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Sobre as Bibliotecas medievais

Biblioteca do Monastério Beneditino de Admont (Áustria)


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Trecho retirado do livro História da Educação na Idade Média de Ruy Afonso da Costa Nunes de 1979 e republicado em 2018 pelas Edições Kírion.

26. Em qualquer época a peça de resistência das escolas é a biblioteca. Esse termo de origem grega, Bibliothêkê, significava de início a loja onde se vendiam livros, mas a partir do Brucheion, a grande biblioteca de Alexandria, o termo passou a significar coleção de livros. Na idade Média a biblioteca era chamada de armarium, scrinium, libraria arca e, segundo Léon Maître, o termo armarium era o mais usual para designar o lugar em que se guardavam os livros. Em apêndice à sua obra Les Écoles Épiscopales et Monastiques en Occident avant les Universités, Maître faz um bosquejo das bibliotecas monásticas do século IX ao XIII. Na famosa abadia de São Galo (Saint-Gall) , grande centro escolar, o catálogo só contém obras de interesse escolar. No século VIII damos com as obras de Donato, Prisciano, São Beda, Hipócrates, Galeno, etc. No século IX, com as obras de Apuleio, Plínio, Boécio, Cassiodoro, Santo Isidoro, Alcuíno, Rábano Mauro, Flávio Josefo, vários códigos e outros livros . No século X aparecem comentários sobre as Categorias de Aristóteles, clássicos como Pérsio, Ovídio, Lucano, Juvenal, Sêneca, Cícero, e ainda dicionários e outras obras. No século XI predominam obras lógicas de Aristóteles e Boécio e traduções alemãs de Aristóteles, Theotisca translatio Organi Aristotelis, da Consolação da Filosofia de Boécio, e clássicos como Horácio, Lucano e Salústio. No século XII aparecem os poemas de Claudiano.

27. Na biblioteca da abadia de Saint-Riquier havia no século IX duzentos e cinqüenta volumes com as obras dos Santos Padres e mais obras de literatura clássica, história, direito, etc. Na biblioteca de Corbie o catálogo registra um dicionário greco-latino do século VIII ou IX, a obra completa de Virgílio e manuscritos anteriores a 1200, de autores clássicos antigos e medievais, cobrem as áreas das artes liberais, inclusive as do direito e da medicina. Já no século VIII Alcuíno descreve num poema, Versus de sane tis Euboricensis Ecclesiae, a biblioteca da catedral de York cujo cuidado lhe fora confiado pelo arcebispo resignatário Alberto a quem sucedeu Eanbaldus. A Alcuíno coube a esfera da sabedoria, a escola, a cátedra de mestre, os livros...

Huic sophiae specimen, studium sedemque, librosque,

(Undique quos clarus collegerat ante magister).

Começa, então, a apresentação do catálogo da biblioteca. Diz Alcuíno que aí se acham os vestígios dos antigos Padres da Igreja, o legado greco-romano e o que o povo hebraico bebera da fonte superna, hebraicus vel quod populus bibit imbre supernus, e o que a África espargiu com lâmpada fulgente. Pode verificar-se pelo relato versificado de Alcuíno que a biblioteca da catedral de York estava bem apetrechada à volta do ano 776, como se colhe dos nomes dos autores dos quais destacamos os de Jerônimo, Hilário, Ambrósio, Agostinho, Atanásio, Gregório Magno, Basílio, João Crisóstomo e outros Padres da Igreja, Boécio, Plínio, Aristóteles, Cícero, Virgílio, Estácio, Lucano, Donato, Prisciano, etc., e ainda muitos outros que não são enumerados, invenis alias perplures, lector... [13].

28. Havia muita disparidade nos acervos das bibliotecas monásticas e episcopais. Quando uma sede episcopal ou uma abadia eram dirigidas por um homem sábio, letrado e dinâmico, a biblioteca enriquecia-se, como ocorreu em York. Quando um mosteiro possuía escola, a biblioteca do mosteiro ampliava-se por força dos estudos e até se constituía biblioteca especial para os alunos. Havia, porém, mosteiros pobres e com poucos livros, só os estritamente necessários, como aconteceu na Lusitânia na época difícil dos suevos e da ocupação muçulmana. Segundo Frei José Mattoso, os monges dispunham da Bíblia, de obras dos Santos Padres, de algumas obras históricas e canônicas. No mosteiro de Leça, por exemplo, havia um exemplar das Etimologias de Santo Isidoro, mas sempre nas outras casas religiosas tudo era muito escasso e muito pobre, "magros vestígios que através dos séculos são na sua humildade o sinal da luta pela sobrevivência do espírito num meio e numa época em que a defesa da própria vida era mais urgente"  [14]. Thomson analisa em erudito artigo a situação da biblioteca da abadia de Santo Edmundo de Bury nos séculos XI e XII e nota que até 1080 ela era pequena e acanhada, mas com o advento de um abade ilustrado, Anselmo (1121-1148), ela se transformou e enriqueceu com as coleções de autores clássicos e patrísticos, comparável às grandes bibliotecas de Cantuária, Clúnia e Corbie. Apesar da sua atualização com a aquisição de modernas obras bíblicas e teológicas, o seu objetivo era o estudo contemplativo da Sagrada Escritura. As obras de dialética não gozavam de popularidade, embora houvesse interesse, pela poesia, pela história e por obras jurídicas e médicas [15].

29. Como já tivemos a oportunidade de assinalar, os monges dedicavam-se no scriptorium à cópia e à reprodução dos preciosos manuscritos, assim como à publicação de obras de escritores da casa ou de quem lhes confiasse a tarefa da edição. É este o momento de esclarecermos uma questão à qual se alude de vez em quando com malícia, quando se faz referência ao plágio entre os autores medievais. Antes de tudo, convém saber e proclamar que o plágio é tão antigo quanto a escrita, e é processo muito em voga entre os p1umitivos atuais. Na sua grande obra sobre Santo Isidoro de Sevilha menciona Jacques Fontaine a freqüência das citações e de segunda mão e sem indicação do autor, feitas pelo famoso autor das Etimologias [16]. São Beda, no entanto, era escrupuloso quanto à citação das fontes. Veja-se o que ele diz sobre o assunto no prólogo do seu comentário sobre o Evangelho de São Lucas [17]. O que acontece, e quase todos ignoram, é que os editores modernos não têm tido o cuidado de transcrever as notas marginais que se acham nos manuscritos [18]. Sem embargo disso, havia cópias voluntárias e involuntárias e casos de plágio deliberado mas, como observa De Ghellinck S.J., a propriedade literária não era respeitada, máxime quando se tratava de quaestiones anônimas. Muitos mestres apropriavam-se do que liam, tanto que no caso dos glosadores não é fácil identificar os mútuos empréstimos e quer nesse domínio quer nos da teologia dogmática, do direito canônico, da pregação, havia quanto à propriedade literária "uma sem-cerimônia desconcertante para os modernos" [19]. Finalmente, vale a pena saber o que ensina Moses Hadas sobre a antigüidade clássica do plágio, ao referir as queixas de Aristófanes e Isócrates contra os seus plagiadores e ao analisar tal fenômeno entre os letrados do período helenístico [20].


Notas:

[13] Alcuinus, "Versus de Sanctis Euboricensis Ecclesiae", in Alcuini Carmina, in Poetae Latini Aevi Carolini. Ed. Ernestus Duemmler, Tomus I, págs. 203-204. Veja-se a análise do catálogo dos livros da biblioteca da catedral de York em A. F. The Schools of Medieval England, págs. 60-63.

[14] Frei José Mattoso, A Cultura Monástica em Portugal (711-1200), pág. 34.

[15] R. M. Thomson, "The Ubrary of Bury St. Edmunds A bbey in the eleventh and twelfth centuries", em Speculum, vol. 47.

[16] Jacques Fontaine, Isidore de Séville et la Culture Classique dans l'Espagne Wisigothique, vol. II, pág. 745.

[17] São Beda, em Lucae Evangelium Expositio, Prologus (Corpus Chrístianorum, 120), pág. 7. Migne PL 92, cl. 304 B.

[18] Sutcliffe, Some footnotes to the Fathers.

[19] J. De Ghellinck, S. J., L'Essor de la Littérature Latine au Xlle siecle, 2e édition, págs. 87-88, 96.

[20] Moses Hadas, Ancilla to Classical Reading, págs. 69-70, 187.

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Leia mais em Uma breve história do livro

Leia mais em Como se produziam os livros antigos



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S. Basílio Magno e a Matematização da Natureza

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SÃO BASÍLIO SERIA CONTRA A MATEMATIZAÇÃO DA NATUREZA,

por Daniel Fernandes, disponível no LINK.

Para São Basílio (século IV), os números e proporções podem ser meios de perceber a ordem do cosmos, mas jamais expressam a realidade última das coisas, como pensam os modernos (desde Galileu, Newton e Descartes). A natureza não é pura abstração, mas CRIAÇÃO REAL, dotada de qualidades, forma e finalidade. Por isso mesmo, penso que, em certo sentido, São Basílio seria um crítico contundente da “matematização da natureza”, que reduziu, no começo da era moderna, a realidade natural a números, fórmulas matemáticas ou estruturas sem qualidades. A criação, na visão basiliana, não é apenas quantidade, mas sobretudo um sinal da Sabedoria divina.

O que me chamou a atenção para isso foi este trecho da primeira homilia de seu Hexameron, que releio agora em sua edição física:

“No que diz respeito à terra, estamos convencidos de que não devemos dedicar-nos a investigações indiscretas com o fim de saber qual é sua essência e de esforçar-nos em decifrar, por meio de raciocínios, o que jaz sob as aparências. Não busquemos uma substância desprovida de qualidades, a qual por si mesma existiria sem nenhuma propriedade, mas saibamos que tudo o que vemos nela concorre para dar-lhe existência, completando sua essência. Se, pela razão, esforçares-te em descartar cada uma das qualidades que nela subsistem, enfrentar-te-ás com o vazio. Pois, se fazes abstração do negro, do frio, do pesado, do denso, do gosto e de todas as outras [qualidades] que se podem observar nela, o que resta seria nada.”

Ora, com a ciência moderna, a substância sensível, concreta, foi esvaziada de suas qualidades ricas e reduzida a extensão, massa, movimento, algo formalizável em equações . No fundo, isso não conduz a um “substrato sem qualidades”? A um “x” que sustenta relações matemáticas, mas do qual nada sabemos, exceto sua mensurabilidade? (Heisenberg chegou a isso).

Basílio já advertia, com séculos de antecedência, contra a tentação de tentar penetrar a "essência última" da matéria por especulações “indiscretas”, isto é, investigações puramente abstratas e à margem da experiência. Ele rejeitou de antemão a ideia de que seria possível chegar a uma "substância sem qualidades", algo absolutamente nu de propriedades. A essência da terra, portanto, não estaria escondida por trás das qualidades, mas seria justamente constituída por elas. O visível e o palpável não seriam meras aparências enganadoras, mas modos reais de existência.

Não por acaso, ele advertiu: “Se, pela razão, esforçares-te em descartar cada uma das qualidades que nela subsistem, enfrentar-te-ás com o vazio. Pois, se fazes abstração do negro, do frio, do pesado, do denso, do gosto e de todas as outras [qualidades] que se podem observar nela, o que resta seria nada.”

Ou seja, a "terra", para Basílio, é inseparável das suas propriedades. O mundo criado não é uma ilusão, mas uma realidade dotada de consistência e beleza, cuja verdade se encontra justamente em suas propriedades sensíveis. Essa visão basiliana reforça a bondade da criação: tudo aquilo que vemos e experimentamos é uma participação no ser, dado por Deus. A criação, neste sentido, não precisa ser reduzida a uma essência abstrata oculta; ela é plena em sua MANIFESTAÇÃO CONCRETA. A essência do mundo criado não é uma abstração separada das qualidades, mas o conjunto delas, que nos remete ao Criador.

É óbvio que Basílio estava criticando uma tendência bastante comum entre alguns autores do mundo antigo, que reduziam a realidade natural a princípios abstratos, esquecendo o caráter concreto e criado do cosmos. Penso que a crítica aos modernos encaixa-se como antecipação porque ele rejeita que a natureza seja apenas número, proporção ou estrutura sem qualidade.

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Leia mais em A Matematização do Mundo

Leia mais em A Matemática leva a Deus: Euclides, Hilbert e o futuro da Matemática



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