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PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
Marcelo Santiago Berriel
Quando, em 2012, a professora Monique Goullet ministrou uma oficina de latim medieval organizada pelo Núcleo de Estudos sobre Narrativas e Medievalismos (Linhas) e realizada nas dependências do campus de Nova Iguaçu da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, estudantes e pesquisadores brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer, na prática, o método cuidadoso e prático do Apprendre le Latin Médiéval - Manuel pour grands commençants, obra de inestimável contribuição aos estudos medievais de autoria da professora em questão e de Michel Parisse. Os autores do manual dispensam apresentações, suas publicações e pesquisas os notabilizam há décadas. Cabe-nos aqui apenas ressaltar a importância da edição desta obra que chega ao público lusófono.
Publicado em 1996 (e sempre reeditado desde então), o manual ganha agora sua versão em língua portuguesa. Versão que não se caracteriza apenas por ser uma importante ferramenta para estudantes e pesquisadores, mas também por ser produto de um volumoso trabalho em equipe envolvendo pesquisadores de três países. Ao lado dos pesquisadores brasileiros do Linhas, trabalharam zelosamente os pesquisadores do Centro de Estudos Clássicos, da Universidade de Lisboa, além, obviamente, do acompanhamento sempre atento de Monique Goullet.
Desde que o projeto para esta tradução foi iniciado, os professores do Linhas conseguiram construir acordos profícuos com os colegas portugueses, o que resultou em uma edição ímpar, sobretudo considerando que a contribuição destes proporcionou que a obra ganhasse uma de suas características mais dignas de nota: os Exercises Pratiques de Traduction do original em francês foram completamente adaptados com fontes concernentes à história medieval portuguesa, presenteando o leitor lusófono com uma selecta planejada e direcionada às suas características específicas (tendo em vista que a maioria dos medievalistas de língua portuguesa pesquisa temas ligados ao medievo português). O leitor tem em mãos, portanto, mais do que uma boa tradução de um importante manual de latim medieval, o fruto de um trabalho coletivo internacional concebido para auxiliar nas pesquisas dos interessados nas lições aqui contidas.
Esta obra é fruto de uma experiência pedagógica realizada Entre os anos de 1993-1995, dirigida aos estudantes de licenciatura que, desejando empreender um mestrado e um doutorado em história medieval, não tinham, durante o ensino médio, estudado latim. Os manuais de iniciação ao latim clássico, aliás excelentes quanto ao resto, porém concebidos para estudantes de letras ou de línguas, revelaram-se inadequados em função dos seus objetivos, dos seus métodos e do tempo de aprendizagem requerido.
Na realidade, o ensino de latim não pode ocupar um lugar excessivo no emprego do tempo de um estudante de história. O horário ideal seria duas horas semanais: uma voltada à explicação da lição, à repetição das declinações e das conjugações, à análise das formas, e outra dedicada ao contato com os textos. Os primeiros estudantes que utilizaram este manual tiveram apenas uma hora semanal de curso. Eles admitiram que lhes seriam necessárias, em geral, mais de duas horas de trabalho pessoal e, para alguns, até mesmo quatro horas semanais para que conseguissem assimilar adequadamente o programa. Um número razoável deles já tinha frequentado cursos de latim clássico, durante o ensino médio, mas reconhecia que não havia absorvido um conhecimento suficiente. A perspectiva de um latim “mais fácil” parecia-lhes atraente. Após um ano, eles tinham aprendido acerca do latim e não o latim. Assim, sabiam o bastante para não mais temer abordar textos nessa língua, Caso se disponha apenas de uma hora de curso por semana, convém que o estudante estude sozinho a lição e prepare os exercícios de aplicação, para que a aula possa ser dedicada a resolver as dificuldades de compreensão e a dar explicações complementares. No fim de cada lição, encontra-se uma lista com uma dezena de palavras para a memorização. Trata-se, evidentemente, do mínimo necessário para que se estabeleça o hábito do estudo. Na verdade, os progressos serão tanto mais rápidos quanto mais depressa o estudante retiver o conjunto do vocabulário das lições, que pertence, em sua quase totalidade, ao léxico básico do latim medieval.
Este manual não é autossuficiente, embora dê indicações sobre a morfologia e a sintaxe, sobre a etimologia dos vocábulos e o seu léxico. A utilização sistemática e regular de um dicionário e de uma gramática de latim clássico é obrigatória, porque não existe uma gramática usual [4] nem um dicionário completo de latim medieval. A aquisição desses instrumentos é indispensável, uma vez que, no presente método, nem tudo é objeto de uma explicação sistematizada e detalhada. O acesso à tradução precisa e correta exigirá longos anos de treinamento, e sai do âmbito destes rudimentos.
Agradecemos, inicialmente, aos estudantes das universidades de Paris I e de Nancy II que serviram como cobaias. Eles aceitaram fazer preciosas observações, dar-nos suas impressões e também nos encorajaram. Destacamos, igualmente, o acolhimento dado à nossa iniciativa por parte de numerosos colegas aos quais somos gratos.
Notas:
[1] K. Strecker. Introduction à l'étude du latin médiéval. Paris, Presses Universitaires de France, 1946, p. 10.
[2] Chamamos de paradigma um modelo de declinação ou de conjugação.
[3] Para evitar que se alongue nossa apresentação, não daremos as referências das frases isoladas utilizadas nos exemplos ou nos exercícios. O caráter edificante de muitos de nossos exemplos e de nossos exercícios explica-se, precisamente, pela nossa vontade de os retirar, diretamente, das fontes medievais, no seio das quais os textos com objetivos religiosos ou morais estão sobrerrepresentados.
[4] Assinalamos, no entanto, a publicação da gramática de Peter Stotz. Cf. P. Stotz. Handbuch zur lateinischen Sprache des Mittelalters. Munich, Beck, 1996, 5 volumes, especificamente o volume 3, Lautlehre (Fonética), e o volume 4, Formenlehre, syntax und stilistik (Morfologia, sintaxe e estilística), 1998.
INTRODUÇÃO
1 - O LATIM MEDIEVAL
A história do latim medieval estende-se do século V ao século XV. Em mil anos, essa língua conheceu uma lenta evolução e passou por tantas transformações quanto tinha passado durante os oito séculos que compreendem o período chamado de Antiguidade clássica e, após, a Antiguidade tardia (do século III a.C., data dos primeiros testemunhos literários, ao século V d.C.). Assimilando, abusivamente, o latim clássico ao de Cícero, esquecemos que a língua de Plauto (século III a.C.) era bem diferente da de Plínio (século I d.C.) e que, por razões cronológicas e estéticas, ambos se distinguiam da língua de Cícero (século I a.C.) ou do seu contemporâneo Lucrécio, embora o latim de Cícero e o latim de Lucrécio fossem diferentes entre si. Desde o fim do Império Romano, numerosas transformações já tinham ocorrido no que, às vezes, ainda chamamos de baixo-latim. Além disso, depois do século XV, o latim permaneceu vivo e, da literatura do Renascimento até o século XVIII, há um número considerável de poemas e de peças de teatro escritas em latim. Enfim, o vigor desse neolatim foi tal que, até o início do século XX, era em latim que se apresentavam as teses complementares [*] ao doutorado de Estado. Assim, percebemos que a Idade Média é apenas uma etapa na longa história da língua latina.
Portanto, não é pertinente opor o latim medieval ao clássico e apresentar o primeiro como uma degradação do segundo. Antes de mais nada, as singularidades adquiridas pelo latim ao longo dos séculos não seriam capazes de esconder sua continuidade filológica, uma vez que, entre os diferentes estados do latim, há uma lenta diferenciação e não oposições capazes de realizar uma ruptura. A compreensão do latim medieval impõe que se considerem as contribuições do latim cristão do período chamado de Antiguidade tardia, no curso do qual se constitui um verdadeiro idioma específico ao universo do cristianismo, do qual ele assume novos conceitos. Assim, o latim medieval é formado mais por enriquecimentos sucessivos do que por rupturas. Além disso, foi o latim clássico que serviu de modelo e de ideal aos "instrutores" de Carlos Magno, aos quais devemos o reaparecimento de algumas obras latinas redigidas durante o período que chamamos de Renascimento Carolíngio, e que inaugura vários séculos de uma vivaz literatura latina. Em uma certa medida, então, a leitura do latim medieval não é extremamente diferente da do latim clássico, ainda mais porque os textos propostos ao historiador raramente são anteriores ao século IX.
Em compensação, também não seria justo negar a característica errônea, surpreendente e, mesmo, anômala de alguns textos merovíngios, que foram qualificados por alguns como "latim de cozinha", e que se explica, ao mesmo tempo, pelo declínio da cultura, que prejudicou a transmissão da tradição latina, e pela influência da língua falada [1]. Tal estado de degradação tornara necessário o esforço de normatização do Renascimento Carolíngio. Segundo a mesma ordem de ideias, o latim medieval, que somente era falado em circunstâncias muito particulares [2], jamais constituiu uma língua materna e, sobretudo a partir do século XIII, era frequentemente apenas a transcrição de um pensamento cuja expressão natural teria sido em uma língua vernacular, como, por exemplo, o francês, o italiano ou o alemão. O latim medieval deixou de ser uma língua materna para se transformar, segundo a fórmula de um linguista, na "língua pátria da república dos letrados", ou seja, um idioma supranacional, utilizado por toda a Europa exclusivamente como língua culta, literária, técnica, administrativa ou jurídica. Se apresenta a mesma correção que o latim clássico, ele o deve mais aos tratados dos gramáticos e aos seus exercícios de imitação do que ao seu próprio curso natural. Diante dessa trama linguística comum, é necessário que nos esforcemos também para nos familiarizar com as particularidades de cada época, com os gêneros literários e com os autores, sobretudo no plano do léxico, cuja compreensão está ligada à dos realia e dos conceitos do universo medieval.
Há, no entanto, uma outra coisa. Contrariamente aos textos antigos, os textos medievais podem ser lidos, diretamente, em manuscritos cuja redação é contemporânea (ou quase) da sua elaboração. Ler e compreender o latim medieval é também percorrer, diretamente, as cartas, os sermões, as preces, as crônicas, resolvendo, corretamente, as abreviaturas, decifrando, convenientemente, a grafia. Isso explica algumas particularidades deste livro, cuja pretensão é a de ser um manual de aprendizagem para uso daqueles que vão confrontar-se não apenas com as edições, mas também com as fontes originais, frequentar os arquivos, ler os manuscritos medievais.
[*] As teses complementares ao doutorado de Estado eram teses curtas, escritas em latim, cujo tema deveria ser diferente do tema da tese de doutorado de Estado, mas que eram obrigatórias para a obtenção do título. (N. da T.)
Referências bibliográficas
BLAISE, A. Manuel du latin chrétien. Strasbourg, Le Latin Chrétien, 1955.
BODSON, A.; DUBUISSON, M. & FAMERIE, E. Méthode de langue latine pour grands commençants et étudiants. Paris, Nathan, 1989 (latim clássico).
BOUET, P.; CONSO, D. & KERLOUEGAN, F. Initiation au système de la langue lati- ne. Du latin classique aux langues romanes. Paris, Nathan, 1975 (A abordagem sincrônica foi completada por um estudo diacrônico que considera o sistema do latim literário clássico, o do latim chamado vulgar e o do latim falado da alta Idade Média).
COLLINS, J. F. A primer of ecclesiastical latin. Washington D.C., CUA Press, 1985.
DÉLÉANI, S. & VERMANDER, J.-M. Initiation à la langue latine et à son système. Vol. I: Manuel pour grands débutants. Paris, Sedes, 1975 (latim clássico).
MAROUZEAU, J. La traduction du latin: Conseils pratiques. 5. ed. Paris, Belle-Lettres, 1969.
NORBERG, D. Manuel pratique de latin médiéval. Paris, Picard, 1968 (Contém um breve histórico do latim medieval e uma antologia de textos que, em sua maioria, são literários).
QUEDNAU, L. R. O acento do latim ao português arcaico. Tese de doutorado. Porto Alegre, Faculdade de Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2000.
SIDWELL, K. Reading medieval latin. Cambridge, Cambridge University Press, 1995 (Antologia de textos apresentados e comentados).
STOCK, L. Gramática de latim. Lisboa, Editorial Presença, 2000.
STOTZ, P. Handbuch zur lateinischen Sprache des Mittelalters. Munich, Beck, 1996, 5 volumes.
STRECKER, K. Introduction à l'étude du latin médiéval (Traduzido do alemão por p van de Woestijne). 6. ed. 1971. Paris, Presses Universitaires de France, 1946, revisão de R. B. Palmer, Introduction to medieval Latin, 1957.
2 - A PRONÚNCIA DO LATIM
a) A pronúncia "restaurada" do latim clássico breves,
Embora seja possível reconstituir, facilmente, a pronúncia do latim nas diversas épocas nas quais foi falado, seria muito difícil colocá-la em prática, essencialmente por duas razões: em primeiro lugar, o latim clássico compreendia, além de sons desconhecidos do português, uma sucessão de sílabas longas e e uma acentuação estranha ao caráter da nossa língua [*]; por outro lado, a pronúncia do latim evoluiu, ao longo do tempo, e também se diferenciou bastante em cada região, influenciada, em diversos níveis, pelas falas regionais [3]. Então, se foi estabelecida uma convenção, há alguns anos, sobre uma pronúncia dita restaurada do latim clássico, a qual sabemos, aliás, que é muito aproximativa, por outro lado, não há uma "vulgata" para o latim medieval e não é possível tê-la.
Por isso, por uma preocupação essencialmente prática de uniformização, propomo-nos adotar a pronunciação restaurada, por mais artificial e convencional que seja, corrigida à luz das principais modificações fonéticas ocorridas ao longo do tempo.
[*] Os autores referem-se naturalmente à língua francesa. O português conserva sem grandes alterações a acentuação latina. (N. da T.)
Todas as letras são pronunciadas e sempre da mesma forma: deus = dêuss, haud = háud (com aspiração) etc. Na pronúncia restaurada, não há nasalização, isto é, mentem é pronunciado <menntemm>, o que, certamente, não se conforma com a realidade histórica: as consoantes finais nasalizam, provavelmente, a vogal, mesmo na época clássica.
O s antes de consoante (sc, sch, sp, st) é sempre pronunciado separadamente, como, por exemplo, sceptrum = s-ceptrum; schola = s-chola; spiritus = s-piritus; studium = s-tudium [*].
b) Principais modificações da pronúncia do latim medieval em relação ao latim clássico
No latim clássico, ae e oe eram ditongados. No entanto, no latim medieval, eles foram monotongados em e, o que é confirmado pela grafia dos manuscritos, nos quais, por exemplo, cenobium é a grafia habitual da palavra coenobium, e ecclesie é a grafia ordinária da forma ecclesiae (encontramos, além disso, frequentemente, œcclesie). É conveniente ler e tanto para ae quanto para oe. Nos manuscritos, a terminação -ae do latim clássico pode então ser expressa por -ae, -e, ou ainda por um e cedilhado, que são grafias diferentes de um mesmo fonema.
A letra y era estrangeira ao alfabeto latino, como indica o seu nome em francês (= i grego) [**]. Transcrição do upsilon grego, lia-se, primitivamente, o y como o ü francês em um certo número de palavras oriundas do grego: presbyter pronunciava-se presbüter no latim clássico. No latim medieval, ele substituía, frequentemente, o i (lacryma é uma grafia medieval de lacrima) e sempre era pronunciado como i, mesmo no caso das palavras com origem grega: presbyter pronunciava-se presbiter.
No latim clássico, -c sempre era pronunciado como -k, mesmo antes de -e ou -i. No latim medieval, havia assibilação, o que significa que -ci pronunciava-se -si e que -ce pronunciava-se -se. Contudo, a presença, no interior de um mesmo modelo de declinação, de formas não assibiladas deve ter exercido uma influência: assim, amicis pôde continuar a ser pronunciado amikis, sob a influência da forma amicus, que se pronunciava amikus. No latim clássico, a pronunciação de -tia era claramente diferente da de -cia. No latim medieval, como comprova a grafia dos manuscritos, a pronúncia de -ti + vogal passou a ser idêntica à de -ci + vogal. Assim, encontraremos, indiferentemente, patientia, patiencia, paciencia.
[*] Informação extraída do livro de Stock, 2000, p. 9. (N. da T.)
[**] Em francês, a letra y chama-se i grec, isto é, "i grego". (N. da T.)
O latim medieval, como o latim clássico, ignorava j e v. Em português, usamos j e v para transcrever i e u em uma situação de semiconsoante, ou seja, na posição inicial ou intervocálica, como, por exemplo, em iam (= jam), Troia (= Troja), uos (= vos), triuium (= trivium). Contudo, alguns escribas usavam as letras v e j. Encontramos tanto uuillelmus quanto vvillelmus, que os editores transcreveram Willelmus. O problema da transcrição dessas duas letras é muito debatido pelos especialistas em edição de textos medievais. É conveniente pronunciar j como i, e v como u.
Algumas palavras do latim clássico, que se aprenderão com o uso, viram sua pronúncia e sua ortografia modificarem-se durante a Idade Média. Por exemplo, mihi (forma do pronome pessoal da 1ª pessoa do singular) transformou-se em michi, e nihil (= nada) transformou-se em nichil.
A letra -h pode juntar-se a -c, -t ou -p (charitas = caritas, caridade) ou, ao contrário, cair após essas mesmas letras (spera = sphera, esfera). Ela também pode juntar-se ou cair quando em posição inicial (ortus = hortus, jardim; hac = ac, e). Encontramos -t por -d e vice-versa (set = sed, mas). Um -p chamado epentético foi, frequentemente, introduzido entre -m e -n para evitar a assimilação desses dois sons (columpna = columna, coluna).
Expomos, enfim, de forma sucinta, a questão do acento e da quantidade silábica. No latim clássico, o acento da palavra era de altura (ou seja, melódico), uma vez que a sílaba acentuada era pronunciada em um tom mais elevado. Assim, afeta sempre a primeira sílaba de uma palavra dissílaba e, se ela for longa, a penúltima sílaba de uma palavra de três ou mais sílabas. Se a penúltima for breve, a antepenúltima sílaba receberá o acento. Os monossílabos são também acentuados, à exceção de certas palavras (preposições, conjunções):
quod, clérus, tabernáculum (-cu breve); testaméntum (-men longo)
A quantidade (= a duração) das vogais é dada pelo dicionário, porém poderemos reter elementos simples de prosódia: uma vogal seguida de uma outra vogal é sempre breve; uma sílaba é longa se contiver uma vogal longa por natureza, um ditongo ou uma vogal breve em posição fechada, ou seja, seguida de duas consoantes.
No latim medieval, deixamos de diferenciar as sílabas breves e as longas. Além disso, o acento mudou de natureza sem mudar de lugar. Ele se transformou em um acento de intensidade, ou seja, a sílaba sobre a qual foi colocado é pronunciada com mais força. Essa evolução explica a passagem do latim clássico ao medieval e, em seguida, ao português, cuja tendência foi a da manutenção do acento na mesma sílaba em que se encontrava no latim medieval [*], de uma palavra como dóminus < dómnus < dom. Esses fenômenos complexos, cujos detalhes não aprofundaremos, são importantes para compreender a passagem do latim às línguas românicas, de um lado, e o sistema de versificação do latim clássico e do medieval, de outro.
Em conclusão, devemos reter que a nossa pronúncia do latim medieval será sempre muito aproximativa e, mesmo sem garantia de autenticidade histórica, contentar-nos-emos em ser coerentes.
[*] Para maiores informações sobre esse processo na língua portuguesa, cf. Quednau, 2000, p. 33 e ss. (N. da T.)
3 - A LEITURA DOS TEXTOS
a) Os textos editados
A maioria dos textos medievais editados é pontuada segundo as regras em vigor nos locais e nas datas de sua edição e não segundo a pontuação original do manuscrito. Além disso, os editores modernos distinguem os nomes próprios dos comuns, atribuindo-lhes uma letra inicial maiúscula. Os princípios da pontuação medieval eram diferentes dos nossos pelos símbolos usados e pela utilização que se fazia deles. Em todo caso, seria simplista declararmos, com base em alguns textos, que os escribas da Idade Média não sabiam pontuar ou que pontuavam segundo a sua imaginação.
A pontuação utilizada atualmente segue regras diferentes segundo os países, não tanto pela utilização do ponto final, que representa uma grande pausa forte, mas pelo uso do ponto e vírgula, dos dois-pontos e, sobretudo, da vírgula. Particularmente, certos editores repartem, com cuidado, o texto para isolar os elementos da oração, facilitando, assim, a sua compreensão. Já outros editores utilizam a vírgula com parcimônia. No caso do uso das letras iniciais em maiúscula, também existem divergências. O Comitê Internacional de Diplomática recomenda escrever com maiúscula Deus (Deus), Dominus (o Senhor), Virgo (a Virgem), bem como utilizá-la para os adjetivos derivados de nomes próprios (Parisiensis, parisiense; Cisterciensis, cisterciense). Há ainda os casos em que se utiliza a maiúscula para facilitar a leitura e a compreensão, designando, especialmente, os nomes de lugares e de pessoas que poderiam ser confundidos com nomes comuns (por exemplo, vicus, aldeia, é diferente de Vicus, Vic (-sur-Seille)) [*].
b) Os textos manuscritos
Notícia [**] de Marmoutier, A.D. Maine-et-Loire 40 H 1
Transcrição
Omnibus notum fieri volumus quod Gausfredus de Baraceio calumniabatur nobis monachis scilicet Maioris Monasterii apud Dalmariacum manentibus terram quandam quam Rainardus cognomento Choerius et uxor ejus nomine Maria de Rogeio nobis dederant pro animabus suis, propterea scilicet quod filiam eorum Richildem nomine duxerat conjugem. Postea vero propter Dei et beati Martini amorem atque nostrum concessit eam nobis in perpetuum coram Girardo de Doxeio, accipiens inde quasi pro caritate centum solidos a domno Ernaldo ipsius tunc obedientiae priore, Girardo eodem concedente et propter ipsam concessionem XX solidos recipiente. Cujus utriusque concessionis testes hi sunt: Jaguelinus, Mainardus de Praia, Drogo famulus, Hubertus Nigrum Dorsum, Rainardo de Cortice. Postea quoque in die Exaltationis sanctae Crucis perrexerunt simul ad castrum quod Matefelon dicitur supradictus prior et predictus Girardus. Ubi superius memoratus Gausfredus fecit uxorem quam Richildem nomine et filium suum ac filiam concedere quod ipse prius de terra superius memorata concesserat. Quorum utrique dedit ipse monachus III denarios, testibus his Jaguelino, Algerio de Dalmariaco, Rainaldo Beichart, Drogone famulo.
(Arquivos departamentais do Maine-et-Loire, 40 H 1.)
Tradução
Nós queremos que seja do conhecimento de todos o que Gausfredo de Baraceio nos reclamava, abusivamente, a nós, monges do Mosteiro de Marmoutier, instalados em Daumeray, ou seja, uma terra que Rainardo, apelidado de Quério, e sua mulher, chamada de Maria de Rogeio, nos haviam dado para a salvação de suas almas, uma vez que ele casou sua filha Richilde. Mas, em seguida, por amor a Deus, ao bem-aventurado Martinho e do nosso, ele a deu a nós, para sempre, na presença de Girardo de Doxeio, recebendo então, como agradecimento, 100 soldos de dom Ernaldo, então prior desta observância, com a anuência do mesmo Girardo, que recebeu 20 soldos em troca desta concessão. Dessa dupla concessão são testemunhas Jaguelino, Mainardo de Praia, o servidor Drogo, Huberto Costas Negras, Rainardo de Cortice. E, em seguida, também no dia da Exaltação da Santa Cruz, o citado prior e o mencionado Girardo dirigiram-se juntos ao castelo de Mateflon. Lá, o acima referido Gausfredo cedeu para sua mulher Richilde, para seu filho e para sua deu filha a parte que ele próprio concedera da terra acima referida. Esse monge três denários a cada um deles, diante das seguintes testemunhas: Jaguelino, Algerio de Dalmarico, Rainaldo Beichart, o servidor Drogone [4].
Vejamos algumas observações preliminares concernentes ao latim escrito por um escriba medieval:
As palavras são, frequentemente, abreviadas, e, às vezes, além das regras de abreviação - mais ou menos seguidas, mais ou menos idênticas segundo os períodos e as regiões -, o conhecimento do latim é indispensável para transcrever corretamente um texto. Através da comparação entre o original e a sua transcrição, descobre-se assim que omib com -s sobreposto deve ser lido omnibus, que o -m final de notum e o -us de volumus foram transcritos através de símbolos especiais do mesmo modo que o -us de Gausfredus, enquanto a associação do -q e do -d por contração traçada não deve ser lida como quid, mas como quod. A aprendizagem do latim medieval e a da paleografia são, então, igualmente exigidas.
- Aqueles que estão habituados a folhear dicionários de latim clássico nem sempre encontrarão as palavras decifradas. Isso se deve ao fato de que algumas são termos específicos da Idade Média ou nomes ou cognomes à pessoas, ao passo que outras foram submetidas a modificações fonética; ou sua ortografia é diferente. Lemos, assim, dommo como domino, -ti e -ci são confundidos etc. O editor moderno introduziu as letras maiúscula; para facilitar a compreensão de algumas palavras (nomes de pessoas ou palavras do vocabulário religioso, como, por exemplo, Crux), o que era raramente realizado pelo escriba medieval. A pontuação é igualmente diferente: o escriba pontuava seu texto em função das pausas realizadas no momento da leitura em voz alta, ao passo que o editor segue os imperativos semânticos e sintáticos da pontuação moderna. É necessário estar atento à pontuação medieval, a qual ajuda, frequentemente, na compreensão de um texto que não era destinado a uma leitura silenciosa.
- Enfim, o vocabulário torna-se um obstáculo caso não se conheçam as práticas e as instituições da Idade Média. Assim, as palavras prior e obediência só são compreendidas dentro do contexto monástico da época.
- As fontes históricas medievais são muito numerosas e torna-se necessário um certo número de precauções antes de lê-las e de analisá-las. Os escribas e os autores empregam um latim variado; um texto, como a ata da prática dos monges de Marmoutier, difere de um texto jurídico ou literário. É preciso prestar muita atenção à natureza dos documentos a estudar.
[*] Neste caso, trata-se de uma referência à comuna, que, segundo os padrões medievais, era, em níveis populacional, econômico e político, superior à vila. No exemplo citado, os auto- res referem-se a Vic-sur-Seille, que é uma comuna francesa localizada no departamento de Moselle, na Lorena. (N. da T.)
[**] Notícia é um pequeno texto descritivo e explicativo destinado a apresentar sumariamente um tema particular. (N. da T.)
4 - A TRADUÇÃO
a) Os instrumentos: Dicionários e gramáticas
Para a compreensão, a utilização de dicionários é, frequentemente, indispensável. Um dicionário de latim clássico é suficiente para resolver uma grande parte dos problemas. O dicionário de referência, na língua francesa continua a ser GAFFIOT, F. Dictionnaire illustré latin-français. 1re ed. Paris, Hachette, 1934; há ainda uma nova edição revista e ampliada sob a direção de FLOBERT, P. Le grand Gaffiot. Dictionnaire latin-français. Paris, Hachette, 2000. A edição de 1934 está, atualmente, disponível gratuitamente on-line no site <www.lexilogos.com>, assim como outros dicionários de latim (latim-francês, latim-inglês etc.).
Já para os casos que não são resolvidos com esse dicionário, existem dicionários específicos dedicados ao latim medieval. Neste livro, citamos apenas os mais comuns, excetuando os que estão em processo de elaboração e são, portanto, incompletos. Abaixo, indicamos uma relação de dicionários:
BLAISE, A. Dictionnaire latin-français des auteurs chrétiens. Turnhout, Brepols, 1954.
DU CANGE. Glossarium mediae et infimae latinitatis. 8 volumes. Paris, Institui Francie Typographi, 1850. [Pode ser consultado on-line no site <http:// ducange.enc.sorbonne.fr/>.] (Trata-se de uma obra muito antiga, cuja primeira edição data de 1678. Foi escrita totalmente em latim, recenseia o vocabulário específico da Idade Média e traz exemplos para documentar; ajuda na compreensão, embora não forneça traduções. É muito útil para o vocabulário concreto, particularmente do final da Idade Média.)
FERREIRA, A. G. Dicionário de latim-português. 4. ed. Porto, Porto Edi- tora, 2012.
NIERMEYER, J. F. Mediae latinitatis lexicon minus. Leyde, Brill, 2002. (Tradução em francês e inglês, às vezes comentada, de termos essencialmente técnicos. Obra muito útil para a diplomática.)
TORRINHA, F. Dicionário latino português. 1. ed. 1937. (3. ed. 1986). Porto, [s.e.], 1937. [esgotado.]
O estudante deverá, além disso, recorrer regularmente a uma gramática completa do latim clássico de sua escolha. Na língua francesa, damos, como exemplo, MORISSET, R.; GASON, J.; THOMAS, A. & BAUDIFFIER, E. Précis de grammaire des lettres latines. Paris, Magnard, 1977.
Para um aprofundamento e para a resolução de problemas pontuais, podemos consultar:
ERNOUT, A. & THOMAS, F. Syntaxe latine. Paris, Klincksieck, 1972. (Abordagem descritiva e não normativa. Dedica algum espaço ao latim tardio.)
HOFMANN, J. B. Lateinische syntax und stylistik. 2. ed. Munich, a. Szantyr, 1965. (Obra publicada em alemão, muito erudita e também um pouco difícil para um iniciante, porém considera o latim medieval.)
FARIA, E. Gramática superior da língua latina. Rio de Janeiro, Livraria Acadêmica, 1958. (Biblioteca Brasileira de Filologia, 14.)
b) Técnica de tradução
Uma tradução realizada palavra por palavra gera uma compreensão apenas parcial do texto. Assim, é necessário que façamos uma adequação estilística de modo a torná-la clara e aprimorada, lembrando-nos, com frequência, da célebre máxima italiana traduttore traditore, isto é, traduzir é trair. Portanto, é necessário que nos empenhemos em trair o menos possível o texto latino [5].
Após termos ultrapassado a etapa da aprendizagem, tiraremos um grande proveito do livro BOURGAIN, P. & HUBERT, M-C. Le latin médiéval. Turnhout, Brepols, 2005.
Notas:
[1] Como afirmou D. Norberg, "O latim escrito da época merovíngia é um produto artificial, no qual se encontram, de forma confusa, as reminiscências da língua literária, as fórmulas fixas provenientes de períodos precedentes, os traços pertencentes à língua falada, as grafias inversas, como, por exemplo, ferrae ou invés de ferre (segundo o modelo terrae, forma clássica de terre) com excessos de 'regionalismos' e puros erros. Por volta do ano 700, esse latim tornou-se, completamente, caótico". Norberg, 1968, p. 31.
[2] Sobre a questão, muito controversa, do momento em que se parou de falar latim, recomendamos a sucinta, mas clara exposição: Bouet; Conso & Kerlouegan, 1975, pp. 17-30.
[3] Para uma exposição detalhada do sistema fonético do latim e de sua evolução, cf. Bouet; Conso & Kerlouegan, 1975, pp. 35-64.
[4] Devemos os nossos mais profundos agradecimentos a Yves Chauvin, que nos forneceu a identificação exata dos lugares citados neste texto.
[5] No caso da tradução do latim para o francês, os autores indicam como referência a seguinte obra: Marouzeau, 1969.
Leia mais em Latim pelo método natural
Leia mais em O ressurgimento do latim
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