do esclarecimento dos mistérios bíblicos".
O comentário sobre a Dialética coube à professora Celina Lértora Mendoza, que inicia mostrando a identificação entre Dialética e Lógica no âmbito medieval, uma vez que a Dialética é entendida como "o estudo das formas de pensamento e de argumentação", denominação que foi transmitida aos medievais por Boécio e Martianus Cappela. A autora fala da relação da Dialética com as demais disciplinas do Trivium, a fim de melhor analisar sua função na educação medieval, mostrando que "ao homem medieval a Lógica interessou como uma arte do pensar correto, como um conjunto de regras e de modos de operar que permitiram fazer afirmações com certeza, sobretudo aquele tipo de afirmações que mais lhe interessavam, as relativas a seus principais problemas". A autora detém-se, igualmente, sobre os diferentes períodos, traçando um panorama da Dialética medieval, abordando tanto o avanço dos temas, como as formas de produção e de comunicação. Conclui o artigo com algumas interessantes considerações sobre o valor; nem sempre reconhecido, da Lógica medieval. Apresenta também uma relação dos principais nomes com suas respectivas contribuições para o pensamento lógico daquele período.
A análise do Quadrivium abre-se com o artigo do Prof. César Polcino Milies sobre a Aritmética medieval. A fim de melhor compreendê-la, o autor remonta à antiga Roma, dada a forte relação existente entre a Aritmética medieval e a romana. Salienta que, comparada à grega, a Matemática praticada em Roma e na Idade Média não apresenta tantos "progressos", em parte devido ao fato de que a numeração romana, apesar de ter sido um instrumento adequado para o registro dos números (em que pese as dificuldades inerentes), mostrou-se limitada no que tange ao trabalho com as operações aritméticas. O autor comenta também a apresentação da Aritmética nos tratados de Boécio, Cassiodoro, Isidoro de Sevilha e Alcuíno. Explica que a Matemática foi vista pela Igreja como uma "boa preparação para os intrincados raciocínios teológicos", bem como um instrumento necessário, tendo em vista sua aplicação no calendário, a fim de bem marcar as datas das festas religiosas. Após mostrar os vínculos existentes entre Matemática e Astrologia e Matemática e Medicina, o Prof. César Milies apresenta inúmeros e interessantes exemplos a fim de possibilitar ao leitor uma melhor compreensão dos métodos operatórios utilizados na Idade Média. Conclui apresentando a "teoria dos números", especialmente em Boécio e sua De Institutio Arithmetica.
O comentário sobre a Geometria coube ao Prof. Eduardo Carreira que discorreu sobre os "Limites e Grandezas do Pensamento Geométrico na Idade Média", mostrando-nos que, mais do que os documentos, são os monumentos que evidenciam um "sugestivo conhecimento geométrico, que se conserva a despeito de tudo; e mais, desenvolve-se com criatividade", pois o estudo da Geometria medieval supõe a percepção da "natureza cultural mais dilatada" da Geometria, ou seja, suas relações com a vida cotidiana. O Prof. Carreira mostra como a obra de Agostinho sobre as Artes Liberais é paradigmática do modo como a Geometria é vista na Idade Média: O elogio formal, a incompletude e o silêncio sobre os conteúdos - são exatamente aquilo que impressiona na História da Geometria medieval. Tal situação não impede, porém, a manifestação da "dimensão empírica e mais antiga da Geometria", fazendo com que esta pudesse ser uma "expressão de idéias e arquétipos transcendentes". O autor finaliza sua reflexão, mostrando como a Europa medieval, após o milênio, a partir de processos pluridimensionais de intercâmbios, sofre grandes modificações que também se refletem na Geometria, fazendo com que, no século XIII, se perceba um "debate especializado e bem sustentado", que faz vislumbrar um tímido anúncio do Renascimento italiano.
O prof. Gerardo Huseby mostra um esboço do processo sofrido pela Música, desde o período grego, até o final da Idade Média, época em que a Música se aproxima um pouco mais da atual concepção que temos desta arte. Salienta o autor a ambigüidade da Música no pensamento cristão medieval, pois ela foi, ao mesmo tempo, meio de elevação espiritual e imagem da harmonia divina e instrumento demoníaco e fonte de corrupção. Estas duas concepções, presentes no De Musica agostiniano, perpassam a Idade Média. O autor percorre com profundidade a história da Música medieval, seu desenvolvimento teórico e prático, seu uso na liturgia, a evolução do sistema de notação musical, mostrando que por um lado a Música já não ocupará os elevados setiais metafísicos em que foi colocada pelo pensamento clássico grego e em que permaneceu durante séculos; por outro lado, passará a ser considerada em termos de suas técnicas compositivas, de sua beleza e do prazer que sua erudição provoca.
A última parte da obra refere-se ao comentário sobre a Astronomia medieval, onde o Prof. Amâncio Friaça, depois de prestar esclarecimentos sobre o uso dos termos Astronomia e Astrologia na Idade Média (quem primeiro fez a distinção foi Isidoro de Sevilha), discorre sobre a Cosmografia medieval, apresentando-a na perspectiva de diversos autores. Destaca também a presença de uma nova concepção da Astronomia a partir dos estudos efetivados sob o impulso do Império Carolíngio. Ressalta, igualmente, a inestimável contribuição que a Europa cristã recebeu da Astronomia islâmica, a partir do ano 1000, o que vai provocar um "redespertar da Astronomia observacional", tendo em vista a utilização de novos instrumentos. O autor mostra também as peripécias que envolveram, a começar no século XIII, a presença da totalidade da obra de Aristóteles no ocidente e suas conseqüências no campo da Astronomia. Aborda, igualmente, o conflito entre físicos e matemáticos e mostra também como a Optica, a partir de Grosseteste e Roger Bacon, se torna a ciência física básica. Conclui sua reflexão com uma análise do que chama "a cosmologia da luz", mostrando que, em contraste com a Física aristotélica, que concebia movimentos naturais muito distintos para corpos celestes e corpos terrestres e que separava a Física e a Astronomia em domínios estanques, os luminólogos eram Astrofísicos, pois acreditavam que as mesmas leis físicas se aplicavam a todo o universo.
Sem dúvida, a obra Trivium e Quadrivium: As Artes Liberais na Idade Média, neste momento em que, pouco a pouco, aprofundam-se no Brasil, os estudos sobre a Idade Média vêm mostrar-nos que o pensamento medieval soube cultivar de modo ímpar um desejo profundo de conhecer, sem temer os intercâmbios e as novidades, por mais que pudessem ser dificultosos. Fala-se muito, hoje, na necessidade de integração dos conhecimentos, na busca da interdisciplinaridade. Pois bem, como nos mostram os autores de Trivium e Quadrivium, a Idade Média, não obstante as vicissitudes enfrentadas, tem interessantes exemplos a nos oferecer.
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